A construção de um espaço: as caixas negras

Sem secções definidas na progressão visual e nas relações que se podem estabelecer entre as obras expostas, a exposição apresenta três espaços que foram pensados como locais mais secretos e experimentais, e que na prática funcionam como viagens no tempo para alguns aspetos da década escolhida: 1965-1975.

Estas três «caixas negras» surgiram da ideia da conspiração em tertúlias e reuniões secretas que aconteciam um pouco por todo o país durante o Estado Novo e referem-se a questões que ocorreram em Portugal. Contrapõe-se, deste modo, na exposição a ideia de um espaço fechado, de acesso limitado, que exprime uma cultura urbana onde a arte se relaciona com diferentes meios de expressão – como a música, a literatura, a televisão, o cinema, a fotografia, a imprensa escrita, etc –, com uma museografia ampla, de paredes suspensas, claras, que abre o espaço da exposição sobre o jardim, e cria deste modo uma maior fluidez entre as obras, garantindo uma continuidade visual entre as diferentes áreas.

 

«She loves me YÉ-YÉ»

Muitos se recordarão da música dos Beatles associada a este refrão, que encontrarão numa seleção de canções «yé-yé» nesta caixa que foi também dedicada à moda e à publicidade, através de algumas obras de arte e de documentação associada. Na sua envolvência no espaço exterior, obras de Teresa Magalhães, de Ruy Leitão, Sérgio Pombo ou Allen Jones referem o mesmo ambiente criativo e cultural.

«Este é o alvorecer da idade do Aquário»

“O despertar da idade de Aquário”, referido na célebre canção do musical Hair, relacionava-se com a libertação do corpo e com a libertação sexual, rompendo tabus e fazendo convergir ao mundo ocidental novas ideias vindas de outros pontos do globo. O Novo Cinema Português e a permanência em Londres de muitos artistas portugueses, subsidiados pelo programa de bolsas de estudo da Fundação Gulbenkian, contribuíram para a mudança de mentalidades no pais.

As pequenas caixas onde foram instaladas três esculturas inéditas de João Cutileiro e o «Relicário» de Clara Menéres, feito em 1969 mas só exposto pela primeira em 1977, reproduzem os mecanismos censórios da época, frequentemente voyeuristas, que incidiam sobretudo na repressão de temas relacionados com o erotismo e a sexualidade. Este grande tabu estimulava a criação artística e literária de sinal contrário e são inúmeras as obras que abordam com humor e provocação os interditos vigentes.

AGIT PROP, entre a cultura política e a política cultural

Os anos que antecederam e o período que imediatamente sucedeu o 25 de Abril de 1974, foram em Portugal férteis de propostas culturais e artísticas que abanavam violentamente o status quo do regime e da sociedade. Nesta caixa negra apresentam-se diversas obras de arte do início dos anos 1970, as intervenções do Grupo ACRE durante o PREC (“processo revolucionário em curso”), uma seleção de canções de intervenção, ou o anúncio da revolução de 1974 feito pela Radiotelevisão Portuguesa.