«Os meus olhos não são meus, são os olhos do nosso século!»

Almada explorou continuamente o autorretrato, pondo especial ênfase na representação dos seus olhos, que foram também referência central na sua escrita. Em K4 O Quadrado Azul (1917) anuncia «os meus olhos são holofotes a policiar o infinito», no poema «O Menino d’Olhos de Gigante» (1921) o título refere-se de novo aos olhos enormes, e em A Invenção do Dia Claro (1921) escreve: «Reparem bem nos meus olhos, não são meus, são os olhos do nosso século! Os olhos que furam para detrás de tudo».

Essa característica física tornou-se metáfora maior do que a mera identidade: os olhos servem para devorar conhecimento, são uma interface para a apreensão do mundo, para a sua apropriação e transformação em arte. Os olhos desmesurados significavam a capacidade de admiração, de maravilhamento. Essa ingenuidade voluntária, como lhe chamou Almada, enquadra-se na grande demanda pelo novo, comum às vanguardas do início do século XX e aos modernismos. Mas fazer tábua rasa do passado, como muitos proclamaram, não significou, em muitos casos, a sua rejeição. Ser moderno era antes ter a capacidade de olhar para o antigo com um olhar liberto de preconceitos acumulados por séculos de história. A representação destes olhos expressa assim a atitude moderna: a afirmação da liberdade do artista, sem espartilhos da história ou de qualquer tipo de convenções.

José de Almada Negreiros (1893-1970) «Auto-reminiscência de Paris», [1949]. Publicado no jornal «Diário de Lisboa» a 22 de junho de 1949 . Assinado / Não datado . Tinta da China sobre papel . 19 x 11,5 cm. Coleção Manuel de Brito
José de Almada Negreiros (1893-1970) [Autorretrato], 1938. Assinado / Datado Inscrição: «A “Edições Europa” / Lxa 31 Jan 38». Lápis sobre papel . 70 x 50 cm. Coleção particular
José de Almada Negreiros (1893-1970) [Autorretrato], publicado em «A Invenção do Dia. Claro» (ed. Olisipo), 1921. Assinado / Datado . Inscrição: «of Tareca / Dez 21». Lápis sobre papel . 24,5 x 17,5 cm. Coleção Herdeiros de António Leite de Castro
José de Almada Negreiros (1893-1970) [Autorretrato], sem data . Não assinado /. Não datado. Tinta da China sobre papel . 27,1 x 21,2 cm. Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna
José de Almada Negreiros (1893-1970) [Autorretrato], 1926. Assinado / Datado Inscrição: «Os olhos são para ver / e o que os olhos veem só / o desenho o sabe. / Ao meu amigo / Mario Ribeiro / Sintra 26». Grafite sobre papel. 33,5 x 27 cm. Coleção particular