Cinema, humor e narrativa gráfica

 

A relação de Almada Negreiros com o cinema atravessa a sua vida, enquanto espectador e artista. Em 1921, escreveu um artigo expressando a sua admiração por Charlot, personagem associável à figura do saltimbanco, tão cara a Almada. No mesmo ano foi ator no filme O Condenado de Mário Huguin, e mais tarde contará: «Em 1913 já tentei fazer um filme de cartões animados, parte do qual conservei durante algum tempo, mas depois perdeu-se. Mais tarde, durante o período da vanguarda, projectei, com o pintor Francisco de Cossio, vários filmes experimentais de amador, que não chegámos a realizar.» (1959).

Trabalhou para o departamento de publicidade da Paramount Pictures, fazendo plaquetes e cartazes, e em Madrid fez gessos em baixo-relevo para a remodelação do Cine San Carlos, com cenas de vários géneros de filmes, construídas de forma a replicar planos e enquadramentos tipicamente cinematográficos. Na conferência da estreia de Branca de Neve e os Sete Anões em Lisboa (1938), exaltou os desenhos animados tomando-os como o momento da verdadeira autonomia do cinema, assim desligado da reprodução do real. As lanternas mágicas que desenhou em 1929 e 1934, bem como várias séries de desenhos, são próximas do cinema de animação, no qual via a possibilidade de o desenho cumprir a sua vocação ao ganhar movimento.

José de Almada Negreiros (1893-1970) «La Tragedia de Doña Ajada» (lanterna mágica para música de Salvador Bacarisse com poemas de Manuel Abril) - VI. «Alma en pena», [1929]. Assinado / Não datado . Papel recortado, lápis branco e preto sobre papel . 47 x 47 cm (suporte) / 62 x 62 cm. Coleção Salvador Bacarisse e Jennifer Bacarisse
José de Almada Negreiros (1893-1970) José de Almada Negreiros no filme «O Condenado», realizado por Mário Huguin, 1921 (filme perdido). Fotografia de cena
José de Almada Negreiros (1893-1970) Bar de Marinheiros], [1929]. Painel para decoração interior do Cine San Carlos, Madrid (arquiteto Eduardo Lozano Lardet) . Não assinado / Não datado. Baixo-relevo em gesso pintado 120 x 240 cm (díptico). Coleção Manuel de Brito Fotografia: Carlos Santos GC_CMO

 

Em 1969, na entrevista ao popular programa de televisão «Zip-Zip», Almada afirma que o humor foi o que permitiu passar do século XIX para o século XX, referindo-se ao desenho humorístico e vendo-o assim como condição do moderno. O desenho humorístico, a narrativa gráfica, o grafismo e a ilustração foram constituintes da modernidade, sendo a página impressa, simultaneamente imagem e texto, uma das mais importantes ferramentas de ação artística sobre o presente. Ao contrário de outros meios, a sua capacidade de divulgação e imediatismo sintético eram de eficácia inexcedível. De resto, num texto fundador da modernidade, Baudelaire elegeu um ilustrador como «pintor da vida moderna».

É possível encontrar antecedentes da narrativa gráfica e do humorismo na pintura a fresco, em frisos e vitrais, ou nas histórias que saltimbancos contavam com imagens desenhadas, andando de terra em terra. Estes dispositivos persistiram ao longo da carreira artística de Almada, enquanto meios para o que entendeu ser a função última da sua arte: a comunicação com o público.

José de Almada Negreiros (1893-1970) Sem Título [Maternidade], 1948. Assinado / Datado Tinta da China sépia sobre papel . 30 x 22,1 cm . Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna
José de Almada Negreiros (1893-1970) Sem Título, sem data . Não assinado / Não datado . Marcador sobre papel . 65 x 50 cm. Coleção particular
José de Almada Negreiros (1893-1970) Sem Título (Estudo para os frescos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos), 1946. Assinado / Datado . Grafite sobre papel . 50 x 50 cm. Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna
José de Almada Negreiros (1893-1970) Sem Título, 1948. Assinado / Datado . Tinta da China sobre cartão . 50 x 50 cm. Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna
José de Almada Negreiros (1893-1970) Desenho para livro «Lisboa, Oito Séculos de História» (1947), 1946. Assinado / Datado . Inscrição: «fecho do I capítulo». Tinta da China e guache sobre papel. 50 x 70 cm. Coleção particular