Recuperação e Reabilitação do Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian – Memorandum
Este documento, como o subtítulo enuncia, é um registo para memória futura. É provavelmente de 2006.
Elucida de forma clara o conceito, a metodologia e processo de intervenção iniciado em 2001.
Texto e desenhos do autor complementam-se. Para além de apresentar as ideias chaves, as espacialidades que se pretendiam projetar e recriar para o futuro, a leitura do Memorandum revela que estamos na presença de uma reflexão sobre a intervenção em património paisagístico.
Estrutura-se em quatro capítulos:
– Concepção.
São definidos como princípios:
– A conceção naturalista;
– A essência ecológica e mediterrânica das paisagens portuguesas com o reforço do contraste entre bosques e clareiras, luz e sombra e uma maior presença da água.
– O carácter universalista e franciscano da cultura portuguesa.
Ao lermos estes princípios, de imediato, os reconhecemos como os princípios fundadores do Jardim, em 1961.
Situação assumida claramente por Gonçalo Ribeiro Telles ao escrever: Apelo que se mantém no Projecto de Recuperação e Reabilitação em curso. (p.3).
Os princípios acima referidos, para Ribeiro Telles, enraízam na “Ilha dos Amores “cantada por Luís de Camões no Canto IX dos Lusíadas.
Sustenta que é na paisagem ideal da ilha mítica que assenta a conceção naturalista e ecológica do JARDIM. Uma vez que a narração camoniana não se esgota na descrição da flora mediterrânica é também a evocação das características formais e morfológicas de uma paisagem próxima da realidade geográfica, ecológica de Portugal.
– A Caminho de Meio Século.
Sublinha como componentes determinantes a serem considerados nesta nova fase:
– O desenvolvimento do sistema da vegetação – arbóreo, arbustivo e herbáceo- como uma mais-valia histórica e ecológica não deixando, contudo, de sublinhar alguns problemas que os devires temporais e biológicos operaram no espaço e que devem ser corrigidos;
– A desadequação do sistema de rega “gota a gota” com o conceito naturalista, silvestre da estrutura e composição do jardim;
– A relação da vegetação com a iluminação. O Centro de Arte Moderna, o Centro de Iniciação Artística Infantil e o roseiral que não estavam previstos no plano inicial e que se oferecem, agora, como uma oportunidade de criar novos espaços;
-O aumento de visitantes decorrente da inexistência, na cidade, de uma Estrutura Verde adequada às solicitações da sociedade contemporânea;
– A assunção do jardim como espaço fundamental da Estrutura Ecológica e Cultural de Lisboa
– Projecto de Recuperação e Reabilitação.
Tem como objetivos:
– Defender e recuperar a conceção do jardim;
– Consolidar a estrutura ecológica;
– Criação de lugares amenos de estadia;
Define os elementos naturais e culturais que constituem o Jardim:
– Céu e água;
– Morfologia do terreno e o manto vegetal;
– Memória e cultura.
Por último enuncia e desenvolve as 5 unidades operativas que vão ser a base do desenvolvimento do projeto.
– Ampliação.
Em 2005 a Fundação Calouste Gulbenkian adquiriu a Maria Teresa Ortigão Burnay de Almeida Bello Eugénio de Almeida (1921-2017), Condessa de Vilalva, uma parcela do antigo Parque de Santa Gertrudes.
Com a compra desta parcela reconstituiu-se parte da integridade do Parque de Santa Gertrudes e possibilitou-se a reposição da axialidade visual e da continuidade morfológica do lugar onde o jardim se inscreve, as quais os arquitetos paisagistas, logo na sua proposta inicial e na revisão de 1966, consideraram estruturantes.
A não compreensão do valor paisagístico (cultural e ecológico) desta axialidade estruturante quando da construção do Centro de Arte Moderna, levou à demissão dos arquitetos paisagistas em1981.
Só em 2019 o projeto de remodelação do edifício do CAM a ampliação do jardim, respectivamente da autoria do arquiteto Kengo Kuma e do arquiteto paisagista Vladimir Djurovic, concretizou em parte esta ideia inicial de Gonçalo Ribeiro Telles e de António Facco Viana Barreto.
O ideário que suporta o esboço de proposta apresentada, neste capítulo do Memorandum, reforça o conceito que presidiu ao desenho do jardim em 1961 e tem como fundamentos:
– A poética da paisagem mediterrânea;
– A afetividade e a intimidade pela e com a vida silvestre e pelos lugares;
Estes suportes, que são marcos da cultura portuguesa segundo Ribeiro Telles, expressam-se de forma indelével numa das tipologias mais eloquentes do património paisagístico: as quintas de recreio. As quais devem ser assumidas como um modelo de ordenamento do território no planeamento das urbes, uma vez que associam produção, proteção e recreio.
A base de conceção do Jardim em 1961 e o Projeto de Renovação, iniciado em 2000, configuram-se numa linguagem naturalista assente na beleza da Natureza, que é determinada pelo fazer devir natural que o ideal grego da Arcádia e canto camoniano da “Ilha dos Amores” registam. Agora o ideário para o esboço da proposta a desenvolver na nova parcela adquirida seria a espacialidade “Os Jardins de Alcínoo” (Odisseia, VII, 112-132), cantada por Homero, que se configura nas espacialidades das quintas de recreio.
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Detalhes
- Autores principais:
- Gonçalo Pereira Ribeiro Telles
- Tipologia:
- Documento
- Fase:
- Projeto de Renovação do Jardim Gulbenkian 2000-2014