Paisagem nas Coleções CAM – Fundação Calouste Gulbenkian e Museu Nacional de Soares dos Reis

Exposição sobre paisagem na arte portuguesa, a partir das coleções do Centro de Arte Moderna e do Museu Nacional de Soares dos Reis. A mostra foi cocomissariada por Ana Vasconcelos, Elisa Soares e Isabel Lopes Cardoso, partindo de algumas linhas de pensamento sobre a natureza e a paisagem desenvolvidas por Raffaele La Capria (1922).
Exhibition on landscapes in Portuguese art, with works from the collections of the Modern Art Centre and the Museu Nacional de Soares dos Reis. The show, co-curated by Ana de Vasconcelos, Elisa Soares and Isabel Lopes Cardoso, was based on reflections by Raffaele La Capria on nature and landscape.

Exposição dedicada à paisagem na arte portuguesa dos séculos XIX e XX, a partir das coleções do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian e do Museu Nacional de Soares dos Reis (MNSR).

Apresentada no Museu de Évora e cocomissariada por Ana de Vasconcelos (CAM), Elisa Soares (MNSR) e Isabel Lopes Cardoso (CHAIA – Centro de História da Arte e Investigação Artística da Universidade de Évora), esta mostra resultou de uma frutuosa colaboração entre academia e instituições museológicas, contando ainda com o apoio da Direção-Geral do Património Cultural e da Direção Regional de Cultura do Alentejo.

Pensada para acompanhar o colóquio internacional «NOM-lieux du Paysage. Representações, Imagens e Discursos sobre a Paisagem na Europa», organizado pelo CHAIA e coordenado por Isabel Lopes Cardoso, esta exposição-ensaio procurava respostas para uma série de «interrogações sobre a construção cultural da paisagem portuguesa» (Paisagem nas Coleções CAM – Fundação Calouste Gulbenkian e Museu Nacional de Soares dos Reis, 2012, p. 23).

Numa primeira fase, como conta Isabel Lopes Cardoso, no texto que escreveu para o catálogo, foi equacionada a hipótese de apresentar em Évora a exposição «Paisagem na Coleção do CAM» (2011), comissariada por Ana Vasconcelos, a qual seria encarada como continuação de uma reflexão iniciada em 1972, com a mostra «A Paisagem», promovida pela então Secretaria de Estado da Informação e do Turismo e pela Fundação Calouste Gulbenkian. Deste modo, seria possível fazer «uma espécie de balanço sobre as representações e os discursos da paisagem na arte de ambas as exposições, a quarenta anos de distância» (Ibid.).

As intenções iniciais foram reequacionadas, no momento em que a historiadora de arte tomou contacto com a obra Capri e non più Capri, de Raffaele La Capria, o que motivou o desenvolvimento de um novo projeto de exposição. Este ia para além do cruzamento das duas mostras, sendo escolhidos outros artistas considerados paradigmáticos para o objeto de estudo. Entre estes destacava-se Henrique Pousão, com um considerável número de obras selecionadas, justificado «não só pela evidente associação da sua pintura com o local – Capri – […], mas também pela excepcional qualidade e pela modernidade da sua obra no contexto português de finais de Oitocentos» (Ibid.).

O interesse pela obra de Pousão impulsionou a colaboração com o Museu Nacional de Soares dos Reis, sendo selecionado da sua coleção um conjunto de pinturas do século XIX e início do século XX, de artistas como João Marques de Oliveira (1853-1927), António Silva Porto (1850-1893) ou Artur Loureiro (1853-1932), que caracterizam o naturalismo português. A par destes nomes históricos foram incluídos outros menos conhecidos como Sofia de Souza (1870-1960), irmã de Aurélia de Souza.

No caso das obras da coleção do CAM, cerca de metade das escolhidas havia integrado a seleção de Ana Vasconcelos para «Paisagem na Coleção do CAM». A estas juntavam-se outras desses e de outros artistas, como é o caso de José Barrias (1944) e Teresa Magalhães (1944), que não se encontravam representados na exposição em Lisboa.

As escolhas surgiram, como explica Isabel Lopes Cardoso, de «associações várias – despoletadas pelas obras existentes nos dois acervos – a partir das múltiplas questões que levantam a paisagem e a sua representação em Portugal» (Ibid.).

O discurso expositivo foi construído em torno das associações estabelecidas, afastando-se deste modo da análise historicista. Além disso, certas linhas do pensamento de La Capria, sobre a paisagem, a sua destruição pelo homem e o impacto desta última no indivíduo e na sociedade, serviram de orientação não só na escolha das obras, mas também na sua disposição no espaço. Este era um dos principais aspetos, a par dos limites cronológicos e do enfoque na arte portuguesa, que distinguia esta exposição da que fora apresentada no CAM no ano anterior, e que esteve na sua origem.

Sobre «Paisagem na Coleção do CAM», Ana Vasconcelos afirma: «Nesta exposição, a paisagem foi encarada num sentido simultaneamente muito restrito e bastante lato. Muito restrito porque, como já anteriormente dito, estamos necessariamente no campo da representação visual da paisagem, o que restringe os pressupostos da abordagem feita. […] No entanto, o “enquadramento” restritivo constitui, ainda assim, um mostruário das possibilidades interpretativas visuais da paisagem, sob o ponto de vista dos artistas mas também a partir do lugar, mais distanciado, do observador.» (Paisagem na Coleção do CAM, 2012, p. 5) O mesmo não se aplica a esta exposição que acompanhava o colóquio, a qual revelava um enfoque na representação ou evocação da paisagem entendida como resultado de processos naturais e na sua alteração pela ação, intencional ou não, do homem. Deste modo, assistia-se a uma espécie de ilustração ou pesquisa visual do conceito de «nome-lugares», aprofundado no colóquio, e descrito por Isabel Lopes Cardoso como «lugares outrora célebres e agora economicamente sobreexplorados pelo seu nome – frequentemente associado à ideia sempre vendável da existência de um Paraíso na terra para os eleitos que seríamos (todos…)» (Paisagem nas Coleções CAM – Fundação Calouste Gulbenkian e Museu Nacional de Soares dos Reis, 2012, p. 24).

O percurso proposto pelas curadoras partia da natureza intocada – Silva Porto a pintar (1875), de Marques de Oliveira, Vesúvio (1882), de Henrique Pousão, Paisagem de Melgaço (1917), de António Carneiro, Vista do Gerês (1928), de Artur Loureiro – em direção à natureza transformada – De Castigo (s.d.), de Sofia de Souza, Paisagem, de Jorge Barradas, Sem Título (s.d.), de Luís Palma –, reunindo obras muito diversas, em pintura, desenho e fotografia, que procuram captar ou resgatar a essência de um lugar através de registos e processos distintos – Natureza da Arte na Arte do Corpo/Corpo da Arte na Arte da Natureza (1979), de Alberto Carneiro, Douro (1979), de Teresa Magalhães –, ou reportam transformações e permanências – Barragem (1980), de José Barrias. Tais lugares não eram necessariamente intocados ou bucólicos, como demonstra a seleção de paisagens urbanas apresentada – Costa do Castelo (1930), de Carlos Botelho, Sem Título (1931), de Fred Kradolfer, Pôr-do-Sol (1949-52), de Fernando Lemos.

Seguindo as ideias de La Capria, a estas tendências foi associada uma reflexão sobre a identidade do lugar e a sua memória. A noção de memória de determinado lugar e o impacto decorrente do confronto com uma nova realidade eleva a relação do homem com a natureza ao plano mental. No entanto, tal relação em termos físicos e seus jogos de força, não foi descurada, sendo apresentadas obras que remetem para a superioridade da natureza sobre o indivíduo e o seu poder aniquilador, como é o caso do Sem Título (1933) de Carlos Botelho. Por outro lado, a paisagem enquanto reflexo do estado de alma do indivíduo ou da sociedade foi igualmente abordada através de trabalhos de José Dominguez Alvarez e Luís Palma.

Para acompanhar a exposição e o colóquio foi produzida uma publicação que reunia textos das três curadoras e reproduções de algumas das obras expostas.

Mariana Roquette Teixeira, 2020


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Imagem Cheia

Adelina Lopes (1970-)

Imagem Cheia, 2008 / Inv. FP492

Natureza da arte na arte do corpo/Corpo da arte na arte da natureza

Alberto Carneiro (1937-2017)

Natureza da arte na arte do corpo/Corpo da arte na arte da natureza, 1979 / Inv. DP1626

(Paysagem           figura negra)

Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918)

(Paysagem figura negra), c. 1914-1915 / Inv. 86P23

Título desconhecido (Bellevue)

Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918)

Título desconhecido (Bellevue), c. 1911-1912 / Inv. 86P156

Melgaço I

António Carneiro (1872-1930)

Melgaço I, 1921 / Inv. 83P46

Paisagem de Melgaço

António Carneiro (1872-1930)

Paisagem de Melgaço, Inv. 83P45

Cantaros - Serra da Estrela

Carlos Botelho (1899-1982)

Cantaros - Serra da Estrela, 1933 / Inv. P1497

Costa do Castelo

Carlos Botelho (1899-1982)

Costa do Castelo, 1930 / Inv. 92P212

Paisagem Alentejana

Dordio Gomes (1890-1976)

Paisagem Alentejana, 1931 / Inv. 71P1418

Palmeira

Eduardo Viana (1881-1967)

Palmeira, c. 1920-1925 / Inv. 83P423

S/ Título #849

Fernando Calhau (1948-2002)

S/ Título #849, 1972 / Inv. 06DP2468

S/ Título #850

Fernando Calhau (1948-2002)

S/ Título #850, 1972 / Inv. 06DP2469

Pôr do Sol

Fernando Lemos (1926-2019)

Pôr do Sol, 1949-52 / Inv. FP236/1

Aldeia portuguesa  (Village portugais)

Francis Smith (1881-1961)

Aldeia portuguesa (Village portugais), (1938) / Inv. 68P500

Largo de aldeia (Petite place au Portugal)

Francis Smith (1881-1961)

Largo de aldeia (Petite place au Portugal), (1954) / Inv. 68P501

Vue sur la campagne

Francis Smith (1881-1961)

Vue sur la campagne, Inv. 83P422

s/título

Fred Kradolfer (1903-1968)

s/título, 1931 / Inv. 83P1241

Paisagem

Jorge Barradas (1894-1971)

Paisagem, 1965 / Inv. 65P72

Barragem

José Barrias (1944-2020)

Barragem, 1980 / Inv. 96E1254

Paisagem

José Dominguez Alvarez (1906-1942)

Paisagem, 1929 / Inv. 83P687

Sem título (Aspecto de rua com figuras)

José Dominguez Alvarez (1906-1942)

Sem título (Aspecto de rua com figuras), Inv. 83P664

S/ Título

Luís Palma (1958-)

S/ Título, Inv. 90FP122

S/ Título

Luís Palma (1958-)

S/ Título, 1988 / Inv. 90FP125

S/ Título

Luís Palma (1958-)

S/ Título, Inv. 90FP127

S/ Título

Luís Palma (1958-)

S/ Título, 1988 / Inv. 90FP128

Douro (Série: Gestos da Cor - Sinais da Terra)

Teresa Magalhães (1944-)

Douro (Série: Gestos da Cor - Sinais da Terra), 1979 / Inv. 81P433


Eventos Paralelos

Colóquio

NOM-lieux du Paysage. Representações, Imagens e Discursos sobre a Paisagem na Europa

25 out 2012 – 27 out 2012
Museu de Évora
Évora, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Documentação


Exposições Relacionadas

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