Pedro Casqueiro

Exposição individual retrospetiva da obra do artista português Pedro Casqueiro (1959), comissariada por Maria José Moniz Pereira. A mostra consagrou o trabalho de Pedro Casqueiro, reunindo 63 pinturas cedidas por diversas entidades oficiais, galerias de arte e colecionadores privados.
Solo retrospective exhibition of the work of Portuguese artist Pedro Casqueiro (1959) curated by Maria José Moniz Pereira. The show included 63 of the artist’s works on loan from several official entities, art galleries and private collectors.

Exposição individual retrospetiva de Pedro Casqueiro (1959), patente no Hall e na Galeria do piso 1 do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP), entre 4 de junho e 24 de setembro de 1997. Organizada pelo CAMJAP e comissariada por Maria José Moniz Pereira, a mostra apresentou 63 pinturas cedidas por várias entidades, entre as quais a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o Ministério da Cultura, a Caixa Geral de Depósitos, o Instituto Português dos Museus e diversas galerias de arte e colecionadores privados.

A exposição reuniu obras realizadas a partir de 1980, altura em que Pedro Casqueiro começou a pintar de um modo mais contínuo. Foram expostos diversos trabalhos nunca vindos a público, realizados entre 1984 e 1997, e que representavam diferentes fases da sua obra. Segundo Alexandre Melo, crítico de arte e autor do texto do catálogo da retrospetiva, «a exposição de Pedro Casqueiro na Fundação Calouste Gulbenkian consagra cerca de quinze anos de trabalho, confirma uma carreira coerente e personalizada e afirma categoricamente um autor com uma presença singular no panorama nacional» (Pedro Casqueiro, 1997, p. 21).

O trabalho de Pedro Casqueiro é um reflexo não só do regresso à pintura vivenciado pelo meio artístico nacional na década de 1980, mas também do vínculo que se estabeleceu entre as artes plásticas e a vida noturna e quotidiana, visível nomeadamente no envolvimento de estabelecimentos como o Café Concerto, a discoteca Frágil, o bar-café Arroz Doce ou a loja de roupa Os Latinos em apresentações de exposições.

Assim, o percurso cronológico da exposição era iniciado por um conjunto de trabalhos realizados entre 1984 e 1986, marcados pela representação de formas e espaços múltiplos, assim como por uma acumulação de materiais, que antecedeu uma fase de racionalização da composição, conseguida através da justaposição de volumes e cores e de uma síntese de elementos plásticos que teve lugar entre 1987 e 1988.

A fase seguinte, de 1992 a 1993, foi constituída por um momento dedicado ainda à sobreposição de formas e cores, embora de um modo mais subtil. Casqueiro recorreu ao uso de transparências e à uniformização de cor nas formas representadas, algo que deu lugar, de 1995 a 1996, a uma cada vez mais acentuada bidimensionalidade do suporte da tela. O efeito é dado pela criação de contrastes cromáticos e de composições estruturadas, submetidas a uma geometria simples mas rigorosa.

Esta geometrização transforma-se em 1997, assumindo formas inéditas na obra do artista, que passa a representar espaços tridimensionais, para os quais recorre a fotografias de interiores. Nestes trabalhos, Pedro Casqueiro procurou eliminar qualquer marca de fabrico, artesanato ou presença humana, recriando de modo idealizado espaços que funcionam como «caixas dentro de caixas», quando as telas são instaladas no espaço expositivo. Tal como lembrou Alexandre Melo, o papel do espectador é vital, proporcionando dinamismo às representações de interiores enquanto se desloca na exposição. Apesar de serem uma reação aos trabalhos anteriores, estas pinturas apresentam características comuns a toda a obra de Casqueiro, como o diálogo entre bidimensionalidade e tridimensionalidade e um jogo harmonioso de multiplicação de espaços (Ibid.). Desta última fase de trabalhos, foi adquirida uma obra, S/ Título, de 1997 (Inv. 97P527), que passou a integrar a coleção do Centro de Arte Moderna.

Obra de grande coerência e consistência desde o seu início, nela sobressai também a originalidade, que a mantém em constante renovação. Neste sentido, apesar de associada a aspetos que definiram a prática artística dos anos 80 em Portugal, a obra de Pedro Casqueiro é individual, na medida em que partilha pouco das preocupações manifestas no trabalho de vários artistas portugueses seus contemporâneos. É, além disso, uma obra que reflete um rigor constante, que se apoia numa exploração dos valores fundamentais de cor, forma e composição, em paralelo com um questionamento incessante da representação do espaço.

As suas telas são como um diário, funcionando como acumulações de pensamentos do quotidiano, em que o ato de pintar surge não como a repetição da experiência, mas como o prolongamento autónomo e criativo dela. Neste sentido, mesmo nas suas pinturas de espaços interiores, de 1997, e apesar de estas partirem de fotografias, não há pura representação ou cópia, mas criação de um conceito espacial que engana a leitura do espectador ao apoiar-se em linhas de fuga inusitadas e cores discordantes.

Sobre a conceção das pinturas, Casqueiro revelou que, frequentemente, não obedecem a uma lógica subjacente, mas antes a uma sequência de experiências que culminam num todo que pode ou não resultar: «[…] não é que haja sistema; durante a feitura do quadro vou experimentando várias justaposições, depois há uma seleção: umas funcionam, outras não, isto no sentido em que o quadro tem de ser um todo conseguido.» (Pedro Casqueiro, 1997, p. 17)

A curadoria da exposição passou pela apresentação de um espaço introdutório, o que segundo José Luís Porfírio vinha sendo já uma prática comum na produção de exposições do CAMJAP. Ao contrário do que seria expectável, neste primeiro espaço podiam ver-se os mais recentes trabalhos de Pedro Casqueiro, surpreendendo os visitantes com um conjunto de representações arquitetónicas e de espaços interiores que contrastavam com as primeiras obras realizadas em 1984. Este arranjo museográfico é lido por João Pinharanda como uma passagem do caos à ordem: «[…] um caos estruturado por precisas regras de desenvolvimento; e uma ordem dominada por um sistema de intransponíveis ambiguidades.» (Pinharanda, Público, 13 jun. 1997)

A divulgação da exposição pela imprensa portuguesa, nomeadamente no Cartaz, suplemento do semanário Expresso, destacou o facto de esta retrospetiva conseguir pôr «em evidência uma coerência (que nunca cristalizou em sistema) e que melhor se define nas ultrapassagens conquistadas a cada momento anterior» (Martins, Expresso, 21 jun. 1997).

Carolina Gouveia Matias, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Galeria

Pedro Casqueiro (1959 - )

Galeria, 1997 / Inv. 97P527

S/Título

Pedro Casqueiro (1959 - )

S/Título, 1993 / Inv. 94P337

Galeria

Pedro Casqueiro (1959 - )

Galeria, 1997 / Inv. 97P527

S/Título

Pedro Casqueiro (1959 - )

S/Título, 1993 / Inv. 94P337


Publicações


Fotografias


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00451

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência entre a FCG e os colecionadores e formulários de empréstimo de obras. 1995 – 1997

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00452

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência entre a FCG e os colecionadores, formulários de empréstimo de obras e apólices de seguro. 1995 – 1997

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00453

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência entre a FCG e os colecionadores, formulários de empréstimo de obras, orçamentos e correspondência interna. 1995 – 1997

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 110382

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG-CAMJAP, Lisboa) 1997


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