Álbum de Desenhos

Fáceis de transportar e prestando-se a diversos usos e fins, de acordo com a necessidade e a disposição do seu possuidor, os cadernos de desenho são, no caso dos artistas, para além de uma espécie de diário íntimo, também um laboratório de experiências.

Fáceis de transportar e prestando-se a diversos usos e fins, de acordo com a necessidade e a disposição do seu possuidor, os cadernos de desenho são, no caso dos artistas, para além de uma espécie de diário íntimo, também um laboratório de experiências. De facto, frequentemente, pintores, escultores, designers, arquitectos, ilustradores e mesmo fotógrafos e cineastas, trazem consigo pequenos cadernos/blocos nos quais registam, anotam e esboçam a sua percepção do mundo e da realidade. Materialmente frágeis, estes objectos são uma espécie de antecâmara do acto criativo, onde se revelam as observações quotidianas dos artistas, registadas de forma espontânea, assim como as suas investigações e inquietações estéticas. Se o termo francês carnet e o inglês skecthbook os descrevem sem equívocos, na língua portuguesa são necessárias duas palavras e, mesmo assim, existem várias combinações possíveis: álbum de desenhos ou esboços, caderno de apontamentos, bloco de notas… Dos mais antigos, poucos foram os que se conservaram e chegaram intactos, com as suas capas e sequência originais, ao tempo presente, já que muitos foram desmembrados e as suas folhas dispersas logo após a morte do artista a quem pertenciam. Outros ainda foram reunidos posteriormente segundo uma ordem que lhes era estranha. Desde o Renascimento que os álbuns de desenhos ou esboços têm sido utilizados pelos artistas – os de Dürer, Rembrandt e Joshua Reynolds, por exemplo, sobreviveram-lhes – contudo, foi com o Romantismo, no século XIX, que eles se tornaram o meio privilegiado para expressar emoções e registar a descoberta pessoal das qualidades e particularidades da natureza. Em 1856, um dos quadros mais apreciado pelo público na exposição da Academia de Belas-Artes mostrava cinco artistas em plena serra de Sintra, estudando e registando nos seus álbuns e na tela a natureza em seu redor. Intitulada precisamente “Cinco artistas em Sintra”, o seu autor, o pintor João Cristino da Silva (1829-1877), nela se auto-representava e aos seus companheiros e amigos, os pintores José Rodrigues (1828-1887), Francisco Metrass (1825-1862) e Tomás da Anunciação (1818-1879) e o escultor Victor Bastos (1830-1894), que com ele vinham defendendo e lutando pela introdução de novas práticas pictóricas no anquilosado ensino artístico da Academia de Belas-Artes, enquadradas em novos conceitos estéticos que reivindicavam um maior contacto com a natureza. Cristino, de negro vestido, encostado a uma rocha no segundo plano da composição, parece em pleno acto de esboçar no seu pequeno álbum de desenho as impressões captadas “sur nature”, para posteriormente, no seu ateliê, as desenvolver e trabalhar na tela final. Será hoje difícil saber quantos álbuns de esboços o artista terá utilizado ao longo do seu acidentado percurso criativo. Mas, certamente, que Cristino trazia sempre consigo, nas suas deambulações, um pequeno álbum onde, simultaneamente, ia desenvolvendo a atenção do olhar, disciplinando a destreza da mão e registando a impressão do momento. Um desses álbuns de desenho terá passado do seu filho, o também pintor João Ribeiro Cristino (1858-1948), para o seu neto, o arquitecto Luís Cristino da Silva (1896-1976), cujo espólio foi doado à Fundação Calouste Gulbenkian na década de 1980, encontrando-se actualmente no fundo documental da Biblioteca de Arte. Ao longo das duas faces das 68 folhas de papel que o tempo amareleceu, o avô Cristino desenhou apontamentos a grafite e carvão da paisagem e da arquitectura dos locais – Sintra, mas também Cascais, Santarém, Leiria, Buçaco… – por onde se fez a sua vida, e dos elementos animais – burros, bois, vitelos – e vegetais que os habitavam. São várias as cenas de costumes numa atenção ao pitoresco que caracterizou a pintura do Romantismo nacional. A figura humana surge tanto nestas cenas, como em retratos isolados, maioritariamente masculinos. Frequentemente, na mesma página sobrepõem-se registos de paisagens e retratos, noutras os desenhos ocupam a sua totalidade e estendem-se mesmo para a seguinte, noutras ainda são mais pequenos, enquadrados por uma espécie de moldura. Em alguns, o artista abandonou-os ao fim de poucos traços, noutros demorou-se e desenhou cuidadosamente cada elemento. Em quase todos os desenhos existem notas manuscritas que nalguns permitem identificar os locais representados. Curiosamente, em certas páginas, Cristino fez “contas às vendas”, em contas de somar que parecem reportar-se a vendas de telas e desenhos. A importância que este álbum representa para o estudo da pintura do período romântico em Portugal e as condicionantes relacionadas com a sua conservação e preservação levaram a Biblioteca de Arte a disponibilizar uma cópia digital, que pode ser consultada a partir do registo bibliográfico do catálogo, em e também no FLICKR.

TÍTULO/ RESP. [Álbum de desenhos] [Material gráfico] / João Cristino da Silva
PRODUÇÃO [S.d.]

DESCR. FÍSICA 67, [1] folhas (127 desenhos) : grafite e carvão sobre papel ; 15 x 23 cm
NOTAS Notas manuscritas na maioria dos desenhos. Desenhos na frente e no verso da mesma folha
COTA(S) LCSM 159

Atualização em 17 Julho 2017