Fotografias de Cloete Breytenbach chegam à Fundação Calouste Gulbenkian

A Biblioteca de Arte recebeu a doação de 29 provas em papel e 60 reproduções digitais de fotografias sobre os conflitos armados em Angola, entre 1967 e 1987, da autoria do fotojornalista sul-africano Cloete Breytenbach.
11 dez 2025

Cloete Breytenbach (1933-2019) iniciou a sua carreira de fotojornalista em 1951, no jornal Die Burger, na Cidade do Cabo. O seu trabalho rapidamente transbordou as fronteiras sul-africanas e as suas fotografias seriam publicadas em prestigiadas publicações europeias como o Daily Express ou a revista Paris Match.

Cofundou uma agência fotográfica sul-africana e destacou-se na cobertura de temas como o apartheid e os conflitos militares, incluindo no seu portefólio reportagens sobre Angola, Zimbábue, Moçambique, Congo, África do Sul, ou as Guerras do Yom Kippur e do Vietname. As suas fotografias percorreram o mundo, tendo sido expostas nos Estados Unidos da América, na Europa e no Japão.

O legado de Cloete Breytenbach inclui um conjunto de fotografias de Albert Luthuli (Prémio Nobel da Paz e líder anti-apartheid) que integra a coleção do Museu Guggenheim de Nova Iorque. As suas imagens enriqueceram obras como Cape Town – The Fairest Cape e The Terror Fighters – Portuguese War in Angola, ou Savimbi’s Angola e The Spirit of District Six, de que ele próprio foi autor. Nos últimos anos da sua vida, Cloete Breytenbach dedicou-se à produção independente de documentários para televisão.

Civil War Angola. Child soldiers hugging [Guerra Civil de Angola. Crianças-soldado a abraçarem-se] © León Breytenbach

O conjunto de imagens agora doado à Fundação oferece uma perspetiva singular e íntima sobre a vida dos soldados portugueses e angolanos durante a “Guerra de Libertação” e a subsequente Guerra Civil. As imagens revelam os militares em atividades quotidianas e surpreendentemente normais: a lavar a roupa, a ler, em momentos de convívio ou de “namoro”, a escrever cartas, o que demonstra que o fotógrafo optou por centrar a sua narrativa nos ”tempos mortos” do quotidiano militar, naquilo que se desenrolava entre as batalhas. Nas suas próprias palavras “a vida dos soldados ia para além de matar pessoas” e isso é evidente na abordagem desinteressada e na natureza documental e imparcial do seu trabalho, que intencionalmente manteve a morte e a crueldade praticada nos campos de guerra, fora do foco da sua lente.

Colonial War Portuguese. Soldier in love [Guerra Colonial Portuguesa. Soldado apaixonado] © León Breytenbach
Colonial War Angolan. Drums [Guerra Colonial Angolana. Tambores] © León Breytenbach

Estas imagens foram mostradas ao público uma única vez, em 2018, na Galeria de Fotografia MIRA, no Porto, numa exposição com o título A Guerra em Angola 1967-1987, que contou com a curadoria de Annette Badenhorst.

A doação deste conjunto de fotografias à Fundação Calouste Gulbenkian foi da iniciativa desta curadora, proprietária das provas fotográficas, tendo sido endossada por León Breytenbach, herdeiro e titular dos direitos patrimoniais de autor do acervo do fotógrafo.

Civil War Angola. Troops praying together [Guerra Civil de Angola. Soldados rezando juntos] © León Breytenbach

A coleção será preservada pela Biblioteca de Arte e estará disponível para consulta mediante marcação prévia.

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