Fotografias de Cloete Breytenbach chegam à Fundação Calouste Gulbenkian
Cloete Breytenbach (1933-2019) iniciou a sua carreira de fotojornalista em 1951, no jornal Die Burger, na Cidade do Cabo. O seu trabalho rapidamente transbordou as fronteiras sul-africanas e as suas fotografias seriam publicadas em prestigiadas publicações europeias como o Daily Express ou a revista Paris Match.
Cofundou uma agência fotográfica sul-africana e destacou-se na cobertura de temas como o apartheid e os conflitos militares, incluindo no seu portefólio reportagens sobre Angola, Zimbábue, Moçambique, Congo, África do Sul, ou as Guerras do Yom Kippur e do Vietname. As suas fotografias percorreram o mundo, tendo sido expostas nos Estados Unidos da América, na Europa e no Japão.
O legado de Cloete Breytenbach inclui um conjunto de fotografias de Albert Luthuli (Prémio Nobel da Paz e líder anti-apartheid) que integra a coleção do Museu Guggenheim de Nova Iorque. As suas imagens enriqueceram obras como Cape Town – The Fairest Cape e The Terror Fighters – Portuguese War in Angola, ou Savimbi’s Angola e The Spirit of District Six, de que ele próprio foi autor. Nos últimos anos da sua vida, Cloete Breytenbach dedicou-se à produção independente de documentários para televisão.
O conjunto de imagens agora doado à Fundação oferece uma perspetiva singular e íntima sobre a vida dos soldados portugueses e angolanos durante a “Guerra de Libertação” e a subsequente Guerra Civil. As imagens revelam os militares em atividades quotidianas e surpreendentemente normais: a lavar a roupa, a ler, em momentos de convívio ou de “namoro”, a escrever cartas, o que demonstra que o fotógrafo optou por centrar a sua narrativa nos ”tempos mortos” do quotidiano militar, naquilo que se desenrolava entre as batalhas. Nas suas próprias palavras “a vida dos soldados ia para além de matar pessoas” e isso é evidente na abordagem desinteressada e na natureza documental e imparcial do seu trabalho, que intencionalmente manteve a morte e a crueldade praticada nos campos de guerra, fora do foco da sua lente.
Estas imagens foram mostradas ao público uma única vez, em 2018, na Galeria de Fotografia MIRA, no Porto, numa exposição com o título A Guerra em Angola 1967-1987, que contou com a curadoria de Annette Badenhorst.
A doação deste conjunto de fotografias à Fundação Calouste Gulbenkian foi da iniciativa desta curadora, proprietária das provas fotográficas, tendo sido endossada por León Breytenbach, herdeiro e titular dos direitos patrimoniais de autor do acervo do fotógrafo.
A coleção será preservada pela Biblioteca de Arte e estará disponível para consulta mediante marcação prévia.