A Companhia União Fabril – CUF

No ano da celebração dos 150 anos do nascimento do empresário e industrial Alfredo da Silva (1871-1942), a Biblioteca de Arte e Arquivos apresenta a exposição virtual A Companhia União Fabril – CUF que recorda a CUF, companhia por ele criada em 1898.

Montada com imagens captadas através das objetivas dos fotógrafos Mário e Horácio Novais, e de documentos escritos e desenhados do espólio do arquiteto Luís Cristino da Silva, mostram-se os seus complexos fabris, aspetos da sua laboração e de outras iniciativas do seu universo empresarial.

Celebrando Alfredo da Silva, mostramos como a CUF contribuiu para o desenvolvimento industrial e comercial do país, como condicionou o desenho da paisagem urbana, sobretudo em Lisboa e no Barreiro, e como a empresa incorporou, nos seus projetos industriais, entre as décadas de 1940 e 1960, a colaboração dos arquitetos Luís Cristino da Silva, Vasco Regaleira, Fernando Silva, Jorge Viana e Formosinho Sanches e dos artistas plásticos Leopoldo de Almeida, Lima de Freitas, Maria do Carmo D’Orey, Graça Costa Cabral e Graziela Albino.

A CUF

A CUF foi fundada em 1898 por Alfredo da Silva, através da fusão da Companhia Aliança Fabril, constituída no final de 1880, com a Companhia União Fabril, criada em 1865. Após a morte do fundador, em 1942, a CUF foi continuada por Manuel de Mello, seu genro, e depois por Jorge e José Manuel de Mello, seus netos, a partir de meados de 1960 até 1975, ano em que foi nacionalizada. Alfredo da Silva foi um industrial visionário, empreendedor e cosmopolita, com uma estratégica empresarial arrojada e com o espírito de liderança fundamental para a concretização de iniciativas que contribuíram para a transformação industrial nacional do século XX.

Apoiada numa política industrial centrada no aproveitamento e na transformação das matérias primas nacionais, no aprovisionamento, nos transportes, na distribuição, na atividade bancária e seguros, no comércio internacional de matérias e produtos, nas ligações internacionais e nos mercados de exportação, a CUF apostou na modernização tecnológica, na formação profissional e no conhecimento científico.

Com os lemas “Mais e melhor” e “O que o país não tem a CUF cria”, Alfredo da Silva construiu um império que, nos anos 1970, constituía o maior grupo empresarial da Península Ibérica – detendo cerca de 180 empresas onde trabalhavam cerca de 40 a 50 mil operários -, sendo um dos 10 maiores da Europa. A CUF produzia e comercializava milhares de produtos – adubos, óleos vegetais, azeites, sabões, velas, rações, têxteis, entre outros -, e do seu grupo, em Portugal e nas antigas colónias, faziam parte as empresas Tabaqueira, Lisnave e Setenave, o Banco Totta e a Companhia de Seguros Império.

No âmbito de uma política de comunicação pensada para promover e divulgar o seu monopólio industrial, a CUF marcou presença em diversas exposições industriais nacionais e internacionais.

Edifício sede da CUF

Avenida 24 de Julho, n.º 148, Lisboa

O edifício sede da Companhia União Fabril foi construído entre 1959 e 1969, no gaveto da avenida 24 de julho com a avenida Infante Santo, a poucos metros onde, no início do século, se sediaram as suas primeiras instalações industriais. O projeto teve a autoria do arquiteto Fernando Silva e junto a ele ficavam a Fábrica de Moagem da Nova Companhia Nacional de Moagem e a Fábrica de Bolachas e Massas Alimentícias, imóveis, entretanto demolidos.

O Complexo CUF no Barreiro

Espaço privilegiado junto ao rio Tejo, defronte a Lisboa e com ligação ferroviária ao sul do país, o Barreiro foi escolhido estrategicamente por Alfredo da Silva para instalação do complexo fabril da CUF, em 1907. A compra dos terrenos, da Praia Norte até à Praia dos Moinhos no Lavradio, permitiu a construção de um dos maiores complexos industriais da Europa e, de antiga vila piscatória, o Barreiro transformou-se numa cidade industrial moderna.

A construção das primeiras fábricas da CUF no Barreiro data de 1907, arrancando no ano seguinte a atividade fabril e iniciando-se a construção do primeiro bairro operário. Ao longo da década de 1910 inaugura-se o cais privativo (1910), inicia-se a produção de adubos químicos, de ácido sulfúrico e de ácido clorídrico (1911), constroem-se os laboratórios para controlo da produção, inicia-se a produção de sulfato de sódio (1912), desenvolve-se a atividade metalo-mecânica e instalam-se novas centrais de energia elétrica de ar comprimido e de vapor (1912). No final da década de 1920 começa a atividade têxtil (1927) e a metalurgia do chumbo (1930) e é contruída uma nova ponte-cais (1929). Já na década de 1930 começa a funcionar a fábrica dos óleos (1937), o porto é ampliado (1938) e são remodeladas as fábricas do sabão (1939), entre muitos outros projetos. Em 1946, Manuel de Mello dá continuidade ao crescimento do complexo fabril, com a construção de novas fábricas e das instalações portuárias. Com a designação CUF até 1975, passa a ser Quimigal em 1977, período que marca o início da desindustrialização, em 1989 é criada a Quimiparque, e em 2009 tem origem a Baía do Tejo. Neste momento encontram-se em laboração três fábricas do complexo.

Atualmente, o espaço do complexo industrial da antiga CUF – gerido pela Baía do Tejo, empresa criada para a requalificação ambiental e urbanística, gestão e dinamização do património industrial –, acolhe estúdios de artistas, caso de Vhils e do PADA Studios, e diversos arquivos, como o Ephemera, o arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra, o arquivo da Fundação Amélia de Mello, o Arquivo Municipal e Espaço Memória e ainda o Museu Industrial da Baía do Tejo. Classificado como “Conjunto de Interesse Público” – parte dos imóveis e obra social -, pela DGPC em 2020, este espaço é considerado marca promocional e identidade da cidade do Barreiro.

O projeto de urbanização do Novo Bairro Operário da CUF no Barreiro

O primeiro bairro operário da CUF no Barreiro – edificado entre 1908 e 1933 -, foi criado por vontade de Alfredo da Silva com o objetivo de fixar os trabalhadores junto do local de trabalho, poupando-lhes os tempos das deslocações e oferendo-lhes condições habitacionais condignas. No final da década de 1930, as necessidades crescentes de alojamento colocadas pela enorme afluência de população atraída ao Barreiro pela oportunidade de trabalho na CUF, e a impossibilidade de crescimento do bairro primitivo e da sua ampliação – o denominado “Bairro de Santa Bárbara “-, originaram a vontade da construção de um novo bairro, a nascente do complexo fabril, de ambos os lados da linha férrea, junto ao apeadeiro do Lavradio, inspirado, tal como o anterior, em exemplos importados da Europa.

O novo bairro, delineado para os terrenos da “Quinta da Fonte”, propriedade da CUF a sudeste do complexo industrial, à semelhança do bairro já existente, a par das habitações, deveria contemplar vários equipamentos sociais componentes de uma “obra social” que, na estratégia política e empresarial de Alfredo da Silva, trazia benefícios aos trabalhadores e reforçava os seus laços afetivos com a empresa. Faziam parte desta “obra social” para usufruto dos trabalhadores: despensa, moagem e padaria, balneário, serviços médicos e de socorros, farmácia, «Academia Recreativa e Musical», posto médico, lavadouro e escola.

 

O arquiteto Luís Cristino da Silva (1896-1976) e os planos para o novo bairro da CUF no Barreiro

O arquiteto Luís Cristino da Silva, filho e neto de pintores, tinha já elaborado projetos de habitações para a faixa norte do já existente Bairro de Santa Bárbara, nomeadamente, o projeto de 4 moradias de 2 pisos, geminadas duas a duas, para alojamento de engenheiros (30 de novembro de 1943) e de uma creche “para 60 lactantes” (16 de dezembro de 1943). Estas moradias são as únicas habitações encomendadas pela CUF ao arquiteto, construídas segundo o seu desenho e que ainda se conservam.

Luís Cristino da Silva © Mário Novais

Os estudos de Cristino da Silva para a elaboração do plano de urbanização do “Novo Bairro Operário da CUF do Barreiro” começaram já depois da morte de Alfredo da Silva, em 1942. Entre os primeiros, datados de 1945, e o apresentado em 1951, designado como “Plano definitivo de urbanização do novo Bairro Operário do Barreiro”, existiram diversas variantes que Luís Cristino da Silva foi elaborando, que divergem não só em termos do traçado urbanístico, como também em termos da morfologia arquitetónica dos edifícios.

Nos primeiros estudos observa-se, quer no traçado urbanístico curvilíneo, quer na tipologia das habitações – moradias isoladas e blocos com 1 ou 2 pisos -, uma aproximação mais visível ao modelo das “cidades-jardim” enunciado no princípio de Novecentos.

As diversas variantes que Cristino da Silva vai produzindo depois de 1948 – o ano da realização do I Congresso Nacional de Arquitectura, em cujos debates se afirmou uma nova geração de arquitectos e se defendeu os princípios da «Carta de Atenas» – revelam uma alteração significativa em relação às propostas anteriores, não só na adopção do traçado rectilíneo dos arruamentos, como também no recurso a blocos isolados para habitação colectiva, colocados paralelamente em lotes rectangulares.

“(…) Quanto ao partido adoptado na composição urbanística desta variante, limitamo-nos apenas a dizer, que é absolutamente racional, desenvolvendo-se os moldes que a técnica moderna aconselha.

Compõe-se de vários blocos destinados a habitação colectiva tendo 4 a 6 pisos cada um, podendo alojar respectivamente cerca de 32 a 72 famílias.

Casas unifamiliares para encarregados e capatazes e várias moradias para empregados superiores completam a unidade residencial deste bairro, calculado para 700 fogos”.

“Plano defintivo de Urbanização do novo Bairro Operário do Barreiro que a Companhia União Fabril pretende construir junto das suas fábricas. Memória descritiva” (1 de agosto de 1951). LCS 49.2.11

 

“A Norte da linha férrea, além da Zona Desportiva e do seu parque de estacionamento anexo, disposeram-se 20 moradias destinadas ao alojamento do pessoal superior, constituindo uma pequena unidade, tipo cidade-jardim, tendo ao centro 2 «courts» de tenis reservado ao uso privativo dos seus habitantes”.

“Ante-Plano de Urbanização do Novo Bairro Operário do Barreior, que a CUF pretende mandar construir a Sueste das suas fábricas, junto da estação do Lavradio. Memória descritiva” (12 de abril de 1950). LCS 49.2.6

“A superfície total do bairro abrange aproximadamente 35 hect. e é limitada em todo o se perímetro pelas vias de grande trânsito, constituídas pelas variantes à E.N. 11, integradas no plano de urbanização da Vila do Barreiro.

Segundo o programa estabelecido pela CUF, destina-se este bairro a conter cerca de 700 alojamento para operários e 20 moradias para pessoal superior.

A Norte da via férrea, na parcela de terreno mais fértil da Quinta da Fonte, encontra-se localizada a zona desportiva, envolvendo por 3 lados o núcleo residencial destinado a habitação do pessoal superior.

A superfície restante do Bairro, que se desenvolve a Sul da via férrea, é reservada para habitação do pessoal operário, chefes de fábrica, encarregados, etc, destribuindo-se as suas residências por 12 grandes blocos e 8 de menores dimensões, destinados a habitação colectiva, 7 grupos de alojamentos dispostos em ordem continua, 19 habitações geminadas e 45 moradias unifamiliares.

Todos estes edifícios, dispostos segundo a melhor orientação, encontram-se separados por amplas zonas verdes, constituindo logradouros colectivos ou individuais, conforme os casos”.

“Plano defintivo de Urbanização do novo Bairro Operário do Barreiro que a Companhia União Fabril pretende construir junto das suas fábricas. Memória descritiva” (1 de agosto de 1951). LCS 49.2.11

 

Apesar de todas estas variantes a que Luís Cristino da Silva dedicou tanta atenção, o novo bairro que a CUF mandou construir no Barreiro para os seus trabalhadores teve como autor do projeto final o arquiteto Fernando Silva.

O Mausoléu de Alfredo da Silva

Luís Cristino da Silva foi o arquiteto responsável pelo projeto do Mausoléu de Alfredo da Silva, em colaboração com o escultor Leopoldo de Almeida, que realizou os baixos relevos, alusivos à agricultura e à indústria, dos painéis que o ornamentam e outras esculturas. Encomendado em 1942, ano da morte do fundador da CUF, foi inaugurado dois anos mais tarde, em 20 de agosto de 1944.

Monumento erigido no antigo cemitério do Barreiro por vontade do industrial que, “mesmo morto queria estar sempre a olhar para as suas fábricas” (Sardica, José Miguel – Alfredo da Silva e a CUF: liderança, empreendedorismo e compromisso. Cascais: Princípia, 2020, p. 143) ostenta o seguinte epitáfio:

“Alfredo da Silva repousa junto à obra que criou e vela pela sua continuidade 1942”.

Hospital da CUF na Travessa do Castro, n.º 3, Lisboa

Inaugurado em 10 de junho de 1945, o Hospital da CUF começou a ser construído em janeiro de 1942, com projeto do arquiteto Vasco Regaleira. Foi remodelado, entre 1962 e 1964, pelo arquiteto Fernando Silva. Dois baixos relevos – “A Medicina” e a “Cirurgia” (1944) – da autoria do escultor Leopoldo de Almeida ornamentavam o hall da entrada principal. Mantendo-se em atividade até 2020 os serviços do designado «Hospital CUF Infante Santo» foram, entretanto, transferidos para o novo complexo hospitalar «CUF Tejo», recentemente inaugurado em Alcântara.

A Tabaqueira, Lisboa e Albarraque

A Tabaqueira foi uma das empresas do império industrial e comercial da CUF, fundada por Alfredo da Silva em 1927, na zona oriental da cidade de Lisboa, onde se manteve em laboração até 1963. No final de 1962, a inauguração da nova fábrica em Albarraque (Sintra) determinou o encerramento das velhas instalações de ferro e tijolo, características da construção industrial do início do século XX.

À semelhança do que a CUF tinha realizado no seu complexo do Barreiro, também em Albarraque foi construído, junto das instalações fabris, um bairro para alojamento dos trabalhadores e diversos outros equipamentos, no espírito da “obra social” preconizada por Alfredo da Silva: um pavilhão para trabalhadores solteiros, centro comercial, creche e jardim-de-infância, o refeitório, um centro de saúde, o centro cultural e social (já demolido) e uma igreja.

A Igreja da Sagrada Família – também conhecida por Igreja do Bairro da Tabaqueira – foi inaugurada no dia 18 de dezembro de 1965, com projeto do arquiteto Jorge Viana (1924-2010). Trata-se de um edifício cuja organização espacial da planta se desenha de forma a aproximar os crentes do altar da celebração, em sintonia com os princípios defendidos pelo Movimento de Renovação de Arte Religiosa (MRAR) para a afirmação da arquitetura religiosa moderna em Portugal.

Na decoração do interior da igreja trabalharam diversos artistas plásticos da época: os painéis azulejares, com cenas da vida de Cristo – o baptismo no rio Jordão – e da Sagrada Família são da autoria do pintor Lima de Freitas, enquanto que os de padronagem abstratizante foram concebidos pelo arquito do edifício, Jorge Viana; a ceramista Graziela Albino foi a autora do sacrário e às escultoras Maria do Carmo d’Orey e Graça Costa Cabral coube a execução da estatuária.

Em 2019 esta igreja foi classificada imóvel de interesse público.

O Externato Diocesano D. Manuel de Mello, no Barreiro

Em 1957, na sequência de uma proposta de trabalhadores para a criação de um externato para os seus filhos, apresentada à administração da Companhia União Fabril – presidida por Manuel de Mello, genro e sucessor de Alfredo da Silva – a CUF cede ao Patriarcado de Lisboa terrenos da Quinta dos Casquilhos (Alto de Paiva).

A construção do então designado “Externato Diocesano D. Manuel de Mello”, com projeto do arquiteto Formosinho Sanches, iniciou-se em 1961. Na década de 1970, nas instalações do Externato passou a funcionar o Liceu Nacional do Barreiro (ano letivo 1973/4), sendo atualmente a Escola Secundária do Barreiro.

Lisnave. Doca Alfredo da Silva, Doca n.º 13 da Margueira, Cacilhas

Estaleiro de construção e reparação naval fundado em 1961. Entrou em funcionamento em 1963, na continuidade da tradição naval das embarcações compradas para a Sociedade Geral, na década de 1920 e da exploração dos estaleiros da Rocha de Conde de Óbidos a partir de 1937. Foram inauguradas novas docas secas em 1967 e em 1971, para navios até 300.000 e 1 milhão de toneladas, respetivamente.

No contexto da política de transportes e distribuição da CUF e em sintonia com a renovação da frota mercante nacional a seguir à segunda guerra mundial, a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes mandou construir nos estaleiros da CUF, quatro navios mistos de passageiros e carga, destinados à carreira de Cabo Verde e da Guiné. O maior foi o navio Rita Maria, que foi lançado à água em 1952, e viajou até 1977.

Anúncios, marcas, lojas e produtos CUF

No âmbito da atividade industrial focada no comércio e assente numa política promocional pioneira, deve-se à CUF em 1970, a criação, na Avenida dos Estados Unidos da América (Lisboa), do primeiro supermercado “Pão de Açúcar”, cadeia criada pelo Grupo Brasileiro «Pão de Açúcar» (fundado em São Paulo), que se associou à CUF em 1969.