Almada e a geometria

Nascido em São Tomé e Príncipe em 1893, filho de pai português e de mãe luso-angolana, José Sobral de Almada Negreiros cresceu e foi educado em Lisboa com o irmão António no colégio dos Jesuítas de Campolide. A mãe morre em 1896 e o pai vai viver para França. Em 1913 organiza a primeira exposição individual. Integra o conjunto de autores da revista Orpheu, fundada por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro em 1915. Reclama-se futurista e escreve quatro manifestos artísticos de vanguarda, ganhando fama de fazer escândalo em locais públicos, sozinho ou com Santa Rita Pintor. Esses anos são férteis em colaborações, refletindo o furor vanguardista dos anos 1910 e depois a libertação de costumes e a vida boémia dos anos 1920.

Em 1919 vai para Paris, onde vive um ano. Aí prolonga a haste do “d” na sua, desde então, muito característica assinatura. Na década de 1920, estreita relações com artistas e intelectuais espanhóis e parte para Madrid em 1927, onde se estabelece na cena artística madrilena, com uma exposição individual e a participação em exposições coletivas, e colaborando com músicos, escritores e arquitetos.

Regressa a Portugal em 1932 onde assiste à afirmação da política cultural do Estado Novo, que implementa uma nova forma de trabalho para os artistas. As várias encomendas públicas e privadas levam-no à execução de vitrais, azulejos, pintura a fresco, entre outros trabalhos, sobretudo em colaboração com o arquiteto Porfírio Pardal Monteiro. Paralelamente, mantêm uma produção de desenho e pintura, trabalhos gráficos, textos literários, poemas, peças de teatro e conferências.

Em 1934 casa com a pintora Sarah Affonso, com quem terá dois filhos. Funda a revista Sudoeste (1935) e, em 1936, integra a Exposição de Artistas Modernos Independentes em Lisboa, onde também participa a sua mulher. Em 1942, recebe o Prémio Columbano (atribuído pelo Secretariado de Propaganda Nacional) e, em 1957, é premiado extraconcurso na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian.

A sua última encomenda é o painel Começar para o Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian (1968). Morre em Lisboa, a 15 de junho de 1970, no Hospital de São Luís dos Franceses.

Segundo relata Almada Negreiros nas décadas de 1950 e 60, é em 1916 que se dá uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), na companhia de Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso, onde o próprio terá ficado fascinado com a obra Ecce Homo, à altura atribuída a Nuno Gonçalves. Dez anos mais tarde, em 1926, apresenta uma nova proposta de disposição para os Painéis de São Vicente de Fora (MNAA) daquele pintor régio, ativo no século XV. Embora tenha gerado polémica à época, a distribuição que Almada propôs, a partir da observação da perspetiva dos ladrilhos comuns aos seis painéis, mantém-se ainda hoje inalterada.

Ainda que esta descoberta esteja ligada ao reconhecimento da importância da geometria na pintura (em função da perspetiva linear), só na década de 1940 podemos notar como a geometria veio a fascinar Almada de uma forma profunda e envolvente. A sua obra plástica foi alvo de uma progressiva tendência geometrizante, o que se pode verificar nos frescos das gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos (da década de 40), em obras como o autorretrato Auto-Reminiscência de Paris (1949), os retratos de Fernando Pessoa (1954 e 1964), ou a tapeçaria Número (1958).

Em 1957, Almada recebe um prémio extraconcurso na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, por quatro pinturas a preto e branco (pertencentes ao Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna), aí apresentadas. Estas, já inteiramente integradas no abstracionismo geométrico, marcam de forma clara (enfatizada pelos títulos atribuídos a cada uma) a importância que o autor dava à geometria, já como tema, além de ferramenta composicional, na sua obra.

Por escolha do autor, o painel Começar veio a ter um conteúdo completamente geométrico que inclui, de forma antológica, várias construções geométricas e várias referências culturais presentes no seu trabalho, ao longo de décadas.