Sinfonia do Novo Mundo

Orquestra Gulbenkian / Gábor Káli / André Gaio Pereira

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O compositor checo Antonín Dvořák viveu apenas dois anos e meio em Nova Iorque, mas foi o tempo suficiente para deixar uma marca na cidade e para a música norte-americana inspirar a sua criação. O caso mais evidente da sua permeabilidade às sonoridades que descobriu do outro lado do Atlântico encontra-se na Sinfonia n.º 9, intitulada “Do Novo Mundo”, atravessada por referências a espirituais afro-americanos e à música nativa. A acompanhar esta obra, a Orquestra Gulbenkian, sob a direção do maestro húngaro Gábor Káli, apresentará duas peças de Ligeti, contando com a participação solista de André Gaio Pereira, Prémio Maestro Silva Pereira – Jovem Músico do Ano 2017.


TRANSMISSÃO


Programa

Orquestra Gulbenkian
Gábor Káli Maestro
André Gaio Pereira Violino

György Ligeti (1923 – 2006)
Concerto romeno
1. Andantino
2. Allegro vivace
3. Adagio ma non troppo
4. Molto vivace

Composição: 1951
Estreia: Door County Wisconsin, 21 de agosto de 1971
Duração: c. 12 min. 

Para entendermos este Concerto Romeno temos de recuar até à infância e origens de György Ligeti, nascido em 1923 na região fronteiriça da Transilvânia, em Dicsőszentmárton, na época território pertencente à Hungria e hoje à Roménia. Desde cedo surgiu o seu fascínio pela música popular, quando em criança teve contacto com músicos locais que tocavam música folclórica no violino e na trompa alpina, uma memória que permaneceu viva muitos anos depois, como esta obra o pode comprovar. Não é por isso de estranhar que, em 1949, Ligeti tenha decidido fazer uma digressão pela Roménia para pesquisar e estudar sobre a música tradicional deste país, seguindo as pisadas dos seus compatriotas Béla Bartók e Zoltán Kodály, que obviamente foram uma fonte de inspiração para Ligeti e que antes dele tinham materializado de forma significativa o seu interesse pela música popular.

Composto em 1951, o Concerto romeno é desenvolvido em quatro andamentos curtos interpretados sem interrupções. Os dois primeiros andamentos são adaptados de uma peça que o compositor havia escrito um ano antes, a Balada e Dança para dois violinos. Após a Balada que se transformou neste Andantino, o segundo andamento segue sem interrupção – uma dança rápida com vigor contagiante, na qual o flautim e o violino solo são os protagonistas. Isso leva-nos até ao terceiro andamento, de tempo lento e com uma escrita consideravelmente mais complexa. Duas trompas são instruídas para usarem a afinação natural do instrumento e uma delas é posicionada com distanciamento de forma a criar um eco, na tentativa de evocar o som da trompa alpina. O final é efusivo, dando uma ideia de extensão da linguagem musical de Bartók nos seus andamentos rápidos de inspiração romena. O violino solo surge para liderar uma dança que se torna desenfreada. O efeito da trompa alpina regressa, como um último suspiro para um “falso final” que é finalmente apagado por um acorde retumbante de toda a orquestra.

Os toques modestamente modernos deste Concerto romeno, que hoje parecem totalmente inquestionáveis, foram suficientes para provocar uma reação desfavorável dos poderes artísticos instalados na época e politicamente motivados para a supressão da criatividade e da liberdade de pensamento na Hungria após a Segunda Guerra Mundial, facto que terá contribuído para que esta obra só tenha sido apresentada publicamente em 1971.

 

 

György Ligeti (1923 – 2006)
Concerto para Violino e Orquestra
1. Praeludium: Vivacissimo luminoso – attacca
2. Aria, Hoquetus, Choral: Andante con moto – attacca
3. Intermezzo: Presto fluido
4. Passacaglia: Lento intenso
5. Appassionato: Agitato molto

Composição: 1990/1992
Estreia: Colónia, 8 de outubro de 1992
Duração: c. 29 min.

Crescendo no seio de uma família judaica numa Hungria que foi dominada por Hitler e Stalin, György Ligeti tornou-se parte do grande êxodo húngaro provocado pela revolução de 1956, tendo ido para a Alemanha onde avidamente absorveu a próspera cultura da música contemporânea.

A música de Ligeti deu nas vistas durante a década de 1960, quando o compositor se tornou uma figura reconhecida do movimento de vanguarda de Darmstadt (Alemanha), junto com compositores como Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen. Em 1968 fora empurrado para uma espécie de fama popular, quando o realizador Stanley Kubrick, sem o conhecimento de Ligeti, usou quatro composições suas como parte da banda sonora do filme 2001: Odisseia no Espaço. O mesmo viria a acontecer mais tarde em outros filmes de Kubrick, como Shining e De Olhos Bem Fechados, mas desta vez já com o consentimento do compositor, que acabaria por manter uma estreita amizade com o realizador norte-americano.

Saschko Gawriloff, um virtuoso violinista alemão que já havia trabalhado com Ligeti, desafiou o compositor a compor um concerto para violino, um pedido inicialmente recusado por Ligeti que alegou falta de tempo. Porém, a obra acabaria por avançar, a versão original foi composta em três andamentos e o concerto foi estreado nessa versão por Gawriloff e pela Orquestra Sinfónica da Rádio de Colónia em 1990. Após a primeira atuação, Ligeti fez uma revisão substancial do seu trabalho, retirando o primeiro andamento original e substituindo-o por três novos andamentos tocados sem interrupções. Esta versão teve a sua estreia em 1992, novamente com Gawriloff e com Ensemble Modern sob a direção do compositor e maestro Peter Eötvös.

Numa entrevista, Ligeti levanta um pouco do véu sobre o seu processo de composição, descrevendo que “há primeiro uma ideia, uma visão geral de como a obra irá soar, seguindo-se o processo de criar uma linguagem capaz de produzir essa ideia.” Na verdade, este processo criativo será idêntico ao da maioria dos compositores, a diferença está precisamente na originalidade da ideia e nos vários elementos que fazem desta uma obra única, sofisticada e complexa. Como não temos acesso à ideia original, cabe ao ouvinte tentar, subjetivamente, reconstituí-la através da experiência auditiva.

O que torna a sua música tão singular é o facto de Ligeti ter encontrado uma linguagem própria e uma estética que só foram possíveis graças ao facto de o compositor ter tentado sempre afastar-se de todos os dogmas que o limitassem na procura de uma abordagem experimental sempre aberta a um novo tipo de sonoridade.

György Ligeti chegou a um patamar raramente alcançado por compositores do nosso tempo. Poucas obras tiveram, como este Concerto para Violino, cinco gravações comerciais durante os primeiros vinte anos de existência. Talvez chegue o dia em que, nas programações das orquestras e salas de concerto, o Concerto para Violino de Ligeti apareça com uma frequência idêntica à de outras grandes obras-primas deste género.

 

Intervalo (15 min.)

 

Antonín Dvořák (1841 – 1924)
Sinfonia n.º 9, em Mi menor, op. 95, Do Novo Mundo
1. Adagio – Allegro molto
2. Largo
3. Scherzo: Molto vivace
4. Allegro con fuoco

Composição: 1892/93
Estreia: Nova Iorque, 16 de dezembro de 1893
Duração: c. 42 min.

Foi durante o período em que Dvořák assumiu o cargo de diretor do Conservatório de Música de Nova Iorque, com então 51 anos de idade, que surgiu a composição da sua Sinfonia n.º 9, em Mi menor, op. 95, Do Novo Mundo, mais concretamente durante o inverno de 1892 e a primavera de 1893. A estadia de Dvořák nos Estados Unidos da América veio a revelar-se bastante produtiva para o compositor checo, que acabaria por ter o privilégio de ver as suas obras estrearem no também recém-inaugurado Carnegie Hall. Foi o caso desta sinfonia que, em dezembro de 1893, subiu ao palco da mediática sala de concertos, interpretada pela Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, sob a batuta do maestro húngaro Anton Seidl e perante o olhar atento do compositor, que testemunhou a calorosa receção do público a uma obra que no dia seguinte seria descrita pelo New York Evening Post como “A maior obra sinfónica jamais escrita neste país”.

Dvořák assumiu que o seu interesse pelas características da música nativa e afro-americana foram uma forte influência para a composição desta obra, daí a presença de escalas pentatónicas (de 5 notas) ou ritmos sincopados, como é exemplo o tema principal do primeiro andamento. Mas também O Canto de Hiawatha, um poema do escritor americano Henry Longfellow que relata as aventuras de um guerreiro indígena, serviu de inspiração.

O Largo é o andamento mais célebre da sinfonia, inspirado numa cena de funeral na floresta descrito por Longfellow. Um grandioso coral nos metais abre caminho para o corne inglês que apresenta um tema que tem tanto de simplicidade como de beleza e nostalgia. Esta melodia popularizou-se nos Estados Unidos tornando-se a canção Going Home, com letra de William Fisher que havia sido aluno de Dvořák em Nova Iorque.

O Scherzo é igualmente inspirado no referido poema, retratando uma cena de festa na floresta em que os índios dançam. E se o frenesim da dança está aqui bem presente, este terceiro andamento não deixa de manter os traços principais da tradição musical europeia, sendo impossível ignorar a herança dos scherzos de Beethoven, em particular o da Nona Sinfonia, dissipando qualquer dúvida que, no que diz respeito à forma, orquestração, harmonia e contraponto, estamos perante uma sinfonia que na sua essência, e como não poderia deixar de ser, é música europeia.

Com um início vigoroso que ficaria célebre, o último andamento resume os principais temas da obra. Nas páginas finais da sinfonia, o tema Going Home e a melodia do Scherzo reúnem-se com o tema principal deste finale, resultando numa síntese extraordinária de uma obra rica e poderosa cuja popularidade só teve o inconveniente de ocultar algumas das sinfonias anteriores do compositor.

Notas de Élio Anes Leal


Guia de Audição


  • Por Sérgio Azevedo

  • Por Sérgio Azevedo

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