Metamorfoses

Orquestra Gulbenkian / Lorenzo Viotti / Daniel Lozakovich

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Após três anos como Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian, esta é a primeira apresentação de Lorenzo Viotti como Maestro Convidado Principal do agrupamento. O programa inclui a obra Metamorfoses, de Richard Strauss, uma composição intensa e historicamente coincidente com o ocaso da Segunda Guerra Mundial e o Concerto para Violino e Orquestra n.º 1 de Max Bruch. Como solista, o jovem virtuoso sueco Daniel Lozakovich.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Daniel Lozakovich* Violino

Carl Maria von Weber (1786 1826)
Abertura da ópera Oberon

Composição: 1826
Estreia: Londres, 12 de abril de 1826
Duração: c. 10 min.

Carl Maria von Weber ocupa um lugar de destaque na história da ópera, em particular, sobretudo pelo sucesso que constituiu a composição da ópera Der Freischütz (1821), um dos primeiros grandes expoentes da ópera romântica alemã. No início do século XIX, Weber é geralmente visto como aquele a quem coube encontrar a fórmula dramática capaz de afirmar a ópera alemã no seio de uma cultura com uma forte influência italiana, projetando-a como um fenómeno durável de popularidade.

Com o sucesso da estreia vienense de Der Freischütz, o compositor recebeu a encomenda de uma nova ópera para o Kärntnertortheater de Viena. Pressionado na altura pela imprensa musical a apresentar algo mais ambicioso do que um Singspiel, Weber compôs uma obra de maior relevo, fazendo estrear Euryanthe em 1823. Entretanto, o sucesso da estreia londrina de Der Freischütz, em 1824, originaria mais um convite para uma nova ópera, agora para Covent Garden, resultando na composição de Oberon.

Ópera romântica em três atos, com diálogo falado, Oberon, or The Elf King's Oath seria a derradeira obra teatral e o derradeiro sucesso de Weber. Estreada menos de dois meses antes da morte do compositor, é a única ópera de Weber composta sobre um libreto em inglês, este da autoria de James Robinson Planché, baseado na tradução inglesa, de William Sotheby, do poema épico alemão Oberon de Christoph Martin Wieland. A obra, encomendada pelo ator e empresário Charles Kemble, obrigou Weber a viajar para Londres para completar a música e a aprender inglês para melhor seguir o libreto.  O argumento é uma fantasia que se desenrola no mundo encantado dos Elfos do qual Oberon é o rei. O sentido do fantástico e do colorido musical, assim como a admirável orquestração, constituem virtudes essenciais da obra. A Abertura, embora possa ser executada como uma peça independente, tem uma relação musical direta com a ópera a que serve de introdução. Como habitualmente, Weber cita temas importantes da obra e exibe muitas alusões ao universo do fantástico, este introduzido logo de início por um misterioso motivo de três notas na trompa, logo complementado pelas cordas e pelas madeiras.

Miguel Martins Ribeiro

 

Max Bruch (1838 1920)
Concerto para Violino e Orquestra n.º 1, em Sol menor, op. 26
1. Vorspiel (Prelúdio): Allegro moderato
2. Adagio
3. Finale: Allegro energico

Composição: 1866-67
Estreia: Bremen, 5 de janeiro de 1868
Duração: c. 25 min.

Max Bruch foi uma figura respeitada na vida musical alemã do seu tempo, tanto como compositor como enquanto diretor de orquestra, tendo composto abundantemente desde a sua infância. O catálogo da sua obra, que inclui uma produção bastante variada e em grande parte esquecida e subestimada, é testemunho da sua adesão a um gosto romântico de meados do século XIX, na linha conservadora que se localiza entre Mendelssohn e Brahms. O Concerto para Violino n.º 1, em Sol menor, op. 26, foi composto inicialmente em 1866 e objeto de uma audição pública preliminar em abril desse ano, após o que o compositor, insatisfeito com o resultado, trabalhou numa versão revista, no que contou com a colaboração do célebre violinista Joseph Joachim. Esta versão definitiva, concluída no ano seguinte, seria estreada em Bremen, com Joachim no papel solista, a 5 de janeiro de 1868. Desde então, a obra tem sido invariavelmente aclamada pelo público, em particular pelas suas melodias líricas que exploram com grande efeito praticamente todo o âmbito do instrumento.

O caráter inusitado do primeiro andamento, Allegro moderato, reside no facto de ter sido concebido como uma espécie de prelúdio ao andamento central. Inicia-se lentamente, com dois momentos virtuosísticos do solista que introduzem uma breve exposição de forma sonata baseada em dois temas contrastantes, um mais vigoroso e outro mais melódico. Quando habitualmente se esperaria uma secção de desenvolvimento, o compositor recupera as duas cadências iniciais para preparar a amena submersão no segundo andamento, Adagio, no qual reside o âmago emocional da obra. Os seus três temas líricos e arrebatadores, que contribuíram grandemente para a popularidade que o concerto alcançou, são explorados na constante interação entre o solista e a orquestra que o sublinha. Por fim, o espirituoso terceiro andamento, Allegro energico, inicia-se com uma serena introdução orquestral que dá lugar à apresentação pelo solista de um primeiro tema vigoroso em cordas duplas, bem como de um segundo tema contrastante, de grande lirismo e algo mais solene. É, no entanto, o fogoso primeiro tema que predomina numa coda crepitante que encerra o concerto com grande fulgor.

Luís Miguel Santos

 

Richard Strauss (1864 1949)
Metamorfoses
para 23 instrumentos de cordas

Composição: 1944/1945
Estreia: Zurique, 25 de janeiro de 1946
Duração: c. 28 min.

Nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, Richard Strauss isolava-se cada vez mais na sua vila nos Alpes, afastando-se da fase mais negra do conflito. Lia Goethe e o poema Niemand wird sich selber kennen (“Ninguém pode conhecer-se a si mesmo”) inspirava-o a escrever um esboço de uma obra coral para quatro vozes masculinas e a refletir sobre o autoconhecimento. Regressou a esse esboço após uma encomenda de Paul Sacher, maestro, patrono e empresário suíço, de uma obra para orquestra de cordas. Deu-lhe o título de Metamorphosen, provavelmente inspirado numa outra obra poética de Goethe, As metamorfoses das plantas e As metamorfoses dos animais. Numa reflexão sobre a natureza humana e o perigoso potencial da humanidade em ceder aos mais básicos instintos animalescos, reverte o significado clássico da palavra metamorfose, onde através do autoconhecimento o humano se torna divino.

A obra foi concluída em abril de 1945, pouco antes do suicídio de Hitler e da conclusão da Guerra, e após os bombardeamentos dos Aliados que destruíram a ópera de Viena e outros monumentos de referência da cultura germânica. Antes de Viena, Strauss tinha já assistido à destruição de Munique, onde o seu pai tinha sido primeira trompa na orquestra real e onde ouviu algumas das obras mais emblemáticas de Weber e de Wagner. Sobre esses tempos perturbadores afirmou: “o mais terrível período da história humana está a chegar ao fim, o reinado de doze anos de bestialidade, ignorância e anti cultura, sob o poder dos maiores criminosos, durante o qual os dois mil anos de evolução cultural germânica foram condenados à morte ”.

Metamorphosen, para 23 instrumentos de cordas solistas, contém referências aos grandes nomes da música germânica: Mozart, Beethoven, com uma citação da marcha fúnebre da sinfonia Heroica, e Wagner. Sombria e resignada, “possivelmente a mais triste obra musical alguma vez escrita” (Alan Jefferson), reflete um final de vida amargurado do compositor.

Susana Duarte

 

*Por motivos de força maior, a violinista Lisa Batiashvili é substituída por Daniel Lozakovich.


GUIA DE AUDIÇÃO

Por Sérgio Azevedo

No Guia de Audição desta semana, Sérgio Azevedo fala-nos da abertura de Weber, da peça Metamorfoses de Richard Strauss, e do Concerto para Violino n.º 1 de Max Bruch.


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