Concerto Imperador

Orquestra Gulbenkian / Krzysztof Urbański / Elisabeth Leonskaja

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Para Elisabeth Leonskaja, a orquestra é “um enorme bloco, um corpo vivo, que existe e tem direito a existir com o seu ritmo e o seu pulso”. Assim, a pianista russa considera fundamental, nos concertos com orquestra, sintonizar-se com esse “pulso”, integrando um corpo orgânico e encontrando a harmonia perfeita para cada interpretação. Presença frequente na Gulbenkian Música, em concerto e recital, Leonskaja regressa ao convívio da Orquestra Gulbenkian para partilhar a interpretação de um programa Beethoven, sob a direção do maestro polaco Krzysztof Urbański, um músico de inteligência e perceção extraordinárias.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Krzysztof Urbański Maestro
Elisabeth Leonskaja Piano

Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Concerto para Piano n.º 5, em Mi bemol maior, op. 73, Imperador
1. Allegro
2. Adagio un poco mosso
3. Rondo: Allegro

Composição: 1809
Estreia: Leipzig, maio de 1811
Duração: c. 39 min.

Na transição para o período romântico, foram várias as obras musicais diretamente influenciadas por acontecimentos de natureza social, política e militar, como foi o caso do Concerto para Piano n.º 5, em Mi bemol maior, op. 73, de Ludwig van Beethoven. A partir da primavera de 1809 e à medida que compunha a partitura, o compositor alemão foi assistindo à progressão dos exércitos de Napoleão Bonaparte por várias regiões do império germânico, incluindo a Áustria. Apesar de todos os esforços, não foi possível debelar a invasão francesa, a qual veio a assolar a capital imperial, Viena, em outubro do mesmo ano. Foi durante esse período de imposição dos termos da capitulação, conhecido como “Paz de Viena”, que o Concerto n.º 5 foi finalizado. A estreia ocorreu, não em Viena, mas em Leipzig, em maio de 1811. Pouco tempo depois, a obra começava a ser conhecida pelo subtítulo Imperador, acrescentado aos programas de concerto à revelia do compositor, que não admitia outra designação que não a de “Grande Concerto”.

O primeiro andamento, Allegro, inicia-se com uma brilhante cadência do instrumento solista, sobre uma sucessão de acordes orquestrais. O tutti desvela, em seguida, toda a dimensão sinfónica da partitura, colocando em evidência os jogos de contraste sonoro entre os diferentes naipes, evocadores dos eventos coevos já mencionados.

No segundo andamento, Adagio un poco mosso, as cordas esboçam um tema que se aparenta com uma melodia de coral. O piano apodera-se deste canto contemplativo e desenha a sua própria progressão no tempo, sem parecer constrangido por quaisquer limites de ordem exterior à da própria essência melódica do seu discurso musical. As trompas intervêm de forma muito suave, antecedendo a modulação que conduz ao final do andamento.

No último andamento, Allegro, Beethoven recorreu à forma rondó-sonata para erigir um quadro enérgico e impetuoso, dominado pelo pujante refrão, o qual se baseia na oposição entre a subdivisão binária, presente na mão direita do solista, e a subdivisão ternária, que serve de base à mão esquerda. Desta forma, o compositor fez apelo aos seus próprios dotes virtuosísticos, como intérprete do pianoforte.

Rui Cabral Lopes

 

Intervalo (15 min.)

 

Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Sinfonia n.º 5, em Dó menor, op. 67
1. Allegro con brio
2. Andante con moto
3. Scherzo: Allegro
4. Finale: Allegro

Composição: 1804-1808
Estreia: Viena, 22 de dezembro de 1808
Duração: c. 36 min.

A Quinta Sinfonia de Ludwig van Beethoven é uma das obras mais frequentemente interpretadas em concerto e conhecidas do grande público. Se mais provas fossem necessárias para afirmação do elevado valor intrínseco desta obra, além das extraordinárias qualidades artísticas que dela emanam, e que lhe garantem uma posição cimeira no património cultural da humanidade, a profusa literatura acerca da mesma é por si só testemunho da sua importância histórica e estética.

Excluindo as várias dissecções produzidas pelo pensamento musicológico, uma das mais fascinantes recensões à 5.ª Sinfonia surgiu, desde logo, pela mão do crítico, compositor e novelista E.T.A. Hoffmann (1776-1822) num artigo intitulado “A Música instrumental de Beethoven” (1813) publicado no  Allgemeine musikalische Zeitung, no qual o autor realça os mais significativos aspetos de uma obra, à época, tão profundamente inovadora e, ao mesmo tempo, de significado hermético para a esmagadora maioria do público. Ainda que as estruturas formais que Beethoven utiliza – forma-sonata no primeiro e no último andamentos, tema com variações no segundo e um scherzo no terceiro – sejam ainda herdeiras do período tardo-setecentista, muitos outros aspetos desta sinfonia marcam já uma rutura com o cânone clássico. Não é somente a sua vultuosa dimensão ou a sua extraordinária coesão temática e motívica, mas sobretudo a avassaladora carga anímica que dela irradia e que a demarca das composições homónimas dos seus antecessores.

Ao despedir-se do seu amigo Beethoven, quando este partiu para Viena, em 1792, o conde Waldstein augurou-lhe que “recebesse o espírito de Haydn pelas mãos de Mozart”. Pode afirmar-se, sem constrangimento, que estas influências permaneceram em Beethoven, todavia transmutadas pela sua fértil retórica interior e personalidade marcante. Este facto adquire força de evidência de forma muito especial na 5.ª Sinfonia, onde Beethoven genialmente expressa não só a sua ambivalente personalidade intempestiva e afetuosa, mas também integridade ética e inquietude existencial.

Luís Raimundo


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  • Por Alexandre Delgado

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