Oito Décadas de Pintura Portuguesa. Colecção da Fundação Calouste Gulbenkian

Exposição diplomática e itinerante de pintura portuguesa moderna e contemporânea, organizada pelo Centro de Arte Moderna e apresentada em Dublin e em Salvador da Baía. Comissariada por José Sommer Ribeiro, a mostra contou com um conjunto de 27 pinturas de 16 artistas e enquadrou-se num período em que se intensificaram as representações internacionais de arte portuguesa.
Diplomatic travelling exhibition on modern and contemporary Portuguese painting organised by the Modern Art Centre and presented in Dublin and Salvador, Brazil. Curated by José Sommer Ribeiro, the show featured a selection of 27 paintings by 16 artists and was staged at a time when Portuguese art was gaining greater visibility on the international stage.

Exposição itinerante de pintura portuguesa moderna e contemporânea, organizada pelo Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), com o apoio do Gabinete de Relações Internacionais da Secretaria de Estado da Cultura de Portugal e apresentada em Dublin (Irlanda) e em Salvador da Bahia (Brasil), contando para tal com o apoio, respetivamente, da Embaixada de Portugal na Irlanda e do Consulado-Geral de Portugal em Salvador da Bahia.

De âmbito diplomático, esta mostra foi organizada a pretexto da visita do presidente da República Portuguesa Mário Soares à Irlanda, à semelhança do que já havia acontecido noutras mostras de arte portuguesa contemporânea organizadas pela FCG durante os mandatos de Mário Soares na Presidência da República de Portugal (nomeadamente, as exposições «Portuguese Contemporary Painting. Collection of the Modern Art Center», Índia, 1992; «Dacosta, Pomar, Cargaleiro, Jorge Martins. 4 Peintres Portugais à Paris», França, 1989; «Images du Portugal. 3 Peintres: Souza-Cardoso, Júlio Pomar, Paula Rego», Suíça, 1988; «70-80 Arte Portuguesa», Brasil, 1987; «Pintores Modernos Portugueses», Rússia, 1987; «Vieira da Silva nas Colecções Portuguesas», Brasil, 1987; «Portuguese Painting from the Last 3 Decades», Grécia, 1988).

Em meados de 1993 a diretora do Gabinete de Relações Internacionais da Secretaria de Estado da Cultura, Maria de Lourdes Simões Carvalho, solicitou à FCG a organização da exposição. Por ter sido curto o período que mediou entre o pedido de colaboração e a visita de Estado, optou-se por apresentar uma pequena mostra de pintura portuguesa moderna e contemporânea que recorresse exclusivamente ao acervo do CAM, evitando-se assim eventuais demoras com processos de empréstimos e transportes de obras.

Em junho de 1993, nas galerias da Guinness Hop Store (Dublin), foram apresentados trabalhos de 16 artistas, num conjunto de 27 obras pertencentes à coleção do CAM ou aqui em depósito. Entre elas, contavam-se pinturas de António Carneiro e de pioneiros do modernismo português, com destaque para Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana e Almada Negreiros, bem como de artistas de gerações mais recentes e com carreiras estabilizadas na década de 1980, como Paula Rego, Júlio Pomar, Joaquim Rodrigo ou António Dacosta.

O comissário da exposição e diretor do CAM, José Sommer Ribeiro, propunha, dentro das contingências, uma «síntese da pintura portuguesa» naqueles últimos oitenta anos, advertindo para os riscos em que se incorria ao dispor apenas peças do acervo de um único museu e ao pretender percorrer quase um século de arte com um tão limitado número de obras expostas (27).

A evolução da pintura portuguesa e o enquadramento histórico daqueles oitenta anos eram explicados pelo comissário na introdução do texto do catálogo. A cronologia começava em 1915, com o «início do verdadeiro Modernismo Português», de tendência literária, que, na opinião de Sommer Ribeiro, se associava à ação do Grupo de Orpheu. Seguiu-se a emigração de alguns artistas portugueses, o contacto com o centro artístico parisiense, que propiciou relacionamentos que exerceram a sua influência nas práticas e problemáticas dos artistas portugueses (o casal Delaunay, Amadeo e Eduardo Viana). Como era sugerido por esta leitura, os «anos 20 decorreram sem grandes inovações e a maioria dos artistas teve que se dedicar à ilustração e ao grafismo como meio de sobrevivência» (Oito Décadas de Pintura Portuguesa. Colecção da Fundação Calouste Gulbenkian, 1993).

Avançando nesta retrospetiva por décadas, a de 1930, que coincidiu com o início da ação de António Ferro no comando do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) e da política cultural do Estado Novo, foi marcada pela instituição de prémios e pela organização de exposições, nos quais sobressaíram nomes como os de Mário Eloy, Carlos Botelho ou António Soares. A exaltação nacionalista dos anos 40, em contraponto com o surgimento das correntes surrealista, neorrealista e abstracionista, marcaria um período de agitação artística. Os anos 50 serão assinalados pelo afastamento de António Ferro da direção do então Secretariado Nacional de Informação (SNI) e por uma maior oposição ao regime salazarista, que, mais perto do final da década, levará a um êxodo de muitos membros da comunidade artística (maioritariamente para Paris, mas também Londres e outros destinos), auxiliados pelas bolsas de especialização artística da recém-criada Fundação Calouste Gulbenkian. Os anos 60 trazem a renovação artística, influenciada, em parte, pelo contacto com as correntes internacionais (pop, informalismo, nova figuração, arte minimal). O regime democrático, trazido pelo 25 de Abril de 1974, e os tempos que se lhe seguiram foram marcados pela euforia, pela agitação política e pelo sentido de coletivo, que proporcionou o convívio artístico em «atividades experimentalistas» e conceptuais (Alternativa Zero, 1977) (Ibid.).

A par da ação do então criado Centro de Arte Contemporânea do Porto, dirigido por Fernando Pernes e Etheline Rosas, também a FCG orientou esforços no sentido de permitir ao público português um maior contacto com as práticas contemporâneas internacionais, ao mesmo tempo que se empenhou em «organizar ou colaborar na divulgação da arte portuguesa no estrangeiro» – de que são exemplo as exposições «Gravure Portugaise Contemporaine, 1970-1975», Paris, 1975; «Arte Portuguesa Contemporânea», Brasil, 1976; «Arte Portuguesa Contemporânea», Paris, Roma, 1976; «Portuguese Art since 1910», Londres, 1978 (Ibid.).

Na década de 1980, seria criado o primeiro museu de arte moderna em Portugal, o Centro de Arte Moderna da FCG, que, entre outras vertentes experimentais e interdisciplinares, se centrou num programa «de mostras retrospectivas e antológicas» temáticas e se empenhou no «estudo sistemático da arte portuguesa do nosso século», assim como na articulação com museus e outras entidades nacionais e internacionais. Nesta década, discutir-se-á também pela primeira vez o pós-modernismo em Portugal (exposição «Depois do Modernismo», SNBA, 1983) e as mudanças operadas nos padrões artísticos, protagonizadas por novas gerações, com novas linguagens interdisciplinares e interações com o circuito galerístico. A par destes, e durante a década de 80, artistas com carreiras previamente estabelecidas continuam a desenvolver ativamente as suas práticas, conferindo consistência ao corpo dos seus trabalhos (Júlio Pomar, Paula Rego, Menez, António Dacosta) (Ibid.).

Aberta ao público durante cerca de um mês, a exposição foi bem acolhida pelo público irlandês. No discurso proferido em Dublin, Mário Soares sublinhou a ação da FCG na divulgação da arte portuguesa no estrangeiro: «Quero ainda deixar aqui expressa a minha esperança de que a exposição de pintura portuguesa, organizada com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian […] seja o prenúncio de uma fase mais intensa de intercâmbio cultural entre artistas e instituições universitárias e culturais portuguesas e irlandesas, de que ambos os países só têm a beneficiar.» (Discurso do presidente da República em Dublin, 1 jun. 1993, Arquivos Gulbenkian, CAM 00275)

Em julho de 1993, no mês que se seguiu à apresentação irlandesa, a exposição viajou até Salvador da Bahia, onde integrou a participação portuguesa na III Conferência Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo. Esteve patente nas galerias do Museu de Arte da Baía, acompanhada pela exibição de documentários dedicados a alguns dos artistas portugueses ali representados (Amadeo de Souza-Cardoso, Carlos Botelho, António Dacosta, Júlio Pomar e Paula Rego); os vídeos foram cedidos pelo Departamento de Documentação e Pesquisa do Centro de Arte Moderna.

Sylvia Athayde, diretora do Museu de Arte da Bahia, apoiou a iniciativa e a sua dinamização. Em carta enviada à produtora do Centro de Arte Moderna, lamentava apenas o reduzido número de obras em exposição, tendo em conta o espaço disponível: «A exposição ficou bonita, só achei que podia ter mais uns 10 quadros, pois o salão é grande e em certas áreas ficou um bocadinho vazio.» (Carta de Sylvia Athayde para Zaida Guerra, 9 jul. 1993, Arquivos Gulbenkian, CAM 00276)

A presidir à inauguração esteve o subsecretário de Estado da Cultura, Manuel Frexes, cerca de 200 convidados, diplomatas e membros da imprensa brasileira, que «elogiaram a qualidade do acervo da F. Calouste Gulbenkian» (Fax do Ministério dos Negócios Estrangeiros para o Serviço Internacional da FCG, 10 ago. 1993, Arquivos Gulbenkian, CAM 00276).

Filipa Coimbra, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Canção popular            a Russa e o Figaro

Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918)

Canção popular a Russa e o Figaro, Inv. 77P18

Título desconhecido

Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918)

Título desconhecido, Inv. 77P8

Pintura

Ângelo de Sousa (1938-2011)

Pintura, 1973/74 / Inv. 80P574

See the Conquering Hero Comes

António Areal (1934-1978)

See the Conquering Hero Comes, 1965 / Inv. 79P630

Melgaço I

António Carneiro (1872-1930)

Melgaço I, Inv. 83P46

Paisagem de Melgaço

António Carneiro (1872-1930)

Paisagem de Melgaço, Inv. 83P45

Antítese da calma

António Dacosta (1914-1990)

Antítese da calma, c.1940 / Inv. 80P121

Serenata Açoreana

António Dacosta (1914-1990)

Serenata Açoreana, c.1940 / Inv. 83P122

S/Título

António Palolo (1946-2000)

S/Título, 1970 / Inv. 81P570

S/Título

António Palolo (1946-2000)

S/Título, 1971 / Inv. 83P572

Alfama

Carlos Botelho (1899-1982)

Alfama, 1933 / Inv. 83P236

Nova York, Rua 53

Carlos Botelho (1899-1982)

Nova York, Rua 53, 1939 / Inv. 80P92

"La petite"

Eduardo Viana (1881-1967)

"La petite", (1917) / Inv. 69P38

K4 Quadrado Azul

Eduardo Viana (1881-1967)

K4 Quadrado Azul, 1916-1917 / Inv. 83P37

0.42 - 69

Fernando Lanhas (1923-2012)

0.42 - 69, 1969 / Inv. 69P635

O32 - 60

Fernando Lanhas (1923-2012)

O32 - 60, 1960 / Inv. 84P141

Lisboa - Algeciras

Joaquim Rodrigo (1912-1997)

Lisboa - Algeciras, 1969 / Inv. 69P145

Simón Caraballo

Joaquim Rodrigo (1912-1997)

Simón Caraballo, 1961 / Inv. 83P144

[Banhistas] (Pintura para o café "A Brasileira" do Chiado, Lisboa)

José de Almada Negreiros (1893-1970)

[Banhistas] (Pintura para o café "A Brasileira" do Chiado, Lisboa), Inv. 83P58

Just a Skin Affair

Julião Sarmento (1948-2021)

Just a Skin Affair, Inv. 88P346

Pescadores

Júlio Resende (1917-2011)

Pescadores, 1957 / Inv. 83P442

s/título

Júlio Resende (1917-2011)

s/título, 1952 / Inv. 83P926

Lissabon

Mário Eloy (1900-1951)

Lissabon, Inv. 83P79

Nu

Mário Eloy (1900-1951)

Nu, Inv. 84P80

The Vivian Girls as Windmills

Paula Rego (Lisboa, Portugal, 1935 – Londres, Inglaterra, 2022)

The Vivian Girls as Windmills, Inv. 86P589


Eventos Paralelos

Visita oficial

[Oito Décadas de Pintura Portuguesa. Colecção da Fundação Calouste Gulbenkian]

2 jun 1993
Guiness Hop Store
Dublin, Irlanda

Publicações


Material Gráfico


Documentação


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00275

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém lista de obras, correspondência recebida e expedida, ata do discurso do presidente da República Mário Soares por ocasião da visita de Estado à Irlanda, seguros. 1993 – 1994

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00276

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência interna e externa e convite. 1993 – 1993


Exposições Relacionadas

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