Carlos Ramos. Exposição Retrospectiva da sua Obra

Exposição evocativa e retrospetiva do arquiteto Carlos Ramos (1897-1969), programada pelo filho, Carlos Manuel Ramos, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e do Departamento de Documentação e Pesquisa do Centro de Arte Moderna. O percurso expositivo foi organizado em torno de três temas, que permitiram documentar e sistematizar a ação do arquiteto na área da arquitetura e da pedagogia.
A retrospective exhibition evoking architect Carlos Ramos (1897-1969) designed by his son, Carlos Manuel Ramos, with the support of the Calouste Gulbenkian Foundation and the Research and Documentation Department of the Modern Art Centre. The show comprised three themes which allowed for the documentation and systematisation of Ramos's work in the fields of artchitecture and education.

Exposição evocativa e retrospetiva da ação do Mestre Carlos Ramos, arquiteto, professor e antigo diretor da Escola Superior de Belas-Artes do Porto (ESBAP) durante dezasseis anos, figura essencial para o conhecimento mais aprofundado da história da arquitetura portuguesa. A mostra foi programada pelo filho de Carlos Ramos, Carlos Manuel Ramos, juntamente com o arquiteto Pedro Vieira de Almeida, contando para tal com o apoio do Serviço de Exposições e Museografia da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) e do Departamento de Documentação e Pesquisa do Centro de Arte Moderna. O comissariado foi assumido pelos já referidos arquitetos, juntamente com Octávio Lixa Filgueiras e Rui Mário Gonçalves. Além da apresentação em Lisboa, na Galeria de Exposições Temporárias (piso 0) da FCG, a exposição registou mais duas apresentações no Porto, no Museu Nacional de Soares dos Reis e, posteriormente, nas instalações da Tranquilidade Seguros.

 

Em 1970, foi proposta pelo então diretor do Serviço de Belas-Artes, Artur Nobre de Gusmão, a constituição de um grupo de trabalho com a missão de documentar e sistematizar a ação do arquiteto Carlos Ramos no domínio da arquitetura, da pedagogia e da sua relação com os artistas. O principal propósito deste grupo residia numa investigação preliminar com vista à organização de um «catálogo crítico», desenvolvido por Octávio Lixa Filgueiras, Frederico George, Francisco Keil do Amaral e pelo jornalista Luís Teixeira (Apontamento do Serviço de Belas-Artes, 29 out. 1970, Arquivos Gulbenkian, SBA 15510). Estes trabalhos não chegaram a ser concluídos, pese embora terem sido produzidos alguns textos ensaísticos a respeito da obra de Carlos Ramos. A intensa programação expositiva e o levantamento em curso foram ditando os sucessivos adiamentos desta exposição retrospetiva (Apontamento do Serviço de Exposições e Museografia, 25 jan. 1985, Arquivos Gulbenkian, SEM 00335).

 

A intenção de a realizar só viria a ser retomada mais tarde, já na década seguinte, na sequência do cancelamento de uma prevista exposição de homenagem, organizada pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, dedicada ao antigo professor e diretor daquela escola. O cancelamento, ditado por divergências sobre o programa da exposição, desencadearia uma rutura entre a ESBAP e o filho do Mestre Carlos Ramos, o arquiteto Carlos Manuel Ramos.

 

Na sequência deste impasse e tendo em consideração a vontade da FCG, há muito manifestada, de divulgar e homenagear a ação de Carlos Ramos, foi acordado entre o filho de Carlos Ramos e a FCG a organização da exposição (Carta de Carlos M. Ramos para José Azeredo Perdigão, 13 jan. 1983, Arquivos Gulbenkian, SEM 00335). Importa ainda referir que o arquiteto Carlos Ramos foi um colaborador próximo da FCG, participando em júris (I e II Exposições de Artes Plásticas da FCG, respetivamente, em 1957 e em 1961) e como consultor para o concurso da Sede e do Museu Calouste Gulbenkian.

 

Para a organização da exposição, foi constituído um novo grupo de trabalho, que contou com a colaboração do arquiteto Pedro Vieira de Almeida, Octávio Lixa Filgueiras e Rui Mário Gonçalves, que se ocuparam, respetivamente, dos três temas centrais da atividade de Carlos Ramos e que organizavam o percurso expositivo: «O Arquiteto», «O Pedagogo», «O Companheiro dos Artistas».

No piso 0 da Galeria de Exposições Temporárias da FCG, o percurso foi desenvolvido em torno destes três núcleos. O setor reservado à arquitetura, além de oferecer uma contextualização histórica e disciplinar, destacava a atividade projetista de Carlos Ramos, a partir de meados da década de 1920, através de registos documentais, gráficos (plantas, cortes, alçados) e fotográficos. Entre estes projetos assinados pelo arquiteto destacavam-se o Bairro Operário de Olhão (1925) e o Instituto Português de Oncologia de Lisboa (1928).

O setor dedicado à ação pedagógica analisava o percurso de Carlos Ramos desenvolvido ao longo dos anos da docência e da direção da ESBAP, mediante recursos documentais, bibliográficos e epistolográficos, pontuados por recortes de imprensa e registos fotográficos que destacavam o seu convívio entre pares, alunos e artistas.

O setor histórico, dedicado à interação multidisciplinar e ao convívio entre Carlos Ramos e o meio cultural e artístico português, era oferecido ao público através das obras expostas, que sintetizam as ligações, afinidades, oposições e tendências a norte e a sul. Estas obras correspondiam a um conjunto significativo de obras (pintura, desenho e escultura) reunidas por Carlos Ramos na sua casa do Restelo. Como afirmaria Rui Mário Gonçalves, comissário responsável por este setor, o conjunto apresentado correspondia a «três parâmetros»: «valor intrínseco, significado biográfico e período da ESBAP» (Carlos Ramos. Exposição Retrospectiva da sua Obra, 1986). Esta seleção, que deveria considerar-se «aberta e lacunar», era ainda necessária «para o entendimento da história da arte em Portugal» (Ibid.), com destaque para artistas como Mário Eloy, Almada Negreiros, Eduardo Viana, Stuart Carvalhais, Júlio Resende ou Nadir Afonso, para companheiros de geração como Cottinelli Telmo ou para o relato das suas memórias sobre a apresentação dos Ballets Russes em Lisboa, em 1917. Não se tratando de uma coleção estruturada, estas obras pertencentes a Carlos Ramos resultavam das «opções da sua juventude […]. Daí o período muito marcado das obras mais significativas: os anos 20 lisboetas e, depois, os anos 50 portuenses» (Ibid.).

O catálogo desta exposição tornou-se um elemento útil de estudo da arquitetura em Portugal entre as décadas de 1920 e 1960, além de traçar uma retrospetiva sobre a evolução do ensino na ESBAP entre os anos de 1946 e 1969.

No âmbito da exposição foram organizados dois colóquios, um em Lisboa e outro no Porto. No Auditório 2 da FCG, durante o colóquio intitulado «Pedagogia Prática», e com a moderação de Pedro Vieira de Almeida, foram apresentadas comunicações de Fernando Távora, Manuel Tainha, Nuno Portas e José Manuel Fernandes.

A exposição teve um bom acolhimento junto do público, tendo sido visitada, no Porto, pela secretária de Estado da Cultura, Teresa Patrício Gouveia, e pelo então presidente da República, Mário Soares. Porém, junto da crítica especializada, a exposição foi vista como lacunar, embora se tenha aplaudido a iniciativa. O historiador e crítico José-Augusto França comentaria a ausência na exposição de alguns projetos do arquiteto que entendia serem dignos de menção e que contribuiriam para a análise crítica do seu percurso enquanto arquiteto. Destacaria, igualmente, algumas insuficiências relativamente à investigação publicada em catálogo: «Infelizmente, o teor comemorativo da exposição não leva a estudar, com apoio de fichas históricas e críticas, de carácter necessariamente filológico, que faltam ao catálogo, os problemas que, directa ou indirectamente, põe a obra de Carlos Ramos.» (França, Colóquio/Artes, mar. 1986, p. 62)

O crítico José Luís Porfírio manifestaria opinião idêntica, referindo-se a esta mostra evocativa como uma «exposição frustrante», que entendia ter descurado a articulação entre as três vias de análise da importância histórica de Carlos Ramos: a biografia, os projetos e vida profissional, e, por fim, algumas obras provenientes da sua coleção particular (Porfírio, Expresso, 14 fev. 1986).

Filipa Coimbra, 2017


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Colóquio

Pedagogia Prática

12 mar 1986 – 12 mar 1986
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Auditório 2
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Colóquio «Pedagogia Prática»
Maria Teresa Gomes Ferreira (ao centro)
José Sommer Ribeiro (à dir.)
Pedro Vieira de Almeida (ao centro)
José Sommer Ribeiro (à dir.)
José Sommer Ribeiro (ao centro)

Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM 00335

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém convite, correspondência recebida e expedida, orçamentos. 1983 – 1988

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Belas-Artes), Lisboa / SBA 15510

Pasta com documentação referente à constituição de um grupo de trabalho com vista a uma eventual retrospetiva da obra de Carlos Ramos. 1970 – 1976

Biblioteca de Arte Gulbenkian, Lisboa / Dossiê BA/FCG

Coleção de dossiês com recortes de imprensa de eventos realizados nas décadas de 80 e 90 do século XX, organizados de forma temática e cronológica. 1984 – 1997

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Comunicação), Lisboa / COM-S001/019-D02195

14 provas, p.b.: inauguração (FCG, Lisboa) 1986

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0188-D00562

6 provas, p.b.: inauguração (FCG, Lisboa) 1986

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0188-D00559

15 provas, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1986

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0188-D00560

26 provas, p.b.: aspetos (FCG, Lisboa) 1986

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0188-D00561

19 provas, p.b.: aspetos (FCG, Lisboa) 1986

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0188-D00564

11 provas, p.b.: aspetos (MNSR, Porto) 1986

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0188-D00563

7 provas, p.b.: colóquio (FCG, Lisboa) 1986


Exposições Relacionadas

Definição de Cookies

Definição de Cookies

A Fundação Calouste Gulbenkian usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. A Fundação pode também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.