Henrique Medina. Exposição Retrospectiva

Exposição retrospetiva do pintor português Henrique Medina (1901-1988), que contou com trabalhos vindos de França, Suécia, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, Espanha e Argentina. Contou com a apresentação de 246 desenhos e retratos cedidos por museus e colecionadores privados, com temas como paisagem, pintura de género e natureza-morta.
Retrospective exhibition on Portuguese painter Henrique Medina (1901-1988) featuring 246 landscape, still life, and genre paintings and drawings on loan from museums and private collectors in France, Sweden, the United States, Brazil, England, Spain and Argentina.

Exposição retrospetiva de Henrique Medina, um dos pintores portugueses mais internacionais. A inauguração aconteceu a 19 de outubro de 1983 e contou com a presença de Azeredo Perdigão, Manuela Eanes, em representação do presidente da República, e de Freitas do Amaral, numa visita conduzida pelo artista.

Esta exposição compreendeu desenhos, retratos, pintura de género, paisagem e natureza-morta, reunindo 246 obras, cedidas por entidades públicas – a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, o Museu Etnográfico de Vila Franca de Xira, a Casa-Museu Nogueira da Silva, em Braga, o Paço Episcopal do Porto, o Museu Grão Vasco, em Viseu, e o Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa – e por colecionadores privados. Geograficamente, além de Portugal, vieram obras da Suécia, dos Estados Unidos, do Brasil, de França, Inglaterra, Espanha e Argentina.

As figuras retratadas compreendiam desde familiares do artista até figuras típicas portuguesas, como a noiva de Viana do Castelo, passando por celebridades ou personalidades políticas e do mundo artístico. A pintura mostrada abrangia todos os períodos de trabalho de Henrique Medina, desde o Retrato da Avó (1911) ao Pato Mudo (1983).

O catálogo da exposição contém textos do artista, bem como de Carlos Malheiro Dias, Quentin Reger, Joaquim Veríssimo Serrão, Severo Portela e Gil Stone, que traçam o percurso de Henrique Medina e elogiam a sua obra. Inclui ainda reproduções de algumas pinturas expostas e uma cronologia da vida do artista. O catálogo, esgotada a primeira edição, foi reeditado.

A documentação consultada dá testemunho da polémica que envolveu a realização da exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, o que não obstou a que a Associação Comercial do Porto manifestasse interesse em levá-la àquela cidade, onde esteve em patente no Palácio da Bolsa, a partir de 19 de janeiro de 1984.

Num apontamento manuscrito, Azeredo Perdigão, referindo-se à acesa polémica que a exposição gerou, alvitra que não faz sentido que a Fundação, após as críticas de que foi alvo, promova a sua repetição no Porto. Sugere por isso que a organização da mostra fique a cargo de um crítico de arte à escolha da Associação Comercial do Porto.

O artigo do Novo Século intitulado «Na Gulbenkian. Confusão cultural» faz prova da referida polémica. O autor do artigo criticava a exposição e as escolhas pouco coerentes do programa expositivo da Fundação: «E com[o] a confusão do nosso panorama das artes plásticas não é suficiente, a douta Gulbenkian, com a sua maleabilidade um tanto habitual e sempre suspeita, acolheu o Amadeo de Sousa Cardoso, “a primeira Descoberta de Portugal na Europa do século XX”, e, simultaneamente, uma espécie de Ingres à moda do Minho, que dá pelo nome de Henrique Medina, pintor de cãezinhos de luxo que só não ladram porque não podem e de adolescentes nus com pele de pêssego, a atirar para o erótico senão mesmo para o pornográfico.» («Na Gulbenkian. Confusão cultural», Novo Século, 1 dez. 1983)

O tom corrosivo do artigo foi ainda extensivo ao diretor do Serviço de Exposições e Museografia e às suas orientações programáticas: «O arquitecto Sommer Ribeiro, o responsável pelo outro dislate, balança num estranho trampolim afirmando que “a Fundação já mostrou quais as suas linhas” mas que “houve um grupo de pessoas que propôs esta retrospectiva”. Se bem entendemos para o patusco Sommer, modernista por um lado e transigente pelo outro, daqui em diante a Fundação arvora às segundas, quartas e sextas o pendão das Vieiras da Silva e dos Almadas, às terças, quintas e sábados bate palmas aos Maltas e Medinas.»

A imprensa não afinaria porém toda pelo mesmo diapasão. O artigo assinado por J. Armando Eliseu para O Globo, intitulado «Naturalismo de Medina enche Lisboa de encantamento», não só inclui uma entrevista ao pintor, como faz rasgados elogios à exposição, aludindo à grande afluência registada e à boa receção do público: «[…] também nós ficámos emocionados com um público que vibrou entusiasticamente com o poder do realismo puro, espelhado nas telas, que fazem seguramente esquecer as críticas menos boas que não conseguiram calar uma força artística que nos tempos mais próximos o povo não vai certamente esquecer, e que ficará, estamos certos, gravado na sua memória para sempre.» (Eliseu, O Globo, 28 nov. 1983)

Também o Primeiro de Janeiro elogiou a exposição, referindo-se a ela como «um assinalado êxito» e salientando que, em apenas uma tarde, contou com 3080 visitantes.

No jornal O País, Mário de Oliveira classificaria a exposição como «francamente má», embora dizendo que «estamos habituados às excelentes montagens da Gulbenkian e não entendemos a razão desta montagem», e atribuía a afluência a um público «que ainda pensa que a arte é apenas imitar a realidade». Na opinião de Mário de Oliveira, não terá havido uma «visão adequada em relação ao espaço, o que logicamente muito prejudica leitura». Em relação aos retratos expostos, este autor defendia que deveria ter existido uma seleção mais rigorosa do trabalho de Henrique Medina e que na maioria dos retratos estava ausente um sentimento expressivo e psicológico.

A exposição encerrou a 27 de novembro de 1983, prolongando-se por mais uma semana além da data prevista.

Carolina Gouveia Matias, 2017


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Publicações


Material Gráfico


Fotografias

José de Azeredo Perdigão (à esq.)
Exposição «Henrique Medina. Exposição Retrospectiva»

Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM 00283

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém um convite, correspondencia interna e externa, orçamentos, material para o catálogo e recortes de imprensa. 1983 – 1984

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Comunicação), Lisboa / COM-S001/019-D02170

7 provas, p.b.: inauguração (FCG, Lisboa) 1983

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0131-D00404

10 provas, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1983

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0131-D00405

49 provas, p.b.: aspetos (FCG, Lisboa) 1983

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0131-D00406

104 provas, p.b.: objetos (FCG, Lisboa) 1983

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0131-D00407

18 provas, p.b.: inauguração (FCG, Lisboa) 1983

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM-S007-P0131-D00408

24 provas, p.b.: aspetos (Palácio da Bolsa, Porto) 1984


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