Filipa César (1975-)
Conakry, Inv. 17IM83
Filipa César, Yto Barrada, Maria Lusitano
«Uma Paz Que Não Há» foi um ciclo de filmes da Coleção do CAM apresentado no contentor marítimo instalado no Jardim Gulbenkian, no âmbito do programa «CAM em Movimento». Com curadoria de Leonor Nazaré, decorreu entre 22 de janeiro e 15 de maio de 2024, reunindo três obras sobre a guerra, o poder e a colonização. Para um enquadramento do programa e da instalação do contentor marítimo no jardim, consultar o texto sobre o primeiro ciclo de vídeos.
O título retomou um verso do poema Montes, e a paz que há neles, pois são longe, de Fernando Pessoa, sublinhando a fragilidade de uma paz que, embora entendida como conquista duradoura, se revela difícil de preservar. Os filmes abordaram estes temas através das narrativas culturais e mediáticas construídas sobre eles, cruzando memória histórica, experiências familiares e representações da guerra.
O ciclo organizou-se em três apresentações sucessivas:
– Conakry (2013), de Filipa César (22 jan. – 26 fev.)
– Tree Identification for Beginners (2017), de Yto Barrada (28 fev. – 1 abr.)
– War Correspondent (2010), de Maria Lusitano (3 abr. – 15 mai.)
Em Conakry, Filipa César revisitou imagens de arquivo que documentam uma exposição comissariada por Amílcar Cabral em 1972, no Palácio do Povo, em Conakry. Integrado no projeto Luta ca caba inda, o filme partiu de materiais conservados no Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual da Guiné-Bissau para interrogar a história política do país e o papel das imagens no período posterior à libertação.
Com a participação de Grada Kilomba e Diana McCarty, a obra articulou diferentes leituras dessas imagens e da sua história. A recuperação de filmagens quase esquecidas tornou-se uma forma de reativar a memória e de questionar os modos de construir e transmitir narrativas históricas.
Em Tree Identification for Beginners, Yto Barrada entrelaçou acontecimentos políticos, movimentos de descolonização e narrativas familiares. O filme recuperou a viagem realizada pela sua mãe aos Estados Unidos, em 1966, quando era estudante socialista, a convite de um programa dirigido a jovens africanos e patrocinado pelo Departamento de Estado norte-americano. A experiência decorreu num contexto marcado pelo pan-africanismo, pelas lutas pelos direitos civis e pelos movimentos de libertação.
A obra combinou animação stop-motion de jogos pedagógicos Montessori e símbolos gramaticais com relatos da viagem e testemunhos dos organizadores sobre as suas expectativas relativamente aos participantes. Sem ilustrar diretamente a narrativa, as formas e as cores em movimento aproximaram o universo dos jogos infantis dos mecanismos de poder e das estratégias de resistência.
War Correspondent, de Maria Lusitano, encerrou o ciclo com uma reflexão sobre as imagens da guerra nos meios de comunicação e na indústria do entretenimento. A obra trouxe para a programação o questionamento das representações mediáticas do conflito, completando um percurso que relacionou a recuperação da memória, a construção de narrativas políticas e a circulação de imagens.
O ciclo não teve divulgação específica, enquadrando-se na comunicação geral realizada por ocasião da inauguração do programa «CAM em Movimento», em 2021.
O acesso livre ao contentor marítimo e as características deste espaço de projeção condicionaram a recolha de dados sobre a visitação. Não foram contabilizados os visitantes, nem realizado um relatório de exposição.
Conakry, Inv. 17IM83
War Correspondent, 2010 / Inv. 16IM77
Tree Identification for Beginners, Inv. 20IM104