Fuso 2022. A Utopia da Paz, Filmes da Coleção do CAM Gulbenkian

Fuso 2022

No dia 26 de agosto, o FUSO – o único festival de videoarte em Portugal – apresentou cinco vídeos da Coleção do Centro de Arte Moderna (CAM) numa sessão que decorreu no Palácio Sinel de Cordes. O programa, intitulado «A Utopia da Paz. Filmes da Coleção do Centro de Arte Moderna» teve a curadoria de Benjamin Weil e Leonor Nazaré e contou com obras de Susana Gaudêncio, Maria Lusitano, Salomé Lamas, Daniel Barroca e Jan Fabre.
On August 26th, FUSO – the only video art festival in Portugal – presented five videos from the CAM Collection in a session held at Palácio Sinel de Cordes. The program, entitled “The Utopia of Peace. Films from the CAM Collection, Gulbenkian”, was curated by Benjamin Weil and Leonor Nazaré, and featured works by Susana Gaudêncio, Maria Lusitano, Salomé Lamas, Daniel Barroca and Jan Fabre.

«Resiliência e Comunidade» foram os temas-chave da 14.ª edição do FUSO, o Festival Internacional de Videoarte de Lisboa, que teve lugar entre 23 e 28 de agosto de 2022. Com entrada livre, a série de sessões de videoarte, exibidas ao longo de cinco noites consecutivas, decorreu em vários espaços singulares da cidade de Lisboa, incluindo os jardins e pátios do NowHere, MAAT, Castelo de São Jorge, Palácio Sinel de Cordes, MNAC e Museu da Marioneta. As 38 obras apresentadas ao longo do festival foram selecionadas por curadores portugueses e internacionais: Jean-François Chougnet, Paul Goodwin, Benjamin Weil, Leonor Nazaré, Ana Rito e Lori Zippay.

Lançado em 2009, o FUSO é o único festival nacional e internacional de videoarte em Portugal, com programação anual regular em Lisboa e nos Açores (FUSO Insular). Sublinhando o caráter eclético do meio – que cruza artes visuais, performance, teatro, cinema e literatura –, a seleção distingue-se pela sua variedade e diversidade. Com o objetivo de apresentar uma visão geral da evolução da videoarte, o festival inclui tanto obras canónicas como peças contemporâneas, homenageando artistas consagrados e promovendo, em simultâneo, criadores jovens ou emergentes. O espírito geral do festival – cujo nome joga com a ideia de fuso horário – é o da diversidade e da comunidade, procurando criar pontes e espaços de encontro e diálogo.

A edição de 2022 propôs uma reflexão sobre crises globais e questões centrais como o racismo, os conflitos sociais e as alterações climáticas, promovendo simultaneamente o conhecimento e a criatividade como ferramentas de resiliência e transformação positiva – um tema central em todo o festival. No âmbito desta edição, o diretor artístico do FUSO, Jean-François Chougnet – que foi o primeiro diretor artístico do Museu Colecção Berardo (de 2007 a 2011) – convidou o diretor do CAM, Benjamin Weil, e a curadora sénior Leonor Nazaré a selecionarem obras da coleção do CAM Gulbenkian.

Apresentado a 26 de agosto, terceiro dia de projeções ao ar livre (após a conferência inaugural de Isabel Nogueira, realizada no NowHere), este conjunto de obras foi projetado no Palácio Sinel de Cordes. Reuniu cinco artistas contemporâneos da coleção do CAM: quatro artistas portugueses nascidos em Lisboa – Susana Gaudêncio (1977), Maria Lusitano (1971), Daniel Barroca (1976) e Salomé Lamas (1987) –, e o artista belga de renome internacional, encenador e coreógrafo, Jan Fabre (Antuérpia, 1958).

As obras selecionadas, todas de caráter narrativo e centradas sobretudo em questões de territorialidade, conflito, guerra e poder, foram reunidas sob o título «A Utopia da Paz». Embora estes cinco filmes já tenham sido exibidos em diversas ocasiões – em exposições permanentes e temporárias da coleção do CAM, ou em sessões pontuais de videoarte –, foram agrupados especialmente para este evento. O ponto de partida do programa comissariado por Leonor Nazaré é a ideia de que a esperança da paz tem sido uma «ilha» de sonhos, um oásis imaginário flutuando no mapa humano da ilusão e da devastação provocada pela guerra. Como a luta parece ser parte da condição humana, a sua persistência ao longo do tempo revela que a humanidade se desvia continuamente do que poderia ser considerado o verdadeiro propósito da vida: o desenvolvimento da consciência e a edificação coletiva positiva, com base no autoconhecimento e na iluminação interior (Proposta de Leonor Nazaré, Arquivos Gulbenkian, [citação disponível brevemente]).

Na sua animação intitulada Ilhas Afortunadas: Aforismo sobre a emergência de um mundo aparentemente contínuo, de 2015–2016 (Inv. 16IM72 – 13'58''), Susana Gaudêncio explora a caminhada como o mais antigo meio de deslocação, um ato que catalisa conhecimento e criatividade. Através de um percurso realizado na cidade do Porto, a voz-off da narradora reflete sobre a complexa noção de insularidade – ora como espaço de confinamento e isolamento, ora como desejo de autonomia e utopia, de fuga e de refúgio. Nas palavras da curadora Leonor Nazaré: «Susana Gaudêncio parte das zonas habitacionais do Porto chamadas “Ilhas” para uma reflexão sobre a questão colonial.» (Ibid.)

Nostalgia (Inv. 16IM75 – 17'30''), de Maria Lusitano, produzida em 2002, aborda os temas do colonialismo e do pós-colonialismo. Misturando videoensaio, documentário e ficção, Nostalgia resulta de uma investigação aprofundada com base em imagens de arquivo da ocupação portuguesa de Moçambique. O narrador do filme, um adolescente de dezasseis anos que deixa Portugal rumo a Lourenço Marques, descreve uma cidade fantástica e «paradisíaca», em nítido contraste com a realidade dura do colonialismo e da guerra.

Produzida em 2008, Soldier playing with a dead lizard (Inv. 19IM101 – 08'55''), de Daniel Barroca, é uma instalação composta por oito vídeos curtos, todos elaborados a partir de uma coleção de fotografias tiradas por um soldado português entre 1972 e 1974, durante a guerra colonial (ou guerra de libertação) na Guiné-Bissau. O artista desmembra os registos fotográficos para construir uma obra enigmática, experimental e fragmentada, próxima da abstração. Para esta sessão foi exibido o sétimo vídeo da série, o único que pode ser apresentado de forma autónoma. Enquanto os seis primeiros se limitam a mostrar um homem a brincar com um lagarto, no sétimo surgem armas a disparar violentamente.

Na obra Le Boudin, de 2014 (Inv. 16IM73 – 16'), Salomé Lamas documenta a história de vida de Nuno Fialho, que saiu de Portugal aos dezasseis anos para se alistar na Legião Estrangeira Francesa. O protagonista relata como o pelotão – composto por fugitivos da justiça – é mobilizado por grupos corruptos para matar e executar missões obscuras ligadas a cartéis de droga, golpes de Estado, limpeza étnica, guerrilhas urbanas e outras ações mercenárias.

Intitulada Lancelot (Inv. IM23 – 8'16''), a obra de Jan Fabre é um filme-performance que corresponde a um excerto de uma peça a solo filmada em 2004, com cerca de quatro horas. Este combate romanesco tem como figura central Lancelot, um dos cavaleiros do rei Artur, aqui envolvido numa luta contra si próprio, o seu duplo e as suas sombras ou demónios interiores. Guerreiro solitário e aprisionado, combate um inimigo invisível, envergando uma armadura pesada e um «Graal» recriado em metal escuro e pedra.

A projeção, com cerca de uma hora de duração, foi seguida de uma conversa pública com os curadores Leonor Nazaré e Benjamin Weil, moderada pelo jornalista do Público Vítor Belanciano.

Através da iniciativa «FUSO Open Call» – dirigida a artistas portugueses ou estrangeiros a viver e a trabalhar em Portugal –, o festival promove também a criação de novas obras no domínio da videoarte. Em 2022, a «FUSO Open Call» recebeu 193 candidaturas. Treze obras foram selecionadas por Jean-François Chougnet e apresentadas a 24 de agosto, nos jardins do MAAT. Foram atribuídos dois prémios no último dia do festival, que teve lugar no Museu da Marioneta de Lisboa: o Prémio Aquisição Fundação EDP/MAAT, para a melhor obra, escolhido por um júri presidido por Margarida Chantre (Fundação EDP/MAAT), e o Prémio Incentivo Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, atribuído pelo público, que concedeu ao vencedor uma bolsa de um ano para realização de um «Projeto Pessoal» no departamento de Cinema/Imagem em Movimento da escola.

O programa do festival foi divulgado em várias plataformas online, como a Artec, Revista BICA, Renascença, o site do Turismo de Lisboa, o Cartaz Cultural de Lisboa, Duplacena, 351 Arte Magazine Portugal, Público e a Trienal de Arquitectura de Lisboa.

 

 

 

“Resilience and Community” were the key topics of the 14th edition of FUSO, the Lisbon International Video Art Festival, which took place between August 23 and 28, 2022. With free admission, the series of video art sessions, screened over five consecutive nights, took place in a selection of unique venues in Lisbon, including the gardens and courtyards of NowHere, MAAT, Castelo São Jorge, Palácio Sinel de Cordes, MNAC and Lisbon Puppet Museum. The 38 video works presented over the course of the festival were selected by Portuguese and international curators Jean-François Chougnet, Paul Goodwin, Benjamin Weil, Leonor Nazaré, Ana Rito and Lori Zippay.

Launched in 2009, FUSO is Portugal's only national and international video art festival, with a regular annual program in Lisbon and the Azores (FUSO Insular). Highlighting the eclectic nature of the medium, which intertwines visual art, performance, theatre, cinema and literature, the selection is characterised by its variety and diversity. In order to give an overview of the evolution of video art, the event includes both canonical works and contemporary pieces, simultaneously paying homage to established artists and promoting younger or emerging creators. The overall spirit of the festival, whose name is a play on the idea of time zone (fuso horário in Portuguese) is one of diversity and community, and it aims to build bridges and create spaces for interaction and dialogue.

The 2022 edition prompted reflection on global crises and major issues such as racism, social conflicts and climate change, while promoting knowledge and creativity as tools for resilience and positive change, a theme at the core of the whole festival. As part of the 2022 edition, FUSO’s artistic director, Jean-François Chougnet, who was the first artistic director of the Berardo Collection Museum (from 2007 until 2011), invited CAM director Benjamin Weil and senior curator Leonor Nazaré to select works from the CAM-Gulbenkian Museum collection.

Programmed on August 26, the third day of outdoor video art screenings following the inaugural public talk by Isabel Nogueira, held at NowHere, this selection of works was projected at Palácio Sinel de Corde. It brought together five contemporary artists from the CAM collection: four Portuguese artists born in Lisbon, Susana Gaudêncio (1977), Maria Lusitano (1971), Daniel Barroca (1976) and Salomé Lamas (1987), and the internationally renowned Belgian artist, theatre director and choreographer, Jan Fabre (Antwerp, 1958).

The selected works, all of a narrative nature and mainly tackling questions of territoriality, conflict, war and power, were gathered under the title “The Utopia of Peace”. While these five films have been shown on several occasions before — from permanent and temporary exhibitions of the CAM collection to short video-art sessions — they were grouped together specially for the event. The premise behind Nazaré’s program is the idea that the hope for peace has been an ‘island’ of dreams, an imaginary oasis floating on the human map of delusion and devastation caused by war. As struggle seems to be part of the human condition, its persistence throughout time reveals that humanity continually deviates from what could be considered the essential purpose of life: increased awareness and positive collective edification based on self-knowledge and enlightenment (Proposal by Leonor Nazaré, Gulbenkian Archive, [citation available soon]).

In her animation entitled Ilhas Afortunadas: aforismo sobre a emergência de um mundo aparentemente contínuo, from 2015-2016 (Inv. 16IM72 - 13’58’’), Susana Gaudêncio explores walking as the most ancient means of travelling, an act that catalyses knowledge and creativity. Through a walk performed in the city of Porto, the narrator’s voice-over reflects on the complex notion of insularity as a space of confinement and isolation or as a desire for autonomy and utopia, escape and refuge. In the words of curator Leonor Nazaré: “Susana Gaudêncio uses residential  areas of Porto called ‘Ilhas’ (Islands) to reflect on issues of colonialism”. (Ibid.)

Maria Lusitano’s Nostalgia (Inv. 16IM75 - 17’30’’), produced in 2002, explores the themes of colonialism and post-colonialism. Blending video essay, documentary and fiction, Nostalgia is the result of extensive research using archive images of the Portuguese occupation of Mozambique. The film's narrator, a sixteen-year-old teenager who leaves Portugal for Lourenço Marques, describes a fantastic and ‘paradisiacal’ city, which contrasts starkly with the harsh realities of colonialism and war.

Produced in 2008, Soldier Playing with a Dead Lizard (Inv. 19IM101 - 08’55’’) by Daniel Barroca is an installation comprising of 8 short videos, all made from a collection of photographs taken by a Portuguese soldier sometime between 1972 and 1974, during the colonial war or the war of liberation in Guinea-Bissau. The artist dismantled the shots to produce an enigmatic, experimental and fragmented work that verges on abstraction. For the session, the 7th piece in Barroca’s film sequence was shown, the only one in the series that can stand alone. While the first six films simply record a man playing with a lizard, the seventh sees weapons detonate brutally.

In her 2014 work entitled Le Boudin, Salomé Lamas (Inv. 16IM73 - 16’) documents the life story of Nuno Fialho, who left Portugal at the age of 16 to join the French Foreign Legion. He relates how the platoon, made up of fugitives from justice, is ordered by corrupt groups to kill and to perform obscure missions linked with drug cartels, coups d’état, ethnic cleansing, urban guerrillas and other mercenary tasks.

Entitled Lancelot, Jan Fabre’s performance film (Inv. IM23 - 8’16’’) is an extract from a four-hour filmed solo play performed by the artist in 2004. This romanesque combat features the figure of Lancelot, one of King Arthur's knights. It sees the character engaged in a struggle against himself, his double, and his shadows or inner demons. The solitary and imprisoned warrior fights an invisible enemy, with his weighty armour and his ‘Grail’ recreated in dark grey metal and stone.

The one hour-long screening was followed by a public talk by the curators Leonor Nazaré and Benjamin Weil, moderated by Público journalist, Vítor Belanciano.

Through the “FUSO Open Call” for Portuguese artists or foreign artists living and working in Portugal, the festival also promotes new work in the field of video art. In 2022, FUSO Open Call received 193 submissions. 13 video art works were selected by Jean-François Chougnet and were presented on August 24 in the MAAT gardens. Two prizes were awarded on the final day of the festival, which took place at Lisbon Puppet Museum: the EDP/MAAT Foundation Acquisition Prize for the best work, chosen by a jury chaired by Margarida Chantre (EDP/MAAT Foundation), and the Ar.Co - Centre for Art and Visual Communication Incentive Prize, awarded by the public, which granted its winner a one-year scholarship to complete a ‘Personal Project’ at the school's Cinema/Image and Movement department.

The festival program was featured on various online platforms such as Artec, BICA Revista, Renascença, the Lisbon Tourist Board website,  Cartaz Cultural de Lisboa (Lisbon’s Cultural Agenda), Duplacena, 351 Arte Magazine Portugal, Público, and the Lisbon Architecture Triennale.


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Soldier Playing with Dead Lizard

Daniel Barroca

Soldier Playing with Dead Lizard, Inv. 19IM101

Lancelot

Jan Fabre (1958-)

Lancelot, 2004 / Inv. IM23

Nostalgia

Maria Lusitano (1971-)

Nostalgia, 2002 / Inv. 16IM75

Le Boudin

Salomé Lamas (1987 - )

Le Boudin, 2014 / Inv. 16IM73

Ilhas Afortunadas : aforismos sobre a emergência de um mundo aparentemente contínuo

Susana Gaudêncio (1977-)

Ilhas Afortunadas : aforismos sobre a emergência de um mundo aparentemente contínuo, Inv. 16IM72


Eventos Paralelos


Material Gráfico


Fotografias

Conversa entre Benjamim Weil, Leonor Nazaré e Vítor Belanciano. Arquivos Gulbenkian, [cota brevemente disponível] © Fuso
Frames do vídeo de Salomé Lamas, «Le Boudin», 2014 (Col. CAM, Inv. 16IM73)
Frames do vídeo de Daniel Barroca, «Soldier Playing with Dead Lizard», 2008 (Col. CAM, Inv. 19IM101)
Frames do vídeo de Maria Lusitano, «Nostalgia», 2002 (Col. CAM, Inv. 16IM75)
Frames do vídeo de Susana Gaudêncio, «Ilhas Afortunadas», 2016 (Col. CAM, Inv. 16IM72)
Frames do vídeo de Jan Fabre, «Lancelot», 2004 (Col. CAM, Inv. IM23)

Multimédia


Documentação


Periódicos


Páginas Web

Definição de Cookies

Definição de Cookies

Este website usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. Podendo também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.