Jackson Pollock. Pintura é desenho, desenho é pintura
1979
50.º Aniversário do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA)
No âmbito do 50.º aniversário do Museum of Modern Art (MoMA), a administração do museu (The Internacional Council of The Museum of Modern Art) deliberou a organização de uma grande exposição dedicada ao conceituado pintor norte-americano Jackson Pollock (1912-1956). A mostra foi concebida para ser apresentada em várias cidades europeias, tendo tido edições em Oxford, Düsseldorf, Paris, Lisboa e Amesterdão.
A montagem em Lisboa partiu da iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), onde foram exibidas 80 obras do pintor, entre desenhos, pinturas e gravuras. O objetivo da exposição foi o de revelar e sublinhar a relação do desenho e da pintura na produção artística de Pollock. Neste sentido, as obras destacadas na FCG corresponderam ao desenrolar do trabalho do artista a partir da década de 1930, e pretenderam enfatizar a estreita conexão entre a sua abordagem inovadora dos processos pictóricos e gráficos e os seus trabalhos em dripping dos anos de 1946 a 1950, que ficaram como os mais emblemáticos da sua obra.
Jackson Pollock estudou na Art Students League of New York, onde integrou um grupo de estudantes americanos que pretendeu distanciar-se das propostas modernas da arte europeia do início e meados do século XX. Comprometidos em assumir para a arte americana um cenário de destaque e distinção face à produção europeia, estes artistas, influenciados pela violência expressiva dos pintores mexicanos (como José Orozco e David Alfaro Siqueiros), conceberam um estilo que combinava realismo com expressivas e energéticas distorções. Mais tarde, já na década de 1940, e tendo tido contacto (direto ou indireto) com a arte revolucionária de Picasso, dos surrealistas e abstracionistas (muitos artistas europeus residiram nos Estados Unidos da América no período da Segunda Guerra Mundial), estes jovens artistas americanos vieram a ser conhecidos como expressionistas abstratos, marcando profundamente a produção artística mundial do pós-guerra.
O reconhecimento de Pollock ficou a dever-se à sua abundante produção pictórica, assente na técnica de dripping, forma de fazer pintura projetando direta e automaticamente, sem esquemas prévios, a tinta sobre a superfície da tela. Jackson Pollock conseguia, assim, conferir às suas pinturas um acabamento extremamente gestual, físico e expressivo.
Relativamente à metodologia e pesquisa plástica do artista norte-americano, Fernando de Azevedo destacaria: «Jackson Pollock falava no estar “dentro” da pintura, no sentir-se “dentro” dela. Era simultaneamente o acto de a fazer e de se fazer. […] Vulto maior da action-painting, ruptura americana de Nova Iorque com a herança europeia e através dela feita, no decurso dos anos 40, Pollock […] concorre para um novo estado da pintura contemporânea, em que a oscilação entre signo e gesto, pela via abstracta e expressionista, serão as denominantes e os elementos de modificação e de aprofundamento. […] Pollock irá estabelecer entre o automatismo surrealista e a abstração, uma relação mais de continuidade do que, como a princípio se julgou, de inconciliável rompimento.» (Colóquio/Artes, n.º 42, set. 1979, p. 64)
No texto apresentado no catálogo, Bernice Rose, conservadora do Departamento de Desenhos do MoMA e comissária da exposição, salientou o facto de a arte de Pollock, apesar estimulada por correntes artísticas europeias, nunca ter perdido o seu sentido de originalidade ou a capacidade de surpreender: «[…] o mais importante é que a obra de Pollock, e a sua realização, abriu à arte novas possibilidades para todos; foi largamente responsável pelo aparecimento da confiança que se tornou a base do súbito fortalecimento da arte americana no quarto de século que se seguiu à Segunda Guerra Mundial.» (Jackson Pollock, 1979, p. 23)
Joana Brito, 2015