Luís Cristino da Silva. Arquitecto

Exposição individual retrospetiva e evocativa do arquiteto português Cristino da Silva (1896-1976), referência incontornável da arquitetura portuguesa do século XX. A exposição foi comissariada por José Manuel Fernandes e teve como objetivo a exibição de desenhos pertencentes ao espólio deste artista.
Solo retrospective and commemorative exhibition on Portuguese architect Cristino da Silva (1896-1976), a pre-eminent figure of twentieth-century Portuguese architecture. The show, curated by José Manuel Fernandes, featured drawings from the artist’s archive.

Por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), através do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP), a exposição evocativa do arquiteto português Cristino da Silva (1896-1976) teve lugar na Sede da FCG. A mostra foi programada pelos então diretores do CAMJAP, Jorge Molder e Rui Sanches, e comissariada pelo professor e arquiteto José Manuel Fernandes.

A escolha do curador ficou a dever-se a Jorge Molder, que tomou a decisão tendo em conta «o saber mostrado e trabalho feito» de José Manuel Fernandes e a «paixão que tem pela obra deste Mestre-Arquitecto, que em tempos conheceu e entrevistou» (Luís Cristino da Silva. Arquitecto, 1998, p. 9).

Visando corresponder a uma muito aguardada apresentação pública da obra de Cristino da Silva, referência incontornável na história da arquitetura portuguesa do século XX, a exposição inscreveu-se na tradição da FCG de apresentar mostras de arquitetos portugueses significativos do século XX (tomemos como exemplos as exposições de Raul Lino, em 1970, de Carlos Ramos, em 1986, e de Viana de Lima, em 1996).

A iniciativa seria apoiada por Franca Cristino da Silva, viúva do arquiteto, que acompanhou de perto todo o desenvolvimento da carreira do marido. Franca chegou a conhecer o projeto da exposição, mas veio a falecer antes da sua concretização. Na introdução do catálogo, Molder e Sanches recordam a mulher do arquiteto como uma «grande acompanhante e zeladora da obra [de Cristino da Silva], a quem esta exposição era, de algum modo, devida» (Ibid.).

Nas palavras de José Manuel Fernandes, curador da exposição, a obra do arquiteto, «vista em conjunto e com o distanciamento do tempo, exprime intensamente, apaixonadamente até, contínuo confronto, a frequente contradição, entre a prática da modernidade e a resistência da tradição» (Ibid., p. 37).

A intenção da exposição na FCG era a de divulgar o espólio do arquiteto Luís Cristino da Silva, entregue à Fundação Calouste Gulbenkian nos finais da década de 1970 e até posteriormente conservado no Centro de Documentação e Pesquisa do Centro de Arte Moderna, para consulta de investigadores. Esta exposição permitia a apresentação pública deste corpus documental e promovia o estudo e a divulgação dos seus projetos arquitetónicos. A título informativo, refira-se que a Biblioteca de Arte da FCG guarda atualmente os espólios de vários arquitetos portugueses que constituem nomes de referência na evolução da arquitetura portuguesa. Recentemente iniciou-se o processo de digitalização desses espólios no sentido de os tornar acessíveis aos estudiosos e ao público em geral. O arquivo de Cristino da Silva cedido à FCG encontra-se disponível para consulta no website da Biblioteca. A coleção reúne cerca de 10 mil desenhos e plantas, memórias descritivas relativas a 114 projetos, fotografias, correspondência e outros documentos resultantes da atividade profissional do arquiteto.

O projeto expositivo em análise apresentou o espólio do arquiteto, acrescido de outros documentos, obras, painéis e maquetes, cedidas por vários acervos nacionais: Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, Museu da Cidade (Câmara de Lisboa), Assembleia da República, entre outras instituições e bancos de Portugal. Colaborou com a Fundação a empresa NORIGEM – Estudos e Projectos de Arquitectura, que foi responsável pela execução de todas as maquetes apresentadas na exposição.

A mostra iniciou também uma colaboração com o INESC (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores) em que, pela primeira vez, foram utilizadas tecnologias multimédia para realçar aspetos da obra de Cristino da Silva. Como refere Molder: «Constitui esta intervenção um campo experimental e inovador, pensando-se conseguir através dele alcançar uma associação harmoniosa da arte com a tecnologia.» (Carta de Jorge Molder para Tito Fernandes, 2 jul. 1997, Arquivos Gulbenkian, ID: 145854) A parceria entre a FCG e o INESC foi patrocinada pela Portugal Telecom.

Esta ação utilizou técnicas de síntese de imagem por computador, animação e ambientes virtuais, com vista a proporcionar aos visitantes da exposição um contacto interativo com os trabalhos realizados, desaparecidos, ou apenas projetados, do arquiteto Cristino da Silva. Assim, os projetos multimédia integrados na exposição foram um vídeo não interativo, que consistiu na produção de um vídeo biográfico da obra do arquiteto, utilizando composição de imagens reais e de síntese; um catálogo da exposição em CD-ROM, complementar ao catálogo impresso; o projeto «Ambientes visuais», que consistiu no desenvolvimento de uma aplicação baseada em ambientes virtuais, permitindo imersão total no ambiente simulado, através de visão estereoscópica; e, por fim, um projeto que consistiu na campanha de divulgação da exposição na Internet. Para isso, foi disponibilizada uma homepage no site da FCG e do INESC, com ligações hipertextuais a algumas das entidades patrocinadoras. Os quatro projetos multimédia foram integrados no percurso expositivo, nas respetivas secções.

No âmbito da exposição, foi também realizado um documentário sobre a vida e obra de Luís Cristino da Silva, com depoimentos dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Gonçalo Ribeiro Telles. O vídeo é da autoria de Manuel Kasprzykowskie e Teresa Maia e Carmo, e esteve disponível para visualização na galeria da exposição.

A exposição estruturava-se conforme a metodologia proposta por José-Augusto França no seu estudo A Arte em Portugal no Século XX, publicado em 1974. Nesse sentido, adotou um percurso distribuído por três núcleos: o relativo à formação académica do futuro arquiteto, «O Estudante em Lisboa, Paris e Roma», correspondente aos anos de 1910-1920; o do pioneiro da arquitetura modernista em Portugal, «O Modernista», dos anos 1930; e o do arquiteto do regime, «O Tradicionalista», referente aos anos de 1940-1950. Aos três períodos assinalados por J.-A. França, o curador adicionou um quarto núcleo, consagrado à atividade do arquiteto nos anos de 1960-1970, «Vislumbres Modernos».

Assim, o primeiro núcleo expositivo inaugurava com os trabalhos realizados por Cristino da Silva enquanto estudante. Segundo Molder, «trabalhos que prenunciam um talento gráfico e plástico e um sentido do espaço: desde os estudos na Escola de Belas-Artes até aos grandiosos desenhos coloridos que desenvolveu como pensionista do legado Valmor em Paris e Roma» (Carta de Jorge Molder para Gonçalo Ribeiro Telles, 3 set. 1997, Arquivos Gulbenkian, ID: 145855).

Em seguida, o percurso foi preenchido com os primeiros projetos em Lisboa, correspondendo à obra dos anos de 1930. Esses trabalhos «patenteiam uma inventiva de sentido modernista ou modernizante, também caracterizada por uma capacidade de dominar as grandes escalas, numa criatividade promissora» – quer no plano urbano (perspetivas para o novo arranjo do Parque Eduardo VII), quer no arquitetónico (Capitólio, Liceu de Beja), quer no desenho de interiores (lojas do Diário de Notícias, Café Portugal) (Ibid.).

A terceira secção da exposição incidia na obra das décadas de 1940 e 1950, materializadas em modelos estruturalistas, de gramática oficial e historicista. Nestes anos, a conjuntura nacionalista revia na arquitetura um poderoso meio de expressão, e em Cristino da Silva um dedicado executante: desde a Praça do Areeiro em Lisboa (atual Praça Francisco Sá Carneiro), aos equipamentos (Caixa Geral de Depósitos de Leiria, Guarda e Castelo Branco), e arranjos monumentais (Exposição do Mundo Português, Assembleia Nacional).

Por fim, o espectador encontrava na fase final da exposição uma secção dedicada aos anos de 1960 e 1970, período em que Cristino da Silva explorou novas frentes de modernidade, sobretudo com o vasto plano de urbanização para Nova Oeiras, onde se reencontra um sentido considerado pelo curador como «monumentalizante», cénico e de escala arrojada. Nas palavras de Rui Afonso Santos, este último período ficara marcado pela «involução do modernismo arquitectural» no quadro de um Estado Novo consolidado (Santos, Arte Ibérica, 1998, p. 22).

A exposição inaugurou com Serviço de Sala de Honra. Foram também organizadas várias visitas guiadas e um «Encontro com o curador», orientado por José Manuel Fernandes. Ambas as atividades alcançaram um registo bastante elevado de participantes.

O extenso catálogo da exposição, editado pelo Centro de Arte Moderna da FCG, reúne uma vasta documentação, estudos e depoimentos relativos a Cristino da Silva. Inclui uma introdução assinada por Jorge Molder e Rui Sanches, sete textos sobre o arquiteto e a sua obra, bibliografia e lista de documentos selecionados. Os vários textos são assinados por Carlos Antero Ferreira, Gonçalo Ribeiro Telles, João Vieira Caldas, José Manuel Fernandes, Margarida Souza Lôbo e Nuno Teotónio Pereira.

A exposição foi bastante visitada, totalizando 15 542 visitantes. Todavia, a crítica especializada apontou algumas falhas e insuficiências na sua conceção e montagem.

No texto que assina para a revista Arte Ibérica, Rui Afonso Santos sublinha que as expectativas da exposição «foram goradas», pois «tudo parece feito em cima do joelho». O autor acrescenta: «Nesta exposição, que pouco ou nenhuma novidade traz, o drama fundamental é que a montagem se sobrepõe constantemente às próprias obras apresentadas, desvalorizando-as, prejudicando o seu entendimento e, assim, contrariando uma das regras fundamentais da museografia que uma mostra desta natureza pressupõe» (Santos, Arte Ibérica, 1998, pp. 23-25). O crítico refere ainda que «as tabelas identificadoras das obras não só apresentam erros ortográficos […] como não estão uniformizadas», mencionando também a «péssima» qualidade dos acabamentos: molduras lascadas, painéis irregulares, alcatifa manchada, entre outros apontamentos (Ibid.).

Finda a exposição em Lisboa, o CAMJAP foi contactado pela Universidade do Minho – Campus de Azurém, em Guimarães, que solicitou a colaboração da FCG na montagem da exposição de Cristino da Silva naquela cidade. A mostra estaria patente no período de 25 de novembro a 6 de dezembro de 1998, e esteve integrada no III Encontro Internacional de Municípios com Centro Histórico.

Joana Brito, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

Encontro com o Comissário. José Manuel Fernandes

7 mar 1998
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Galeria de Exposições Temporárias (piso 0)
Lisboa, Portugal
Programa cultural

III Encontro Internacional de Municípios do Centro Histórico

25 nov 1998 – 6 dez 1998
Campus de Azurém. Universidade do Minho (UM)
Guimarães, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Multimédia


Documentação


Periódicos


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00394

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém documentos referentes a cedências e seguros das obras apresentadas, orçamentos da exposição e textos de catálogo. 1997 – 1999

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00395

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém documentos de cedências e seguros das obras, orçamentos da exposição, textos de catálogo, correspondência referente à itinerância para Guimarães e recortes de imprensa. 1997 – 1999

Biblioteca de Arte Gulbenkian, Lisboa / CFT171

404 diapositivos, cor (Biblioteca de Arte FCG, Lisboa) 1998


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