Orquestra Gulbenkian lança nova gravação dedicada a Luís de Freitas Branco
A mais recente gravação da Orquestra Gulbenkian, sob a direção do maestro Pedro Neves, é inteiramente dedicada ao compositor português Luís de Freitas Branco, uma figura central na introdução do modernismo em Portugal nas primeiras décadas do século XX. O álbum, gravado ao vivo durante um concerto no Grande Auditório, já se encontra disponível nas principais plataformas de streaming.
Esta gravação celebra o génio de Freitas Branco, reunindo algumas das suas obras mais emblemáticas e reveladoras do seu contributo singular para a música portuguesa e europeia. O programa do concerto inclui Paraísos Artificiais, uma obra magistral e vanguardista inspirada no livro Les paradis artificiels, de Charles Baudelaire; e Vathek, poema sinfónico em forma de variações sobre um tema oriental, uma das suas obras mais arrojadas.
Sobre o compositor
Figura cimeira da primeira metade do século XX, Luís de Freitas Branco (1890-1955) deixou-nos um legado musical de grande riqueza e ecletismo. A sua produção é uma referência da introdução do modernismo em Portugal, tendo o compositor revelado estar em sintonia com as diversas tendências estéticas da época, bem como as mais recentes aproximações e linguagens musicais, identificando-se inicialmente com as correntes ultrarromântica, impressionista e expressionista e, numa segunda fase, com a influência neoclássica. Nascido no seio de uma família aristocrática, desde cedo viu valorizada a sua formação intelectual e cultural, tanto no domínio da música como no da literatura, com destaque para a influência do seu tio João de Freitas Branco (1855-1910).
Estudou inicialmente com Augusto Machado, Tomás Borba e Luigi Mancinelli, e com o organista belga Desiré Pâque. Em 1910 viajou para Berlim para ter aulas com Humperdinck, seguindo em 1911 para Paris onde contactou com Debussy e estudou com Gabriel Grovlez. Este último escreveu na revista Musica (Junho, 1913): “Les Mirages de Luís de Freites-Branco [sic] séduiront tous les artistes par leur modernisme exacerbé”. Antes das suas estadias em Berlim e Paris, já escrevera obras tão relevantes como a 1.ª Sonata para Violino e Piano, os poemas sinfónicos Antero de Quental e Guerra Junqueiro, e a trilogia de cunho simbolista La Mort. Em 1913, a estreia em Lisboa do poema sinfónico Paraísos Artificiais (obra terminada em Berlim no ano de 1910) foi tudo menos consensual na sua apreciação crítica. O subjacente tema do ópio, assim como a estética modernista assumida, proporcionaram uma reação pública negativa. A inspiração para a obra partira da leitura de Les paradis artificiels (1860), livro de Baudelaire onde o autor traduz para francês excertos do livro de Thomas Quincey, Confessions of an Opium Eater, que Freitas Branco terá lido quando estudou em Paris. No mesmo ano, iniciou a composição de Vathek: Poema Sinfónico em Forma de Variações sobre um Tema Oriental, uma das sua obras mais arrojadas. A partitura foi sujeita a profundas revisões na fase final da carreira do compositor e só viria a ser integralmente estreada postumamente, já em 1961, pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional. Estas duas criações trouxeram definitivamente os sinais da vanguarda à música portuguesa. Luís de Freitas Branco passou largas temporadas na sua herdade em Reguengos de Monsaraz e considerava o Alentejo como “a sua terra de eleição”. Assim, a cultura e o folclore daquela região estão também musicalmente presentes na sua obra. Em 1919 e 1927, escreveu as duas Suites Alentejanas, nas quais utiliza temas do folclore alentejano. O Fandango é o terceiro e último andamento da Suite n.º 1. É, provavelmente, o trecho mais conhecido de Luís de Freitas Branco, sendo frequentemente interpretado como peça isolada.