Yuja Wang e Andreas Ottensamer

Ciclo Grandes Intérpretes

Event Slider

A colaboração musical entre a pianista chinesa Yuja Wang e o clarinetista austríaco Andreas Ottensamer ficou plasmada no álbum Blue Hour, gravado para a Deutsche Grammophon. Para o efeito, Ottensamer escreveu arranjos de várias peças para piano de Mendelssohn e de Brahms, parte do reportório que o duo vem apresentando nas mais pretigiadas salas mundiais. A propósito da sua apresentação no Festival de Edimburgo, em 2019, o jornal The Scotsman descreveu a atuação como assente numa “parceria musical instintiva, expressiva e inebriante”.


Programa

Yuja Wang Piano
Andreas Ottensamer Clarinete

Johannes Brahms
Sonata para Clarinete e Piano n.º 1, em Fá menor op. 120 n.º 1
Allegro appassionato
Andante un poco adagio
Allegretto grazioso
Vivace

Composição: 1894
Estreia: Viena, 11 de janeiro de 1895
Duração: c. 20 min.

Em 1890, terminada a composição do Quinteto para Cordas n.º 2, op. 111, Johannes Brahms decidia encerrar a sua carreira como compositor. No entanto, em janeiro de 1891, a assistência a uma atuação de Richard Mühfeld, clarinetista principal da então célebre Orquestra da Corte de Meiningen, levava-o a retomar a sua atividade, atraído pela sonoridade do instrumento e pela sensibilidade do estilo interpretativo de Mühfeld. Um dos produtos desse novo interesse foi a Sonata para Clarinete e Piano n.º 1, em Fá menor, op. 120 n.º 1, composta no verão de 1894 e dedicada ao clarinetista. A peça foi apresentada pela primeira vez em setembro de 1891, numa audição privada para o Duque de Saxe-Meiningen e sua família, tendo-se seguido algumas revisões até à estreia pública, em Viena, a 11 de janeiro de 1895.

O primeiro andamento, Allegro appassionato, abre com uma ideia tranquila introduzida pelo piano. O primeiro tema é enunciado pelo clarinete, que depois embeleza, com as suas figurações harpejadas, a intervenção do piano. É apresentado um segundo tema, sereno, que na linha do baixo evoca o perfil do tema inicial. O desenvolvimento elabora o material antes ouvido, colocando em evidência a relação motívica entre os dois temas e passando por momentos surpreendentes em termos harmónicos. Após uma reexposição sintética, encerra com uma coda reflexiva.

Segue-se um Andante un poco adagio, em Lá bemol maior, que se inicia com uma melodia simples e pungente no clarinete, sobre um acompanhamento igualmente despojado. A atmosfera sonhadora e resignada é perturbada por uma secção central algo mais agitada, antes do regresso da secção inicial, agora também mais movimentada.

O terceiro andamento, Allegretto grazioso, novamente em Lá bemol maior, oferece um contraste interessante, concebido como um rústico e delicado Ländler. O Trio central, em Fá menor, introduz um ambiente mais sombrio, explorando em particular o registo grave do clarinete.

Por fim, o quarto andamento, Vivace, em Fá maior, é um alegre e afável rondó. O tema principal, simultaneamente assertivo e ligeiro, alterna com dois episódios contrastantes, um baseado numa nova ideia em tercinas e o outro no modo menor, mais tranquilo. Após uma coda, a sonata encerra numa atmosfera exuberante.

Luís M. Santos

 

Johannes Brahms
Intermezzo em Lá maior, op. 118 n.º 2
(arr. de Nicolai Popov)

Composição: 1893
Duração: c. 7 min.

Retomada a atividade criativa, nos últimos anos de vida Brahms dedicar-se-ia ainda a uma série de curtas peças para piano (opp. 116-119). Este interesse pela peça de caráter nada tinha de novo, mas nesta fase surgia associado a uma exploração mais intensa de atmosferas introspetivas, aliada a elementos característicos do seu estilo composicional. As seis Klavierstücke (Peças para Piano), op. 118, foram compostas no verão de 1893, com dedicatória a Clara Schumann, e a segunda peça desta coleção é um Intermezzo em Lá maior, construído numa forma ternária. Na primeira secção é apresentada uma melodia lírica, cujo motivo inicial ressurge com frequência. Após uma secção central mais melancólica em Fá sustenido menor, que recorre a técnicas contrapontísticas, a peça encerra com a recapitulação quase literal da secção inicial.

Luís M. Santos

 

Felix Mendelssohn-Bartholdy
– Canção sem Palavras, op. 67 n.º 2
– Canção sem Palavras, op. 102 n.º 1
– Canção sem Palavras, op. 30 n.º 6
(arr. de Andreas Ottensamer)

Composição: 1829-1845
Duração: c. 10 min.

Felix Mendelssohn-Bartholdy foi um dos mais notáveis talentos precoces da música do século XIX. Beneficiado por condições sociais e culturais privilegiadas, desenvolveu um estilo composicional que conciliava as suas raízes no século XVIII (Händel e Bach, Haydn e Mozart) com a absorção da nova estética musical romântica emergente. De facto, tanto Felix como a sua irmã Fanny tiveram ensejo de receber a sua formação inicial no quadro de uma família abastada, que possuía contactos influentes no seio dos círculos culturais de Hamburgo e Berlim, constituindo-se como um meio propício ao desenvolvimento dos interesses culturais e artísticos, e especificamente musicais, dos dois irmãos. Enquanto compositor, Felix Mendelssohn demonstrou desde muito cedo um notável domínio técnico dos recursos estabelecidos no seu tempo.

Nas primeiras décadas do século XIX, numa intensificação de um processo que vinha do século anterior, o piano tornava-se cada vez mais um instrumento indispensável nos lares das classes médias, dada a sua centralidade nas práticas musicais domésticas. Esse processo era acompanhado por um fenómeno paralelo de florescimento do mercado editorial da música dirigida a esse âmbito, e foi nesse quadro que, na primeira metade do século XIX, floresceu o novo género da peça de caráter, que não deixava de estar sintonizado também com o novo interesse romântico pela criação de curtas peças instrumentais, de cariz essencialmente lírico.

Neste contexto destacaram-se as Canções sem Palavras de Mendelssohn, um dos conceitos a que o compositor mais se dedicou ao longo da sua carreira, tendo publicado oito volumes entre 1829 e 1845, constituídos sistematicamente por seis peças cada e que, no seu conjunto, são como uma espécie de diário musical. No seu tempo, a noção de “canção sem palavras” era algo paradoxal, mas o que o compositor procurava realizar nessas peças era justamente o que é indicado pela sua designação: expressar sentimentos recorrendo a meios musicais simples, sem o auxílio da conotação verbal. Na verdade, uma parte destas peças ostenta títulos descritivos, mas a maioria terá sido acrescentada a posteriori por sucessivos editores. Tal como sucedia com as peças de caráter em geral, as canções sem palavras de Mendelssohn exploravam diferentes graus de dificuldade técnica, o que as colocava ao alcance de um público alargado. Foi esta uma das razões para a grande popularidade que obtiveram. Para isso também contribuiu o apelo exercido pela sua escrita melódica e pela sua sensibilidade harmónica que, apesar de tudo, não são exploradas com tanta liberdade criativa como no caso de Chopin.

Recentemente, o clarinetista Andreas Ottensamer arranjou para clarinete e piano uma seleção destas peças, no que constituiu um valioso contributo para o repertório do instrumento. Nestes arranjos, a linha melódica é em geral atribuída ao clarinete, sendo também pontualmente partilhada com a mão direita do pianista. Os acompanhamentos são caracterizados pela exploração de texturas variadas.

Luís M. Santos

 

Joseph Horovitz
Sonatina para clarinete
Lento, quasi andante

Composição: 1981
Estreia: Londres, 12 de maio de 1981
Duração: c. 5 min.

O compositor e diretor de orquestra britânico Joseph Horovitz (1926-) nasceu em Viena, no seio de uma família judaica que se estabeleceu em Inglaterra em 1938 no contexto da ascensão do nazismo no espaço germânico. Os seus estudos musicais foram realizados na universidade de Oxford e no Royal College of Music, em Londres, instituição onde estudou composição com Gordon Jacob, tendo posteriormente tido o ensejo de aprofundar a sua formação em Paris, sob a orientação de Nadia Boulanger. Em 1950 encetou a sua carreira de diretor de orquestra, sobretudo no âmbito do teatro musical e do bailado, e em 1961 tornou-se docente de composição no Royal College of Music.

Compositor prolífico numa grande variedade de géneros, Horovitz revelou ao longo da sua carreira uma versatilidade notável, demonstrando competências em particular no campo da escrita instrumental, bem como uma especial afinidade para os instrumentos de sopro. O catálogo da sua obra inclui 16 bailados, 3 óperas, 9 concertos para diversos instrumentos, 5 quartetos de cordas e um conjunto alargado de peças orquestrais e de música religiosa.

O interesse de Horovitz pelo clarinete emergiu da amizade com o músico Gervase de Peyer, que conheceu ainda na fase dos estudos realizados no Royal College, em 1948, e com quem manteve contacto enquanto estudavam juntos em Paris. Foi para esse instrumentista, respondendo a uma solicitação sua, que, entre janeiro e abril de 1981, escreveu a Sonatina para clarinete e piano. A estreia pública teve lugar pouco depois, a 12 de maio de 1981, em Londres, no Wigmore Hall, e nos dias de hoje a obra tem o seu lugar firmemente estabelecido no repertório do clarinete.

A sua conceção segue uma construção tradicional em três andamentos contrastantes. O primeiro andamento, Allegro calmato, um momento lírico e tranquilo concebido em forma sonata, explora em especial o registo médio do clarinete, sobre o acompanhamento ondulante do piano. Já o terceiro andamento, Con brio, é uma espécie de rondó, pleno de bom humor e ideias imprevisíveis, que requer um certo grau de virtuosismo a ambos os executantes, incidindo em particular no registo agudo do instrumento de sopro.

Entre estes dois extremos encontra-se um segundo andamento, Lento, quasi andante, que no seu espírito de lirismo e resignação remete de alguma forma para o andamento lento do Quinteto com Clarinete, K. 581, de Mozart. Concebido numa forma ternária, este andamento apresenta uma longa, expressiva e fluente cantilena do clarinete, que emprega alguns dos seus sons mais graves, sobre um lento acompanhamento de acordes murmurados pelo piano, que exploram um percurso harmónico surpreendente. Aqui, como em toda a obra, está em causa um idioma harmónico claramente tonal, e em muitas passagens, assim como em grande parte das composições mais recentes de Horovitz, estão também em evidência as influências que o compositor absorveu do jazz e de outra música popular, o que é possível observar em determinados elementos melódicos, rítmicos e harmónicos.

Luís M. Santos


A Fundação Calouste Gulbenkian reserva-se o direito de recolher e conservar registos de imagens, sons e voz para a difusão e preservação da memória da sua atividade cultural e artística. Caso pretenda obter algum esclarecimento, poderá contactar-nos através de [email protected].


Mecenas Principal Gulbenkian Música