West Side Story

Orquestra Gulbenkian / Giancarlo Guerrero / Joseph Alessi

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Foi no mítico clube de jazz Birdland que o trombonista Joseph Alessi escutou o pianista Makoto Ozone – na mesma noite em que se apresentara como solista com a New York Philharmonic – interpretar uma composição de Chick Corea intitulada Brasilia. Alessi ficou de tal forma siderado pela beleza do tema que quis perguntar a Corea se aceitaria escrever-lhe um concerto para trombone. O convite rapidamente se transformou em entusiasmo comum e numa soberba criação. Uma das obras finais de Chick Corea, que Alessi e a Orquestra Gulbenkian apresentam em homenagem a um dos mais marcantes músicos de jazz das últimas décadas.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Giancarlo Guerrero Maestro
Joseph Alessi Trombone

Samuel Barber
Adagio para cordas

Composição: 1936
Duração: c. 9 min.

O Adagio, para cordas, de Samuel Barber (1910-1981) faz parte de um lote restrito de obras do universo musical clássico com maior difusão e impacto. Contudo, a génese desta obra não previa a fama posterior. Começou por ser o segundo andamento do Quarteto para Cordas op. 11, composto por Barber em 1936, durante a sua estadia nas montanhas austríacas, enquanto passava férias. Aqui reside a explicação para o aparente imobilismo, repetição nervosa de um só motivo, num crescendo explosivo que dá lugar a bonança, pelo facto de suceder a um primeiro andamento acentuadamente rítmico e muito variado em nuances melódicas. Este encadeamento perdeu-se, obviamente, com a adaptação do segundo andamento numa obra independente para orquestra, Adagio, escrita por Barber em 1936 e estreada em 1938, em Nova Iorque, pela NBC Symphony Orchestra, dirigida pelo maestro Arturo Toscanini.

José Bruto da Costa

Chick Corea
Concerto para Trombone: “A Stroll” *
A Stroll” Opening
A Stroll
Waltse for Joe
Hysteria
Joe’s Tango

Composição: 2020 (Orquestração de John Dickson)
Duração: c. 24 min.
Primeira audição em Portugal. Encomenda conjunta da Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo, com a Fundação Calouste Gulbenkian, a New York Philharmonic e a Helsinki Philharmonic Orchestra

Nascido em 1941 na cidade norte-americana de Chelsea, no estado de Massachusetts, Armando Anthony "Chick" Corea (1941-2021) foi um dos compositores e pianistas mais influentes no universo do jazz, em particular no jazz contemporâneo e de fusão. Tornou-se uma referência, sobretudo durante a década de 1970, quando passou a integrar os grupos do trompetista Miles Davis e com quem viria a trabalhar num dos mais famosos álbuns de jazz de sempre, Bitches Brew. Ao longo da sua carreira, Chick Corea somou diversas atuações em Portugal.

A história deste Concerto para Trombone começa no célebre clube de jazz nova-iorquino Birdland. Depois de escutar o pianista Makoto Ozone a interpretar uma composição de Chick Corea, intitulada Brasilia, o trombonista Joseph Alessi, também conhecido por Joe Alessi, não hesitou em contactar o compositor para perguntar se este aceitaria escrever-lhe um concerto para trombone. Esse pedido foi aceite e acabaria por resultar numa encomenda conjunta da Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo, com a Fundação Calouste Gulbenkian, a New York Philharmonic e a Helsinki Philharmonic Orchestra.

A introdução “A Stroll” Opening (Um Passeio - Abertura) marca o início desta obra, como que um prólogo em que toda a orquestra começa por assumir o lugar de público perante uma improvisação do solista, seguindo-se um diálogo com harpa, piano e percussão. A Stroll começa verdadeiramente a seguir e traz consigo outro ambiente. Segundo Corea, não se trata de um passeio qualquer sem direção ou rumo. Para o compositor, os diversos timbres, sons e cores revelam a imagem de um passeio por Nova Iorque, provavelmente inspirado pelo período da sua vida em que viveu nesta cidade. O capítulo que se segue é intitulado Waltse for Joe (Valsa para Joe) e nele o compositor explora o lado mais lírico do trombone, e que o próprio solista Joseph Alessi descreve como uma reminiscência da música de Erik Satie. O andamento Hysteria (Histeria) foi escrito já no início da pandemia da Covid-19 e, de acordo com Chick Corea, o título do andamento foi escolhido propositalmente para ilustrar o caos que se vivia em todo o mundo naquela altura. Joe's Tango (Tango de Joe) é um andamento pontuado ritmicamente por influências latinas e onde o compositor intensifica o diálogo entre o solista e a orquestra até ao final. Segundo Alessi, a primeira versão deste último andamento terminava de uma forma pacífica e tranquila. Depois de conversar com Corea, o final foi alterado assumindo caraterísticas de tom quase heroico.          

A estreia absoluta teve lugar na cidade brasileira de São Paulo em agosto de 2021, infelizmente já sem a presença do compositor que havia falecido em fevereiro do mesmo ano. Segundo o comunicado oficial da família, Chick Corea sucumbiu a um raro tipo de cancro que lhe teria sido diagnosticado muito recentemente. Nos últimos dias da sua vida, aquele que ficará para sempre como um dos nomes maiores do jazz, agradeceu aos músicos e amigos que o acompanharam ao longo da vida e que o ajudaram a “levar a alegria da criação a todos os lugares possíveis". Entre estes amigos estará certamente o trombonista Joseph Alessi a quem esta obra é dedicada.

— Intervalo de 20 min —

Leonard Bernstein
Danças Sinfónicas de West Side Story
Prologue
Somewhere
Scherzo
Mambo
Cha-Cha
Meeting Scene
“Cool”, Fugue
Rumble
Finale

Composição: 1960
Duração: c. 23 min.

Com inspiração na obra Romeu e Julieta de Shakespeare, o musical West Side Story conta-nos uma história de amor e de rivalidade entre dois gangues, que decorre em meados da década de 1950 em Upper West Side, um bairro de Manhattan (Nova Iorque). Produzido originalmente para a Broadway, em 1957, com enorme sucesso, foi preciso esperar pela primeira adaptação ao cinema, em 1961, para que West Side Story alcançasse êxito à escala mundial. O filme acabaria por arrebatar 10 dos 11 óscares para o qual havia sido nomeado e o álbum da banda sonora esteve durante um ano no topo de vendas nos EUA.

Tal como na ópera, a qualidade de uma narrativa contada de forma musical depende naturalmente da sua música. É neste capítulo que entra um compositor nascido em 1918 nos EUA e que viria a ser um dos nomes maiores da história da música, Leornard Bernstein (1918-1990). Compositor, maestro, pianista e pedagogo, o percurso de “Lenny”, como era tratado entre amigos, é absolutamente notável nos mais variados registos, deixando um legado que perdura na história. Foi igualmente um homem de causas e muitíssimo interventivo na sociedade, o que o levou a ser figura próxima de alguns presidentes americanos, em especial do presidente Kennedy com quem manteve uma ligação de grande cumplicidade. Não é por isso de estranhar que o nome de Leornard Bernstein figure entre as personalidades mais influentes do século XX. Enquanto compositor, Bernstein já havia deixado marcas no âmbito do teatro musical, com a composição de On the Town, Wonderful Town e da opereta ao estilo de musical, Candide.

Em West Side Story, Bernstein aliou a sua sensibilidade rítmica latina e jazzística à sua imaginação lírica, criando uma partitura norte-americana verdadeiramente urbana e onde a linguagem do blues entra como pano de fundo para as cenas de comédia.

Se esta é a sua obra mais interpretada e a mais reconhecida pelo grande público, em parte deve-se a estas Danças Sinfónicas que surgem em 1960 e resultam de uma tentativa bem-sucedida do compositor em adaptar e compilar numa suite orquestral os principais temas do musical, que são na sua maioria originalmente cantados, permitindo assim que a música de West Side Story ecoe frequentemente nas salas de concerto de todo o mundo.

A atualidade desta obra é tanto maior quanto uma América que ainda hoje se confronta com a capacidade de integrar os contrastes de uma população de tantas origens geográficas e culturais. Não será por mero acaso que o realizador Steven Spielberg tenha decidido fazer uma segunda adaptação ao cinema que chegou até nós em 2021, desta vez com a particularidade de a música de Bernstein ter sido ser gravada pelo maestro Gustavo Dudamel.

George Gershwin
Um Americano em Paris

Composição: 1928
Duração: c. 18 min.

Os loucos anos 20 serviram de inspiração a esta peça orquestral composta por um americano em Paris. Esse americano foi precisamente George Gershwin (1898-1937), que depois de uma estadia na capital francesa decidiu retratar a energia e o ambiente vividos naquela que é também conhecida como a cidade-luz.

A longevidade e o sucesso desta obra teriam sido uma surpresa para os críticos, que na época descartaram as obras de Gershwin como meras fantasias passageiras. Oriundo de uma família modesta, o compositor, nascido em Brooklyn (Nova Iorque), teve de lutar para se afirmar no meio artístico americano. O sucesso da obra Rhapsody in Blue e logo de seguida do Concerto para Piano em Fá, foram decisivas para essa afirmação. Mas se nos EUA tardava em alcançar o reconhecimento que lhe era devido, na Europa era admirado por grandes compositores como Arnold Schönberg, Sergei Rachmaninov e Maurice Ravel, tendo este último recusado dar aulas a Gershwin quando este lhe pediu, afirmando que nada tinha a ensinar-lhe.

Em Um Americano em Paris, Gershwin evita o desenvolvimento formal em favor de uma estrutura episódica que lhe confira a liberdade de escrita suficiente para ilustrar as aventuras de um turista que vivencia as glórias da capital francesa e sucumbe a ataques de saudade ao longo do caminho. Como o próprio compositor descreveu: “o propósito é apresentar as impressões de um americano de visita a Paris, enquanto passeia pela cidade, presta atenção aos ruídos das ruas e se impregna do ambiente parisiense”. A orquestração é extremamente rica, não só pela integração de saxofones numa orquestra por si só já muito completa, mas também devido a elementos sonoros pouco frequentes, como por exemplo a utilização de buzinas, habitualmente substituídas pelos trompetes, que fazem alusão aos táxis parisienses.

Muito mais do que um mero diário de viagem, escrito numa época que ficaria conhecida nos EUA como a Era do Jazz, esta obra de uma vitalidade radiante e de uma energia inebriante é um excelente exemplo da integração da linguagem do jazz e do blues na música erudita, algo que Gershwin soube trabalhar e desenvolver de forma única.

George Gershwin viria a falecer em 1937 com apenas 38 anos de idade, dois anos depois daquela que seria a sua obra derradeira e para muitos a mais célebre, a ópera Porgy and Bess. Para a história fica um conjunto de obras orquestrais singulares e um sem número de canções, compostas sobretudo para musicais da Broadway, que viriam a ser interpretadas e gravadas pelas maiores vozes do século XX e até aos dias de hoje.

Notas de Élio Anes Leal

 


Guia de Audição


  • Por Sérgio Azevedo

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