Sinfonia n.º 4 de Bruckner

Orquestra Gulbenkian / Andris Poga

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O compositor e organista austríaco Anton Bruckner tinha 57 anos quando, em 1881, a Filarmónica de Viena estreou a sua Sinfonia n.º 4, escrita sete anos antes. Seria esse momento que ditaria a profunda alteração do seu estatuto até então. Apesar de contar já com uma obra considerável, Bruckner permanecia um compositor quase desconhecido no seu próprio país, e seria a “Romântica” – assim batizou esta sinfonia – a corrigir essa injustiça. Conhecido pelo seu perfecionismo, iria rever partes significativas desta peça até 1888. Neste concerto, a direção da obra estará a cargo do maestro letão Andris Poga, cuja “técnica espantosa” mereceu o entusiástico aplauso do Le Figaro.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Andris Poga Maestro

Anton Bruckner (1824 – 1896)
Sinfonia n.º 4, em Mi bemol maior, Romântica (versão 1878/80)
1. Bewegt, nicht zu schnell (Agitado, mas moderado)
2. Andante, quasi allegretto
3. Scherzo: Bewegt (Agitado)
4. Finale: Bewegt, doch nicht zu schnell (Agitado, mas moderado)

Composição: 1874, 1878/80
Estreia: Viena, 20 de fevereiro de 1881
Duração: c. 65 min.

Responsável pelo culminar de uma longa tradição de sinfonismo austro-germânico, inerente ao próprio conceito de romantismo musical, Anton Bruckner soube conjugar a inovação e a tradição, no cômputo de uma produção musical que homenageia os legados lapidares de Beethoven e Schubert, mas em simultâneo apontar para o inexorável processo de transformação estética e estilística de finais do século XIX. Bruckner não apenas alargou extraordinariamente os horizontes da escrita sinfónica, como também soube renovar, de modo imaginativo, o idioma polifónico de géneros sacros ancestrais, como a missa e o motete.

Bruckner começou a trabalhar na Sinfonia n.º 4 no final de 1873, altura em que a sua experiência orquestral era já considerável. Tinha já composto cinco sinfonias, incluindo duas sem número de opus, em Fá menor e Ré menor. Como a maior parte das restantes sinfonias, a Sinfonia n.º 4 conheceu um processo de composição tortuoso, com numerosas revisões e alterações. A versão original da partitura foi escrita de janeiro a novembro de 1874, ano marcado por diversos insucessos profissionais que tornaram a vida do compositor particularmente difícil. Insatisfeito com os quatro andamentos que acabara de concluir, Bruckner procedeu, em 1878, a uma revisão global da obra. Os dois primeiros andamentos e o Finale sofreram modificações no seu conteúdo musical, enquanto que o terceiro andamento, Scherzo, foi reformulado na totalidade. Bruckner conferiu igual tratamento ao Finale, no curso de nova revisão da partitura, em 1880. É o resultado destas duas revisões que, habitualmente, serve de base à interpretação da Sinfonia n.º 4, sendo os três primeiros andamentos provenientes da revisão de 1878 e o Finale da de 1880. Outras alterações de pormenor à orquestração foram sugeridas pelos maestros Felix Mottl e Anton Seidl em 1887 e 1888.

A estreia da obra ocorreu em Viena, a 20 de fevereiro de 1881, sob a direção de Hans Richter, tendo trazido ao compositor o seu maior triunfo até à data. Foi o próprio que a apelidou de “Romântica”, como que a demonstrar o avanço inequívoco e irreversível sobre as conceções conservadoras que obstavam à composição de uma grande sinfonia em pleno período romântico tardio.

O primeiro andamento testemunha a maturidade de um músico que demonstra agora ser capaz de gerar uma complexa teia de material temático, integrando-a numa arquitetura de larga escala que tem na sua base a tradicional forma-sonata. O segundo andamento, na tonalidade de Dó menor, evoca um sentimento de paz e tranquilidade, apenas interrompido pela imponente coda final, na tonalidade paralela maior. O Scherzo seguinte, em Si bemol maior, constitui um dos andamentos sinfónicos mais brilhantes de Bruckner: o seu alegre tema “de caça”, derivado de material temático e rítmico contido no primeiro andamento, é partilhado pelas trompas e trompetes, num crescendo de tensão. O derradeiro Finale, na tonalidade principal, recupera algumas das referências melódicas surgidas nos andamentos anteriores, com o fim de as integrar numa textura de cunho dramático, conseguindo, desta forma, conciliar os efeitos de surpresa com uma subtil, mas obstinada, estratégia de unificação musical da obra.

Rui Cabral Lopes


GUIA DE AUDIÇÃO

Por Jorge Rodrigues

No Guia de Audição desta semana, Jorge Rodrigues fala-nos da obra que o compositor austríaco Anton Bruckner apelidou de “Sinfonia Romântica”.


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