Sete Lágrimas / Coro Gulbenkian

A Última Nau

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O relato da primeira viagem de circum-navegação ao planeta, comandada por Fernão de Magalhães, contada pelo cavalheiro Antonio Pigafetta, erudito e explorador italiano que embarcou na nau Victoria e que sobreviveu a contar. A viagem de Fernão de Magalhães é, também, uma viagem de sons… os sons que os marinheiros ouviram, os sons que imaginaram… os sons com que sonharam… todos os “terra à vista” que os podiam salvar… ou os sons dos oceanos infinitos de esperança, vitória ou desilusão… Tanto do oceano como de terra vêm ventos que são essenciais – alguns afáveis, outros terríveis… “A Última Nau” traz-nos os sons – destas costas, destas terras, destes mares – carregados pelos ventos – reais ou metafóricos – de todo o planeta.


Programa

Sete Lágrimas

Filipe Faria e Sérgio Peixoto Direção Artística

Filipe Faria Voz
Sérgio Peixoto Voz
Pedro Castro Flautas e Oboé barroco
Denys Stetsenko Violino barroco
Tiago Matias Vihuela, Alaúde, Guitarra barroca e Tiorba
Sofia Diniz Viola da gamba
Mário Franco Contrabaixo
Rui Silva Percussão histórica

Coro Gulbenkian
Jorge Matta
Direção

Ariana Russo
Mónica Santos
Rosa Caldeira
Sara Afonso
Susana Duarte

Catarina Saraiva
Marta Queirós
Michelle Rollin
Patrícia Mendes

Francisco Cortes
João Pedro Afonso
Jorge Leiria
Manuel Gamito

Filipe Leal
Mário Almeida
Nuno Gonçalo Fonseca
Tiago Batista
Tiago Navarro

 

A Última Nau

Giovanni Girolamo Kapsberger
Tocatta arpegiatta

Tradicional (Itália / Lombardia)
San Giuseppe e la Madonna

Cancioneiro de Montecassino
Adoramus te

Filipe Faria/Sérgio Peixoto
Parto triste saludoso (vilancico anónimo, séc. XVI)

Romance Sefarad (Norte de África)
Mosé salió de Misraim

Anónimo (Séc. XVII)
Olá zente que aqui samo (vilancico “negro” de Santa Cruz de Coimbra)

Joaquim António da Silva Calado
Flor amorosa

Anónimo (Brasil)
É tarde, ela dorme

Tradicional (Argentina)
Zamba

Filipe Faria/Sérgio Peixoto
Pues que veros (vilancico anónimo, séc. XV/XVI)

Tradicional (Macau)
Bastiana

Tradicional (Goa)
O Divan de Mogará

Eugénio Tavares
A força de cretcheu

Filipe Faria / Sérgio Peixoto
Triste vida vivyre
(contrafactum
sobre texto de vilancico anónimo, séc. XV/XVI e C. Goudimel “La terre au signeur appartient”)

Filipe Faria / Sérgio Peixoto
El pesebre (Lope de Vega)

No Princípio eram as Especiarias

A história universal está intimamente ligada à história dos Descobrimentos. Em todas as épocas, homens das mais diversas origens partiram rumo a regiões desconhecidas. Alguns foram mal recebidos, outros encontraram novas rotas para as suas mercadorias, e outros ainda quiseram difundir a sua religião e expandir o seu poder. Ou buscar em terras longínquas matérias-primas cobiçadas e preciosidades exóticas. Os encontros mais ou menos voluntários proporcionados por estas excursões, entre povos e culturas que não se conheciam, tiveram consequências importantes, pois estas novas experiências influenciaram e transformaram ambas as partes: descobridores e descobertos – e não apenas as suas ementas e os seus hábitos sociais, mas também expressões culturais e rituais como a dança, a música, a literatura, o teatro e as artes visuais.

Estes fenómenos de miscigenação cultural, que duram há milénios, bem com as inspirações recíprocas e a integrações fecundas que deles resultaram, foram sempre vistos como uma prova da força unificadora e enriquecedora de técnicas culturais porosas, e uma forma de acelerar a modernização através de influências estrangeiras. Rótulos como “cadinho de culturas” passam por selos de qualidade aplicados a ambientes e universos culturais particularmente variados.

Contudo, na esteira do discurso pós-colonial que domina, hoje, grande parte do debate público, surgem também vozes críticas, que vêm estes intercâmbios culturais não como uma forma feliz e desinteressada de miscigenação, mas como uma “apropriação cultural” (cultural appropriation). Esta crítica às culturas consideradas dominantes, que se apropriam dos feitos culturais das minorias, centra-se na violência que subjaz, indiscutivelmente, a todas as formas de conquista territorial, e que ainda hoje se fazem sentir.

Com efeito, as forças que motivam as descobertas são muitas vezes ambíguas – e o mesmo vale para a aventura em que se lançou o português Fernão de Magalhães a 10 de agosto de 1519, ao serviço da Armada espanhola. Pois não foi apenas o empenho heroico de Magalhães em refutar, através da primeira circum-navegação do globo, o dogma da cosmovisão ptolemaica que conduziu a sua frota ao longo de um percurso tão arriscado. A demonstração de que a Terra é uma esfera foi apenas um efeito secundário da viagem de Magalhães, que obedeceu, na verdade, a um propósito económico bem definido: encontrar o caminho marítimo que ligava o ocidente às ilhas das especiarias da atual Indonésia e quebrar, assim, o monopólio otomano sobre o comércio de especiarias. No início da Idade Moderna, a pimenta, a noz moscada e o cravo-da-índia valiam tanto como o ouro.

O escritor Stefan Zweig soube explorar esta ligação no seu romance biográfico Magalhães (1938): “Por detrás dos heróis da época dos descobrimentos estavam os comerciantes, que eram a sua força motriz; este primeiro impulso heroico para a conquista do globo partiu, também ele, de forças essencialmente terrenas – no princípio eram as especiarias.” E mesmo quando o romance de Zweig recorre abertamente a lugares-comuns hoje considerados racistas, o autor descreve sem quaisquer rodeios a dinâmica que preside a toda a colonização: “As primeiros naus portuguesas a descer o Tejo rumo a paragens distantes e desconhecidas estavam ao serviço das descobertas; as segundas ainda procuraram entabular um comércio pacífico com os territórios recém-explorados; mas a terceira frota já parte aparelhada para a guerra – assim se afirma, irrevogavelmente, (...) o ritmo tripartido que irá dominar toda a era colonial então iniciada.”

O livro de Zweig sobre Magalhães baseia-se nas notas do escritor Antonio Pigafetta, que acompanhou a expedição e documentou a circum-navegação do globo ao longo de mais de três anos – uma viagem a que o próprio Magalhães, de resto, não sobreviveu, tendo morrido em 1521 durante um confronto com aborígenes nas Filipinas. O célebre relato de Pigafetta – cujo tom é muito mais sóbrio e imparcial que o do romance de Zweig – é o pano de fundo criado pelo grupo português de música antiga Sete Lágrimas por ocasião do 500.º aniversário de Magalhães.

Este programa segue o relato de Pigafetta e o seu itinerário aventuroso – começando em Sevilha, passando pela Argentina e pelo Brasil e terminando na Índia e nas ilhas Molucas. Em peças vocais e instrumentais, o grupo explora diferentes fórmulas interpretativas da música popular e clássica do século XVI ao século XX. O repertório estende-se do vilancico ibérico ao chorinho brasileiro, à morna cabo-verdiana e, por fim, às canções tradicionais de Timor, Macau, Índia e Brasil.

“A Última Nau” faz parte de um projeto mais vasto intitulado “Diáspora”, a que os Sete Lágrimas se dedicam desde 2007 e que incide sobre música de todos os países que, desde o século XV, tiveram contacto com Portugal. «O projeto centra-se nas memórias destes encontros – musicais, linguísticas, estilísticas – que sobreviveram na música destes países e em Portugal», diz o diretor do grupo, o tenor Filipe Faria. “Centra-se nos fenómenos de contaminação mútua, tanto através da exportação de modelos, formas e conteúdos como através do seu regresso. É um empreendimento gigantesco, que oscila entre o desafio de uma liberdade artística vibrante e o respeito pelas fontes históricas.”. Faria fundou o grupo em 1999, com Sérgio Peixoto, e ambos têm explorado desde então novos caminhos e diálogos entre diferentes épocas, entre música contemporânea e música clássica com vários séculos de tradição.

O grupo reúne com frequência músicos com as mais diversas origens e arrisca sempre uma abordagem refrescantemente desrespeitosa ao material musical original. “Quando nos encontrámos pela primeira vez, há 22 anos, no Coro Gulbenkian, em Lisboa, descobrimos logo uma série de afinidades estilística e estéticas”, recorda Faria. “Os timbres das nossas vozes eram semelhantes, bem como os nossos gostos musicais e a predileção pela música antiga europeia. Por isso, no grupo que fundámos, começámos por trabalhar o repertório do Renascimento. Mas desde cedo quisemos estabelecer também uma ligação original e direta a compositores contemporâneos, através de peças escritas especificamente para nós e para os nossos instrumentos.»

Faria vê uma ligação clara e íntima com a “esperança”. “A viagem e os seus encontros culturais são tanto a chave para a esperança como o seu resultado. A música de todos os países e culturas que, através de navegadores portugueses como Magalhães, estabeleceram um qualquer contacto com a Europa, mostra isso mesmo: os primeiros contactos, o medo, mas também a saudade e a curiosidade. Ao mesmo tempo feliz e triste. Não há dúvida de que a alma portuguesa foi influenciada por estes encontros, pela esperança de melhores dias e do regresso à pátria, pelos sons, cheiros e sabores de outras terras – e pela experiência única do ‘Estou a ver isto pela primeira vez’.”

Regine Müller - Magazine Elbphilharmonie Hamburg 2021


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