Noites de Verão

Orquestra Gulbenkian / Dinis Sousa / Julie Boulianne

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Aos 32 anos, Dinis Sousa acaba de ser nomeado Maestro Principal da Royal Northern Sinfonia, orquestra de câmara sedeada em Newcastle, Inglaterra. Trabalhou anteriormente como Maestro Assistente do Monteverdi Choir & Orchestras, formação com que se apresentou nos prestigiados BBC Proms, dirigindo a sinfonia coral Roméo et Juliette, de Berlioz. É a esse autor fundamental do romantismo que o fundador da Orquestra XXI agora regressa, num programa em que o ciclo de canções Les nuits d’été terá por companhia obras de outros expoentes máximos do movimento romântico.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Dinis Sousa Maestro
Julie Boulianne Meio-Soprano

Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809 – 1847)
Sonho de uma noite de verão, op. 21

Composição: 1826
Duração: c. 12 min

A inspiração para Sonho de uma noite de verão surgiu após leitura da obra homónima de Shakespeare, traduzida para o alemão por W. Schlegel. Felix Mendelssohn compôs inicialmente uma versão para piano, que apresentou em âmbito doméstico, com a sua irmã. A abertura, para orquestra, foi composta em 1826 e estreada no ano seguinte, a 20 de fevereiro, em Szczecin, na atual Polónia, território anteriormente afeto à Prússia. O compositor, então com 18 anos, deslocou-se à cidade prussiana onde, para além da estreia da sua obra, participou ainda como intérprete de obras suas e de outros compositores, como pianista e como violinista, sob direção do maestro C. Loewe. Em 1843, o compositor escreveria, com o mesmo título, a música de cena, por encomenda do rei Friedrich Wilhelm IV da Prússia, na qual integraria a Abertura op. 21.

Mendelssohn introduz-nos à Abertura, Allegro di molto, com quatro acordes iniciais que têm tanto de intrigantes como de mágicos e que marcam as ideias musicais ao longo da obra. Uma vez captada a atenção do ouvinte, e mergulhando no universo onde a ação terá lugar, seguem-se temas distintos que revelam as diferentes personagens que surgem na peça teatral. O primeiro tema representa a delicadeza das fadas dançantes, com motivos rápidos nas cordas. Segue-se um tema de caráter melódico, representando os amantes, depois de uma transição que relembra uma fanfarra, aqui numa alusão à música da corte de Atenas. O compositor apresenta depois uma secção mais bucólica. Fazendo uso da forma sonata, Mendelssohn conduz-nos por um desenvolvimento temático revelador da sua mestria, seguindo-se a reexposição dos temas iniciais.

 

Hector Berlioz (1803 – 1869)
Les nuits d’été, op. 7
1. Villanelle
2. Le spectre de la rose
3. Sur les lagunes
4. Absence
5. Au cimetière
6. L’île inconnue

Composição: 1840-41 / 1856 (orq.)
Duração: c. 32 min.

Hector Berlioz compôs, em 1841, um conjunto de seis canções para canto (meio-soprano ou tenor) e piano, a partir de poemas de Théophile Gautier (1811-1872), procedendo depois a vários arranjos para outras tipologias vocais, com diversas alterações, até à sua forma final para orquestra, publicada em 1856. Ainda que a obra não tenha sido pensada como um ciclo de canções, Berlioz idealizou uma certa unidade que resulta da temática em torno do amor, da escolha poética e de motivos musicais recorrentes, conferindo uma ligação entre as seis canções de Les nuits d’été. Neste período, a sua vida sofreria várias alterações, com o desmoronar do casamento com a atriz irlandesa Harriet Smithson, e a paixão vivida com a cantora Marie Recio, com quem casaria, em segundas núpcias, em 1854. O compositor estreou, em 1843, a canção n.º 4, Absence, na versão para orquestra e voz, dedicando-a à sua amada. À orquestração isolada desta canção, seguir-se-ia, em 1856, a orquestração da canção Le Spectre de la rose, que suscitou particular interesse de um editor que se encontrava na plateia e que propôs a publicação das seis canções.

As canções encadeiam-se numa narrativa sentimental que nos conduz por vários estados de espírito. Villanelle, a primeira canção, celebra o amor e a primavera (“Le printemps est venu, ma belle, / C'est le mois des amants béni”), dando destaque inicial ao desenho repetido em stacatto nas madeiras, que acompanham a linha melódica da voz, juntando-se depois as cordas. Apesar da aparente celebração e leveza, Berlioz adensa o cenário com uma tensão harmónica. Le spectre de la rose, um Adagio un poco lento e dolce assai, introduz-nos num universo sonoro mais melancólico, num poema sobre o fantasma de uma rosa que uma jovem donzela usou no seu primeiro baile, e que morreu no seu peito. A rosa ascendeu ao paraíso (Ce léger parfum est mon âme, / Et j'arrive du paradis.) e reclama a sua sorte que deverá ser invejada até por reis. A música transporta-nos, desde o início, por um ambiente romântico que parece fluir no doce lirismo da linha vocal, apoiado pelo movimento arpejado e ondulante do acompanhamento. Sur les lagunes, a terceira canção – a única em modo menor – inicia-se com um motivo solene de três notas que parece remeter para o balançar de um barco, entrando de seguida a voz que anuncia “Ma belle amie est morte”. O sofrimento perante a morte percorre o cenário que culmina num clímax de grande intensidade dramática. Segue-se Absence (Adagio) que, abordando a temática da ausência, apela ao regresso de um amor perdido e distante (“Reviens, reviens, ma bien-aimée!”) perante um coração fechado e em sofrimento (“La fleur de ma vie est fermée”). As suspensões e os efeitos de crescendo e decrescendo orquestral e vocal permitem criar momentos arrebatadores, seja pela intensidade, seja pela delicadeza expressiva e emocional. A quinta canção, Au cimetière, aborda novamente a temática dolorosa da morte, da distância, na qual uma pomba pálida, sobre um teixo, canta uma ária melancólica (“Sur l’if une pâle colombe, / Triste et seule, au soleil couchant, / Chante son chant”). A riqueza das imagens poéticas encontra eco no modo como Berlioz apresenta a ligação entre voz e orquestra. A obra termina com L'île inconnue, que retoma a esperança inicial num tom de celebração que transmite, nos primeiros momentos, a ideia de uma ilha desconhecida onde o amor permanece, “où l'on aime toujours!”. Berlioz liberta-se aqui da atmosfera densa de algumas canções anteriores para repousar nesse “desconhecido” mundo de amor.

 

Robert Schumann (1810 – 1856)
Abertura, Scherzo e Finale, op. 52
1. Overture: Andante con moto
2. Scherzo: Vivo
3. Finale: Allegro molto vivace

Composição: 1841 (rev. 1845)
Duração: c. 18 min.

A oba Abertura, Scherzo e Finale, op. 52, de Robert Schumann, foi composta em 1841, num período em que o compositor se interessou em particular pelo género sinfónico, depois de se ter dedicado intensamente à música para piano. O ímpeto sinfónico ficou registado na sua correspondência, na qual refere que a sua Sinfonia n.º 1, completada em 1841, foi recebida com “mais entusiasmo do que qualquer outra sinfonia moderna desde Beethoven” (carta de 9 de maio de 1841). O plano para um novo trabalho sinfónico surgiu rapidamente, com diversas designações como Sinfonietta ou Suite, tendo escolhido o título Abertura, Scherzo e Finale, de forma a enfatizar as características sinfónicas de cada uma das secções. Num artigo publicado anteriormente, Schumann havia já registado o que considerava uma certa descaracterização da identidade dessas secções nas sinfonias recentes que ouvira. A estreia teve lugar em Leipzig, com direção de Ferdinand David, mas com uma fraca receção por parte do público e da crítica. O Finale da obra em programa seria revisto posteriormente, para um concerto que teve lugar em Dresden, em 1845.

A Abertura inicia-se com motivos melódicos contrastantes nas cordas, com posterior apontamento, em torno do mesmo motivo, no oboé e noutros instrumentos. Segue-se um Allegro, com um tema enérgico, que se vai adensando até ao clímax. Em vários momentos, a orquestração indica-nos uma forte influência beethoveniana no modo como são conduzidos o material temático e os contrastes entre os instrumentos. O Scherzo inicia-se com um tema marcado e empolgante, que revela um forte caráter, contrastando com a secção mais melódica do trio, recorrendo abundantemente à pergunta/resposta entre os instrumentos. O Finale apresenta um início fugado e com grande espírito, seguido de um tom majestoso e conduzindo depois para o final, com uma orquestração que culmina com uma secção quase “coral”.

Notas de Pedro Russo Moreira


GUIA DE AUDIÇÃO

Por Jorge Rodrigues

No Guia de Audição desta semana, Jorge Rodrigues apresenta-nos um programa inteiramente dedicado aos grandes compositores do romantismo.


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