Joyce DiDonato

My Favorite Things

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O regresso da meio-soprano Joyce DiDonato à Gulbenkian Música, de novo na companhia da orquestra Il Pomo d’Oro, agrupamento dedicado prioritariamente à interpretação de peças barrocas e clássicas em instrumentos de época. Sendo consensual que Joyce DiDonato é uma das intérpretes de topo da música barroca, este é o seu mais recente projeto em que dá a voz a árias de Monteverdi, Cesti, Händel, Hasse e Purcell. O título My Favorite Things denuncia as escolhas pessoais da cantora e, segundo o Financial Times, “a beleza e a amplitude do seu canto estão seguramente no seu impressionante auge”.


Programa

Il Pomo d’Oro
Joyce DiDonato Meio-Soprano
Maxim Emelyanychev Cravo / Órgão / Direção

Salomone Rossi (1570 – 1630)
Sinfonia grave a 5

Contemporâneo de Claudio Monteverdi, Salomone Rossi (1570-1630) foi um dos primeiros compositores a aplicar os princípios da canção monódica à música instrumental. Violinista e compositor judeu, fez a transição entre o Renascimento e o Barroco inicial e as suas obras situam-se entre a canzona instrumental e a trio-sonata. A sinfonia, habitualmente curta e de forma binária, com fortes cadências tónicas para ser realizada a três ou a cinco partes, seria um dos seus géneros favoritos, explorando-o em dois volumes: Il primo e Il secondo libro delle sinfonie e gagliarde a 3-5 voci (1607 e 1608).

 

Claudio Monteverdi (1567 – 1643)
“Illustratevi, o cieli” de Il Ritorno d’Ulisse in patria

Com o regresso do seu esposo termina o sofrimento de Penélope, que exprime a sua felicidade na mais gloriosa ária de uma das mais brilhantes óperas de Claudio Monteverdi (1567-1643), estreada em Veneza em 1640, com uma melodia de uma alegria contagiante. A simbiose entre texto e música ilustra o mundo visual do regresso da personagem à vida e ao amor. Através de sugestivas ornamentações sobre as palavras “illustratevi”, “gioite” ou “onde sussurante”, são exploradas as capacidades vocais da cantora sobre exuberantes e vigorosos ritornelli nas cordas.

 

Pietro Antonio Cesti (1623 – 1669)
“Intorno all’idol mio” de Orontea

Nesta cena pungente, a rainha egípcia Orontea cede à paixão e confessa o seu amor por Alidoro, num paradigmático conflito entre o amor e o dever. Pietro Antonio Cesti (1623-1669), a figura mais importante na exportação do estilo operático veneziano, adota o bel canto na linha vocal da personagem principal, com melodias suaves e diatónicas, ritmos simples em ternário. Orontea, com libreto de Cicognini, foi estreada em Innsbruck em 1656 e tornou-se numa das mais populares óperas do século XVII.

 

Claudio Monteverdi (1567 – 1643)
Sinfonia de L’incoronazione di Poppea

Com libreto de Giovanni Francesco Busenello (1598-1659), um dos autores mais dotados que colaborou com Monteverdi, L’incoronazione di Poppea foi apresentada pela primeira vez em Veneza em 1643 na temporada de Carnaval. Tragédia e comédia, inocência e decadência são justapostas e mudam rapidamente de uma cena para a outra. As complexas personagens não são boas nem más, ou são ambas. Não existe manuscrito original da ópera, apenas duas versões algo diferentes, datadas dos anos 50 do século XVII, onde os instrumentos não estão definidos. A ópera tem início com o Prólogo onde a Virtude, a Fortuna e o Amor discutem quem tem maior poder sobre a humanidade, antecedido por uma breve sinfonia instrumental.

 

Claudio Monteverdi (1567 – 1643)
“Addio Roma, addio patria” de L’incoronazione di Poppea

Ottavia, esposa que Nero enviou para o exílio de modo a poder casar com a sua amante Poppea, prepara-se para deixar Roma para sempre. As frases curtas, cheias de dissonâncias, num estilo recitativo flexível que oscila entre a rápida declamação e o arioso, mostram uma mulher outrora zangada, agora vulnerável e resignada. Durante toda a ópera, Monteverdi caracteriza musicalmente a natureza das personagens: o papel de Ottavia oscila entre tessituras extremas, mais agudas na expressão da raiva, médias e graves na dor. “Addio Roma, addio patria” é um lamento ao estilo veneziano.

 

Georg Friedrich Händel (1685 – 1759)
Overture de Ariodante

Ariodante foi estreada em 1735 no Covent Garden, em Londres, com variados recursos como um coro residente ou a companhia de bailado de Marie Sallé. Relançada na década de 70 do século XX, chega a ser considerada uma das melhores óperas de Georg Friedrich Händel (1685-1759). O libreto é de autor anónimo, baseado em Ginerva de Antonio Salvi, por sua vez inspirada em Orlando furioso de Ariosto. É a única ópera do compositor cujo enredo tem lugar no Reino Unido. A abertura ao estilo francês segue uma estrutura de Largo-Allegro-Gavotte, numa sequência de andamento lento em ritmos pontuados, fugato rápido e uma dança em compasso quaternário.

 

Johann Adoph Hasse (1699 – 1783)
“Morte, col fiero aspetto” de Antonio e Cleopatra

Protagonizada pelo célebre e aclamado Farinelli (Cleopatra), e por Vittoria Tesi (Antonio), apelidada pela crítica de “grandíssima nulità”, esta serenata, ou pequena ópera em dois atos, foi estreada em 1725 em Nápoles, onde Johann Adolph Hasse (1699-1783) fez uma boa parte da sua carreira. Ao personagem Antonio cabem as melhores árias cantabile, com elegantes fraseados ao estilo galante característico do compositor alemão. O papel de Cleopatra, pensado para as enormes capacidades vocais de Farinelli, tem uma escrita virtuosística, espelhada na aria di bravura “Morte, col fiero aspetto”.

 

Georg Friedrich Händel (1685 – 1759)
“Piangerò la sorte mia” de Giulio Cesare in Egitto

Cleopatra chora por Júlio César e pela situação em que ela própria se encontra, em frases cantabile. A empolada coloratura da secção intermédia diz-nos que a protagonista não se dá ainda como derrotada, jurando vingança contra o seu irmão Ptolomeu.
Giulio Cesare in Egitto é uma ópera de tema histórico (embora ficcionado) estreada em Londres em 1724 no período áureo da colaboração de Händel com a Royal Academy of Music, e foi imediatamente aclamada pelo público. Foi ainda reposta por três temporadas, seguindo depois para Hamburgo onde permaneceu em cena até 1737, representando um grande sucesso para a época.

 

Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764)
Sarabande – Air en rondeau – Air très vif
(Suite de danças de Zoroastre)

Zoroastre foi a quarta tragédie lyrique que Jean-Philippe Rameau (1683-1764) compôs, suscitando grande curiosidade aquando da sua estreia em 1749. A principal atração da ópera reside numa engenhosa construção de cenas de conjunto onde se juntam árias, coros e números dançados perfeitamente integrados na ação dramática. Como era hábito na época, Rameau reutilizava peças próprias e por vezes de outrem. A Sarabande provém do seu terceiro livro de peças para cravo de 1728, reescrita em versão orquestral.

 

John Dowland (1563 – 1626)
“Come again, sweet love doth now invite”

“Come again”, exemplo da melancolia cultivada no reinado de Isabel I, surge no First Book of Songes or Ayres (1597), para voz e alaúde, mas apresentado num formato que permite a sua realização como madrigal, por um quarteto ou pequeno grupo vocal. John Dowland (1563-1626) passou a infância em França, onde sofreu a influência da air de cour, estrófica e de texturas homofónicas como seria a ayre. Não recorre tanto à ilustração de palavras ou à retórica na sua obra, mas prefere criar uma atmosfera emocional para expressar e amplificar o significado do texto.

 

Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764)
Orage (Tempestade) de Les Indes galantes

A ópera-bailado de Rameau Les Indes galantes, com prólogo e quatro atos, escrita para entretenimento público, com elementos instrumentais, vocais e dança, foi estreada em Paris em 1735. Cerca de dez anos antes, uma delegação de Americanos Nativos do Luisiana apresentou-se perante Luís XV e interpretou uma dança que muito interessou a Rameau, inspirando-o para esta composição.

Les Indes galantes são uma sequência de histórias de amor passadas em diferentes locais considerados exóticos. No primeiro ato (entrée), passado na costa do Império Turco, uma tempestade abate-se sobre um navio e os seus tripulantes são feitos escravos, situação trágica que permite, no entanto, o reencontro do par amoroso.

 

Georg Friedrich Händel (1685 – 1759)
“Dopo notte” de Ariodante

Quase no final do ciclo de grandes sucessos de Händel em Londres surge Ariodante, que contém uma das mais exuberantes árias escritas pelo compositor, estreada em 1735 com o célebre castrato Giovanni Carestini no papel principal. Em “Dopo notte”, a personagem principal expressa uma felicidade extrema e uma renovada confiança, agora que os seus problemas terminaram e pode enfim reunir-se com a sua amada Ginerva.

Notas de Susana Duarte

Georg Friedrich Händel (1685 – 1759)
“Crude furie degl’orrid abissi” de Serse

Claudio Monteverdi (1567 – 1643)
Si dolce è il tormento


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