Concerto para Piano n.º 4 de Rachmaninov

Orquestra Gulbenkian / Lorenzo Viotti / Yuja Wang

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A pianista chinesa Yuja Wang é uma das mais cativantes e espetaculares pianistas que hoje temos o privilégio de ver nos grandes palcos mundiais. Uma imagem arrojada, um imbatível carisma em palco e execuções tão fulgurantes quanto tecnicamente irrepreensíveis, conferem a cada concerto a sensação de momento irrepetível. Desde o início da sua carreira, Yuja Wang tem manifestado a sua especial admiração pela música de Rachmaninov, compositor em destaque nesta sua atuação com a Orquestra Gulbenkian, sob a direção de Lorenzo Viotti.</p


Programa

Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Yuja Wang Piano

Sergei Rachmaninov (1873 1943)
Concerto para Piano e Orquestra n.º 4, em Sol menor, op. 40
Allegro Vivace
Largo
Allegro Vivace

Composição: 1926, rev. 1928, 1941
Estreia: Filadélfia, 18 de março de 1927
Duração: c. 26 min.

Depois de realizar os primeiros estudos musicais no Conservatório de São Petersburgo, Sergei Rachmaninov frequentou, no Conservatório de Moscovo, as disciplinas de piano e composição. Foi nesta instituição que concluiu o seu Concerto para Piano e Orquestra n.º 1, op. 1 (1891), e que evidenciou as suas excecionais qualidades de interpretação.

Em 1917, pouco antes da Revolução de Outubro, emigrou para Estocolmo, vindo a iniciar uma fulgurante carreira na Europa e depois nos Estados Unidos da América, país no qual se estabeleceu definitivamente. Ao longo deste “período ocidental”, Rachmaninov criou mais de três quartos da sua produção musical, mas tal ímpeto criativo ofuscou a recordação do seu país natal, a qual, aliada a uma atitude introspetiva e conservadora, veio a cimentar uma conduta criativa de cariz eminentemente pós-romântico, alicerçada no sistema tonal.

Nenhuma outra parcela da obra de Rachmaninov teve um papel tão relevante para a sua reputação internacional como os seus quatro concertos para piano, concebidos à imagem do pianista virtuoso que também foi. Escritas quase no final do séc. XIX e nas primeiras décadas do século XX, estas obras podem ser consideradas como derradeiras representantes da tradição do concerto para piano romântico.

Estreado pelo compositor em Filadélfia, a 18 de março de 1927, sob a direção do maestro Leopold Stokowski, o Concerto para Piano e Orquestra n.º 4, op. 40, foi recebido com uma certa frieza pelo público, o que motivou a revisão da partitura e a fixação de uma versão definitiva somente em 1941. Rachmaninov assimilou nesta obra, pela primeira vez, toda uma série de influências da música ocidental, desde o exotismo da escola francesa, passando pelos ecos da Segunda Escola de Viena, até às sonoridades irreverentes de compositores compatriotas que acabaram por centrar a sua atividade na Europa, como Igor Stravinsky. Também o Jazz parece ter deixado uma impressão profunda em Rachmaninov. Tal diversidade caleidoscópica de linguagens reflete-se na partitura do Concerto n.º 4 e a sensação geral que resulta da audição da obra é, de facto, a de um contínuo prolixo em ideias musicais, efeitos sonoros e contrastes rítmicos e harmónicos, sem que se pressinta a direccionalidade formal e temática comum aos concertos compostos anteriormente.

Tendo início com um rasgo orquestral ascendente, o primeiro andamento desvela a natureza idiossincrática da partitura, conjugando o esboço temático entrecortado do piano com comentários instrumentais mordazes, provenientes de todos os recantos do agregado orquestral. O segundo tema assume especial destaque, fazendo lembrar, de forma mais notória, o distinto lirismo de Rachmaninov.

No segundo andamento, o compositor começa por citar um excerto do conhecido cânone inglês Three blind mice, partindo depois para a exploração de diversos motivos derivados deste material de partida, através de uma sequência de patamares harmónicos de grande sofisticação.

O terceiro andamento estabelece um contraste acentuado com os andamentos anteriores, cultivando um dinamismo rítmico tributário de Prokofiev, que alterna com secções mais introspetivas, mas sempre agitadas por uma instabilidade latente que eclode, mais cedo ou mais tarde, em vagas de inusitado frenesim musical.

Rui Cabral Lopes

 

Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 1893)
Sinfonia n.º 4, em Fá menor, op. 36
Andante sostenuto – Moderato con anima
Andantino in modo di canzona
Scherzo: Pizzicato ostinato – Allegro
Finale: Allegro con fuoco

Composição: 1877
Estreia: Moscovo, 22 de fevereiro de 1878
Duração: c. 44 min.

Na segunda metade do ano de 1877, a composição da Sinfonia n.º 4, em Fá menor, op. 36, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, acompanhou uma fase especialmente difícil da vida do compositor, marcada pelo fracasso do seu casamento com Antonina Milyukova. Os desapontamentos e fragilidades da experiência conjugal foram então confidenciados nas cartas que Tchaikovsky dirigiu ao irmão Modest e à sua protetora e dedicatária da Sinfonia n.º 4, Nadezhda von Meck.

O primeiro andamento da sinfonia, em particular, testemunha o domínio da grande forma sinfónica como veículo para a confrontação dramática de agregados temáticos diferentes entre si, mas complementares. A situação pessoal do compositor aflora, de forma bem nítida, no inexorável “motivo do destino” que teima em persistir ao longo dos andamentos da obra, qual lembrança omnipresente do fatuum beethoveniano, a obstar à plena realização da felicidade humana. Tal elemento temático, apresentada desde o início do andamento pelas trompas e fagotes, com eco nos trompetes e madeiras, atua simultaneamente como expediente de unificação musical e como gérmen criador de muitos dos seus componentes melódicos, como, por exemplo, o primeiro tema da exposição, apresentado pelos violinos e violoncelos, Moderato con anima, sobre um ritmo reminiscente da valsa.

Apesar de refletirem diferentes predisposições e estados de alma, os dois andamentos seguintes, Andantino in modo di canzona e Scherzo, vêem-se impelidos por uma mesma atitude introspetiva, de que deu conta o compositor numa carta dirigida a Mme. von Meck. Segundo as suas palavras, o protagonista pressente e assimila a nostalgia que o rodeia, procurando depois combater as disposições adversas através da ingestão de vinho. Sobre ambos os andamentos pairam os ecos premonitórios do “tema do destino”.

O último andamento constitui um momento de viragem na obra, já que propõe o retorno do discurso a um tom mais sério, o que de resto é sublinhado, desde logo, pela introdução de uma versão aperfeiçoada da secção inicial do Scherzo. Contudo, a ambiguidade torna-se a nota dominante, à medida que a textura evolui para patamares longínquos e contrastantes, fugindo à previsível resolução das tensões e dos conflitos ardilosamente construídos no andamento inicial. Ante as características melodias populares russas empregues no Finale, Tchaikovsky parece ter querido regressar às raízes mais simples da sua Sinfonia n.º 2, Pequena Rússia, composta cinco anos antes, mas a ascendência do destino implacável acaba por transmitir uma impressão final de resignação, face à impossibilidade de realizar os sonhos e aspirações mais profundos.

Rui Cabral Lopes


GUIA DE AUDIÇÃO

 

Por Jorge Rodrigues

No Guia de Audição desta semana, Jorge Rodrigues fala-nos de duas obras afastadas por cerca de meio século de distância, mas ambas nascidas nas profundezas da sensibilidade russa.


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