Andreas Ottensamer e Orquestra Gulbenkian

Orquestra Gulbenkian / Lorenzo Viotti / Andreas Ottensamer

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Filho de Ernst Ottensamer, clarinetista principal da Orquestra Filarmónica de Viena, Andreas Ottensamer desempenha as mesmas funções na Filarmónica de Berlim desde 2011. Tendo passado pela Gustav Mahler Jugendorchester, há muito que se vem afirmando como um clarinetista virtuoso, o que o tem conduzido a parcerias musicais com Murray Perahia, Leif Ove Andsnes ou Yo-Yo Ma.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Andreas Ottensamer Clarinete

Gioachino Rossini (1792 1868)
Abertura da ópera Guilherme Tell

Composição: 1829
Estreia: Paris, 3 de agosto de 1829
Duração: c. 12 min.

A ópera Guilherme Tell é a última obra-mestra do catálogo dramático de Gioacchino Rossini, surgida num momento em que o músico, com apenas trinta e sete anos de idade, decidiu colocar um fim precoce e aparentemente incompreensível à sua bem-sucedida carreira dramática. A ópera, em quatro atos, foi composta sobre libreto de Étienne de Jouy e Hippolyte Bis, por sua vez inspirado no drama homónimo de Friedrich Schiller.

Ao contrário de outras famosas aberturas operáticas de Rossini, a Abertura de Guilherme Tell não emprega nenhum dos motivos melódicos da ópera, destacando-se como uma espécie de “poema sinfónico” autónomo que se singulariza pela plasticidade do discurso orquestral. Não obstante, a Abertura não deixa de anunciar a atmosfera bucólica que domina o primeiro ato, sugerindo, ao mesmo tempo, certos acontecimentos dramáticos bastante mais longínquos, como acontece, por exemplo, no Andantino final, em que os trompetes anunciam a chegada dos soldados suíços (cena final do terceiro ato).

Rui Cabral Lopes

 

Claude Debussy (1862 1918)
Première rhapsodie
para clarinete e orquestra

Composição: 1909-1910 / 1911 (orq.)
Estreia: Paris, 16 de janeiro de 1911
Duração: c. 9 min.

Se o selo musical de Debussy se pode reconhecer, de imediato, nesse tríptico de vastas dimensões que constitui La mer, não deixam de exercer semelhante fascínio as várias outras páginas, porventura menos conhecidas, da produção orquestral do compositor francês, entre as quais a Fantasia para Piano e Orquestra em Sol menor, as Duas Danças para Harpa e Orquestra de Cordas e a Rapsódia para Clarinete e Piano, ou Première rhapsodie, que foi orquestrada pelo próprio Debussy no final de 1911. O conhecimento aprofundado que Debussy detinha dos recursos idiomáticos de qualquer um dos solistas, fez com que também estas obras tivessem, no seu conjunto, desempenhado um papel assinalável na transformação do horizonte estético e estilístico da criação musical europeia no despontar do século XX.

A Première rhapsodie é uma das obras mais breves de Debussy, tendo sido concebida, na sua versão original para clarinete e piano, como material de exame para os testes de admissão no Conservatório de Paris, no ano de 1910. Juntamente com a Première rhapsodie, que constituía a peça de estudo propriamente dita, Debussy compôs, para a mesma formação, um exercício de leitura à primeira vista que foi publicado sob o título Petite pièce.

Das duas obras, a Rapsódia é, sem dúvida, a peça com maior interesse musical, tendo sido classificada por um dos amigos de Debussy, Robert Godet, como “a mais onírica das suas rapsódias”. Na versão orquestral que concluiu em 1911, Debussy intensificou a envolvência sonora do discurso solista, explorando zonas tímbricas que reforçam as fluentes e imaginativas linhas melódicas do clarinete. Acima de tudo, é Mozart que assoma à superfície desta “maneira” tão sublime de fazer música, através da qual Debussy procura exprimir mais a “poesia do instante” do que propriamente os meandros profundos do espírito humano.

Rui Cabral Lopes

 

Witold Lutosławski (1913 1994)
Prelúdios de Dança
para clarinete e orquestra
Allegro molto
Andantino
Allegro giocoso
Andante
Allegro molto

Composição: 1954 / 1955 (orq.)
Estreia: Varsóvia, 15 de fevereiro de 1955
Duração: c. 10 min.

Os cinco Prelúdios de Dança (Preludia taneczne), de Witold Lutosławski, são o fruto de uma época criativa efervescente que envolveu músicos, compositores, dramaturgos e até realizadores de cinema, nos anos que se seguiram ao termo da Segunda Guerra Mundial. A anexação da Polónia pelo regime soviético trouxe severas limitações à atividade dos artistas, mas Lutosławski soube manter os seus intentos criativos, correspondendo, por um lado, aos critérios impostos pelo poder e, por outro lado, às suas próprias expectativas em torno de uma linguagem não convencional e com forte cunho expressivo.

A versão original dos Prelúdios de Dança, concluída em 1954, foi destinada a clarinete e piano. O compositor viria a realizar duas versões orquestrais da partitura, a primeira em 1955 e a segunda quatro anos depois. A primeira versão manteve relativamente incólume a escrita solista, tendo ao mesmo tempo potenciado o manancial rítmico e harmónico da partitura. A estreia ocorreu no Festival de Aldeburgh, em 1963, com o clarinetista britânico Gervase de Peyer e a English Chamber Orchestra, sob a direção de Benjamin Britten.

Segundo o próprio Lutosławski, os cinco andamentos da obra, todos eles muito breves, baseiam-se em ritmos provindos das danças tradicionais polacas. No prelúdio de abertura, Allegro molto, o clarinete descreve um discurso vivo e inconformado, em staccato, sobre uma teia orquestral que faz alternar as métricas binária e ternária. O prelúdio que se segue, Andantino, mostra um recorte contemplativo, apenas quebrado na secção central, com o rufar marcial da percussão. No terceiro prelúdio, Allegro giocoso, o solista irrompe, de novo, para fazer soar, de modo distorcido, uma melodia de gosto popular, sobre uma agitada textura orquestral. No quarto prelúdio, Andante, Lutoslawsky regressa ao ambiente sereno do Andantino, por forma a intensificar a mensagem expressiva do clarinete, contida entre os limites de uma quinta perfeita. O prelúdio final, Allegro molto, acentua os recortes rítmicos da dança campesina, recorrendo aos bordões evocadores de instrumentos como as gaitas de foles. Desta forma se encerra uma das obras mais populares daquele que se tornou a principal figura musical na Polónia depois de Fryderyk Chopin.

Rui Cabral Lopes

 

Robert Schumann (1810 1856)
Sinfonia n.º 4, em Ré menor, op. 120
Andante con moto – Allegro di molto –
Romanza: Andante –
Scherzo: Presto –
Largo – Finale: Allegro vivace

Composição: 1841
Estreia: Leipzig, 6 de dezembro de 1841
Duração: c. 25 min.

No curso da carreira criativa de Robert Schumann, a Sinfonia n.º 4 em Ré menor, op. 120, foi, na realidade, a segunda sinfonia a ser composta, no mesmo ano de 1841 que viu nascer a Sinfonia n.º 1, em Si bemol maior, op. 38. Porém, o compositor realizaria uma revisão instrumental e estrutural da obra em 1851, já depois de ter completado a segunda e a terceira sinfonias. Por esta razão, é classificada em último lugar no catálogo sinfónico de Schumann.

Na sua primeira versão, a Sinfonia n.º 4 conheceu uma primeira execução pública a 6 de dezembro de 1841, em Leipzig. A obra detinha então o título de «Fantasia sinfónica», através do qual Schumann pretendia sublinhar a ancestralidade do género. A estreia da segunda versão teve lugar em Düsseldorf, no ano de 1853.

Segundo as indicações do compositor, os andamentos da Sinfonia n.º 4 sucedem-se sem interrupção, o que permite falar de um sentido de continuidade musical avant la lettre. No primeiro andamento, as cordas enunciam, em ritmo ternário, um tema quase inteiramente fundado na progressão melódica por graus conjuntos, sobre uma nota pedal. Este é um dos elementos decisivos para a unidade musical da obra, vindo a reaparecer tanto no segundo andamento, Romanza: Andante, como também no terceiro, Scherzo: Presto, onde desempenha uma verdadeira função estruturadora. O tema principal, de perfil esguio, anima toda a secção Allegro, a que subjaz uma forma sonata regular.

Oboés e violoncelos expõem, no início da Romanza, uma melodia de contornos delicados e de grande expressividade, que se vê, em breve, interrompida pelo tema lento da introdução. Na secção central assiste-se à transformação deste mesmo tema, conduzida pelo violino solo com figurações de tercinas e semicolcheias. A inversão do tema da introdução serve de base ao cânone do Scherzo, cujo trio conta com a mesma figuração melódica do violino solo surgida no andamento anterior. O tema principal do primeiro andamento domina a coda. Precedido de introdução lenta, à semelhança do primeiro andamento, o andamento final é o palco de uma curiosa manipulação da forma sonata tradicional: a recapitulação é aqui substituída por uma secção fulgurante, de composição nova, com a qual se encerra a Sinfonia.

Rui Cabral Lopes


GUIA DE AUDIÇÃO

 

Por Alexandre Delgado

O compositor e musicólogo Alexandre Delgado fala-nos das obras em programa nestes concertos.


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