Concerto de Ano Novo

Orquestra Gulbenkian / Clelia Cafiero / Asmik Grigorian

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Data

  • 20:00 / Cancelado 20:00 / Esgotado quinta, 20:00
  • 19:00 / Cancelado 19:00 / Esgotado sexta, 19:00

Local

Grande Auditório Fundação Calouste Gulbenkian

Orquestra Gulbenkian
Clelia Cafiero Maestrina
Asmik Grigorian Soprano

Gioachino Rossini (1792 – 1868)
Abertura da ópera O Barbeiro de Sevilha

Duração: c. 8 min.

Este concerto tem início com a abertura de O Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini, uma das óperas de maior sucesso do século XIX. Inspirada nas comédias de Beaumarchais, que também interessaram Wolfgang Amadeus Mozart, reflete o sentido de palco de Rossini e encarna uma comicidade própria. O Barbeiro de Sevilha foi estreada em Roma a 20 de fevereiro de 1816, colocando Rossini entre os nomes reconhecidos do panorama operático. A abertura orquestral tem início com uma secção lenta. Nela, a alternância de acordes verticais com escalas e pausas criam uma atmosfera misteriosa. A melodia cantabile dos violinos é apresentada sobre acompanhamento de cordas em pizzicatti. Uma nota prolongada do oboé marca o regresso à figuração inicial. Numa secção animada, Rossini apresenta dois temas contrastantes, o primeiro pontificado pelo dramatismo e pela leveza e o segundo pela atmosfera brincalhona. O ritmo narrativo intensifica-se através da repetição, que enfatiza o ambiente de tensão que conduz à reexposição dos temas e a uma coda movimentada.

 

 

Giacomo Puccini (1858 – 1924)
Madama Butterfly: “Un bel dì vedremo”

Duração: c. 5 min.

Giacomo Puccini é uma figura cimeira da ópera italiana do final do século XIX e do início do século XX. Misturando realismo com exotismo, as suas óperas encarnam uma forma muito pessoal de modernismo. Madama Butterfly é uma ópera cuja ação se situa no Japão. Baseada numa peça de teatro do americano David Belasco, narra um amor trágico entre uma gueixa japonesa e um oficial americano. Estreada no Scala de Milão a 17 de fevereiro de 1904, foi recebida friamente, mas as suas apresentações posteriores estabeleceram-na como uma ópera de grande sucesso. “Um bel dì, vedremo” é uma ária interpretada pela protagonista, Cio-Cio-san. Após o casamento com o Tenente Pinkerton, este retomou a vida marítima. Cio-Cio-san foi avisada para a possibilidade deste a ter abandonado, prática corrente naquele contexto. Nessa ária, a protagonista afasta essa dúvida num momento de intenso dramatismo. Uma longa melodia em legato caracteriza a passagem mais conhecida da ópera. O lirismo centrado na voz, esparsamente acompanhada pela orquestra, atravessa esse momento. A secção intermédia estática retrata a expectativa de Cio-Cio-san, recorrendo a um registo quase falado. A ária termina com o regresso da melodia inicial.

 

 

Giacomo Puccini (1858 – 1924)
Manon Lescaut: Intermezzo do 3.º ato

Duração: c. 6 min.

O Intermezzo do 3.º ato da ópera Manon Lescaut é um momento fulcral da obra de Puccini. Inspirada num romance do Abade Prévost e estreada em Turim a 1 de fevereiro de 1893, a ópera desenrola-se em torno de um triângulo amoroso que termina de forma trágica. O Intermezzo é apresentado entre o segundo e o terceiro atos, preenchendo uma elipse narrativa com música instrumental. O episódio retrata a viagem entre Paris e Le Havre, o porto em que Manon será deportada para a Louisiana. Assim, inicia-se com uma longa melodia exposta pelas cordas a solo, cuja tensão é enfatizada pelo cromatismo. Puccini incluiu elementos do dueto entre os amantes pertencente ao segundo ato da ópera, criando um eco instrumental do seu amor. Dessa forma, o Intermezzo funde a orquestração e o melodismo tardo-românticos numa passagem simultaneamente lírica e dramática.

 

Giacomo Puccini (1858 – 1924)
Manon Lescaut: “In quele trine morbide”

Duração: c. 3 min.

“In quele trine mobide” é uma ária interpretada por Manon na casa de Geronte, o seu amante de conveniência. A protagonista lamenta-se da sua condição, interpretando uma melodia construída em torno de uma nota principal. Na ária, o virtuosismo sobressai através de saltos e de notas agudas intensas e sustentadas, muitas vezes associadas a contrastes dinâmicos.

 

Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 – 1893)
O Quebra-Nozes: Valsa das Flores

Duração: c. 7 min.

O Quebra-Nozes é um bailado de temática natalícia escrito por Piotr Ilitch Tchaikovsky entre 1891 e 1892, que resultou de uma encomenda de Ivan Vsevolozhsky, diretor dos Teatros Imperiais da Rússia. Estreado em São Petersburgo a 18 de dezembro de 1892, não teve a receção entusiástica dos anteriores bailados do compositor. A Valsa das Flores faz parte do segundo ato do ballet, acompanhando os padrões regulares da coreografia de um número de grupo em que várias flores dançam para Clara e o Príncipe, protagonistas do bailado. Uma introdução lenta, dominada pela harpa, coloca os personagens em cena, cedendo lugar à textura de valsa. Tchaikovsky apresenta, sucessivamente, as melodias ondulantes, enfatizando-as com uma orquestração colorida.

 

Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 – 1893)
Evgeni Onegin: Cena da Carta

Duração: c. 13 min.

Evgeni Onegin é um romance publicado em verso por Alexander Pushkin entre 1825 e 1832. Esse marco do Romantismo russo foi adaptado a ópera por Tchaikovsky em 1878 e estreado no ano seguinte. O enredo coloca as convenções sociais e as relações sentimentais em primeiro plano. A protagonista Tatyana conheceu Onegin numa visita deste à propriedade rural da sua família e foi profundamente afetada com a sua presença. A Cena da Carta tem lugar na noite após o primeiro encontro, quando Tatyana escreve uma carta a Onegin expondo os seus sentimentos. Tchaikovsky compôs um momento expressivo baseado numa melodia descendente interpretada pela cantora, à qual a trompa responde. Uma secção cinética em que Tatyana demonstra o seu amor num registo quase falado prepara uma nota aguda e sustentada. O dramatismo domina uma secção movimentada em que as longas melodias em legato atravessam o registo da voz da solista. Uma passagem orquestral baseada na melodia principal antecipa o regresso da cantora que conclui a cena com uma nota aguda prolongada.

 

INTERVALO

 

Pietro Mascagni (1863 – 1945)
Cavalleria Rusticana: Intermezzo Sinfonico

Duração: c. 3 min.

O Intermezzo de Cavalleria Rusticana é um dos momentos mais conhecidos desta ópera de Pietro Mascagni. Estreada em Roma a 17 de maio de 1890, a obra resultou de um concurso promovido pela editora Sonzogno para jovens compositores italianos. Tornou-se uma ópera emblemática do verismo, a abordagem italiana ao realismo. Cavalleria Rusticana apresenta um drama passional passado na Sicília do século XIX. O Intermezzo é tocado num período de suspensão da ação, no vazio da praça da aldeia enquanto a população se encontra na missa. As melodias longas e sinuosas são protagonizadas pelas cordas e por um solo de oboé. O lirismo destaca-se num momento de intensa expressividade dramática que faz parte do programa de muitos concertos orquestrais.

 

Antonín Dvořák (1841 – 1904)
Rusalka: Canção à Lua

Duração: c. 6 min.

A valorização da língua e cultura checas a partir da segunda metade do século XIX demonstra a circulação do ideário nacionalista no Império Austro-Húngaro. Rusalka, composta pelo já reconhecido Antonín Dvořák em 1900, inspira-se em mitologia eslava e funde uma abordagem sinfónica com as linguagens dramáticas da altura, em especial o modelo wagneriano. A ópera foi estreada em Praga em 1901 e fixa-se no amor trágico entre Rusalka, um espírito feminino, e um príncipe humano. Este recurso ao sobrenatural é frequente no imaginário romântico e a Canção à Lua é interpretada pela protagonista no primeiro ato, quando esta pede à Lua que informe o príncipe do seu amor. Neste trecho, a atmosfera estática sublinha o melodismo e a imaterialidade lírica da situação.

 

Johann Strauss II (1825 –1899)
O Morcego: Abertura

Duração: c. 10 min.

A música da família Strauss é emblemática da sociabilidade dos últimos anos do Império Austro-Húngaro, em que a opereta vienense e as danças sociais dominavam os programas. Johann Strauss II destacou-se como compositor de valsas e polcas, e dedicou-se posteriormente à música de palco, escrevendo várias operetas. O Morcego foi apresentado no Theater an der Wien a 5 de abril de 1874. O início da abertura é feito para captar a atenção do ouvinte. Seguidamente, ouvimos as principais melodias da opereta, adaptadas a texturas de dança. Contraste, vivacidade, animação e melodismo marcam uma peça leve que nos coloca na atmosfera sensual da Viena dos Strauss.

 

Johann Strauss II (1825 –1899)
Pizzicato Polka

Duração: c. 3 min.

A partir da década de 1850, o desgaste associado à direção de uma atarefada orquestra foi notório em Johann Strauss II, que cedeu parcialmente o seu lugar ao irmão Josef. Paralelamente, a orquestra era contratada regularmente para atuar no Pavilhão Vauxhall. Este situava-se na Estação Ferroviária de Pavlovsk, em São Petersburgo, e era o centro da atividade musical da cidade no verão. Quando outros espaços se encontravam encerrados, foram lá apresentadas obras de grande sucesso, como a Tritsch-Tratsch-Polka e a Pizzicato Polka.

A Pizzicato Polka foi escrita pelos irmãos Johann Strauss II e Josef Strauss em 1869. A obra começa com uma introdução lenta, preparando uma primeira secção em que as cordas apresentam as melodias em pizzicato. Posteriormente, os instrumentos de sopro complementam a orquestra com intervenções que emulam o pizzicato das cordas em esquemas de pergunta-resposta. O regresso da primeira secção e uma curta coda marcam o final desta polca sui generis.

 

Johann Strauss II (1825 –1899)
Tritsch-Tratsch-Polka, op. 214

Duração: c. 3 min.

A Tritsch-Tratsch-Polka foi composta em 1858. Assenta em esquemas de pergunta-resposta de sincronismo preciso e no contraste entre secções por forma a criar expectativa. A leveza da obra remete para a atmosfera do baile austro-húngaro.

 

Johann Strauss II (1825 –1899)
Éljen a Magyar!, op. 332

Duração: c. 3 min.

A polca Eljen a Magyar! é um elogio ao povo húngaro. Assim, Strauss II estilizou elementos associados à música dos Rom da Hungria, que tanto fascinaram os compositores de então. Na coda animada e tensa, cita a Marcha Rákóczi, um dos hinos oficiosos da Hungria na época. A sincopação, o brilho e a energia pontificam numa dança rústica e animada estreada na Redoutensaal, em Peste, em março de 1869.

 

Johann Strauss II (1825 –1899)
No Belo Danúbio Azul, op. 314

Duração: c. 9 min.

A valsa No Belo Danúbio Azul teve a sua génese numa composição coral datada de 1866. O texto do poema evoca a relação umbilical entre o rio e o imaginário centro-europeu. Em 1867, Strauss II fez uma versão orquestral dessa obra, onde se destaca a longa introdução à sequência de valsas vienenses contrastantes.

Notas de João Silva

Uma seleção de aberturas e árias de ópera favoritas, em conjugação com empolgantes polcas, valsas e marchas vienenses da famosa família Strauss, combinam-se no programa do primeiro concerto do ano da Orquestra Gulbenkian no Grande Auditório. Dando continuidade a uma tradição que se tornou popular, a Gulbenkian Música convida-o a para o seu Concerto de Ano Novo, desta vez sob a direção de uma estrela em franca ascensão, a italiana Clelia Cafiero. A Maestrina Associada da Ópera de Marselha contará com a colaboração da lituana Asmik Grigorian, cantora que o The New York Times qualificou como “um dos mais indómitos talentos dramáticos da atualidade”.

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