Anthropic Neglect

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Anthropic Neglect é uma estimulante banda de rock na qual foi instalado um saxofone. Quer isto dizer que sobre a eletricidade crepitante da guitarra e do baixo elétricos, e da tensão assegurada pela bateria, há um saxofone que deambula à solta por cima destes elementos, adentrando e abandonando essa linguagem mais rockeira, criando uma música movediça, avessa a qualquer estabilidade. O entendimento do quarteto foi tão imediato que, após um primeiro encontro na Fábrica do Braço de Prata, estes músicos associados a várias formações de jazz de vanguarda e à banda de rock psicadélico Signs of the Silhouette, passaram logo para estúdio aquilo que então descobriram: um encaixe feito de espontaneidade e de nervo.


Programa

José Lencastre Saxofones tenor e alto
Jorge Nuno Guitarra elétrica
Felipe Zenícola Baixo elétrico
João Valinho Bateria

Se o saxofonista José Lencastre é o mentor dos Anthropic Neglect, na orgânica de funcionamento deste quarteto encontramo-lo no mesmo plano em que está colocado Jorge Nuno, guitarrista que vem do psicadelismo (Signs of the Silhouette) e deste tem trazido para os domínios da música improvisada a energia, a distorção e as densas massas sonoras – um plano simultaneamente de entrosamento e de mútuo desafio, de diálogo e de conflito. Na base dos acontecimentos está o baixo de Felipe Zenícola, músico do Rio de Janeiro que mantém o implacável contínuo rítmico das improvisações, sempre imaginativamente bordejado pela bateria nada convencional de João Valinho, que entende o ritmo de uma forma textural, algo evocativa do black ou do doom metal, águas em que, de resto, já navegou. As premissas vêm do free jazz e as conclusões ganham o formato do free rock, num permanente clima de tensão a que os quatro músicos se recusam a dar alívio.

Tudo é lento e demorado, num trabalho de paciência, de languidez de gato, que torna a inquietação, a angústia até, das construções musicais numa plasticina que vai sendo moldada com uma cuidadosa noção de medida e os muitos indícios de que estará para vir um eventual clímax num desejo sem objecto nem finalidade, necessariamente irrealizável. Cada tema é uma viagem que só nela própria se justifica, não num qualquer destino. Este não existe: é para sempre adiado e impossibilitado, numa estratégia de irresolução que nos deixa suspensos até ao último minuto. Esquecemo-nos do que está à volta, do tempo que passa, e mergulhamos num limbo de sonho do qual não conseguimos sair, nem queremos, apesar da agitação e do desconforto que nos causa. A música não tem de entreter, distrair e alienar, melhor é mesmo que mexa connosco: é essa a mensagem desta corrosiva proposta.

Rui Eduardo Paes

 


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