Serviço de Belas-Artes

 

Depois de uma fase inicial caracterizada por uma ação diversificada e abrangente, o Serviço de Belas-Artes (SBA) consolidou o seu papel como serviço prioritariamente distributivo da Fundação Calouste Gulbenkian, apoiando a produção, a reflexão e a investigação nas áreas das artes visuais, arqueologia, história da arte e património, bem como nas do teatro e do cinema, nas quais o seu papel foi decisivo, sobretudo no que respeita à consolidação de estruturas e ao lançamento de projetos experimentais e inovadores. A história do SBA acompanhou, ao longo dos seus cinquenta e quatro anos de existência, a própria evolução das necessidades sentidas no país nas diversas áreas em que a sua intervenção se tem processado, dando origem a um serviço progressivamente especializado.

Criado em 1956, altura em que a Fundação dava os primeiros passos de intervenção na vida artística portuguesa, o Serviço de Museu e Belas-Artes, sob a direção de Maria José Mendonça, apresentou em Lisboa, em 1957, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, a «I Exposição de Artes Plásticas», que teria um enorme impacto no país, trazendo estímulo e apoio aos artistas portugueses, bem como a um público ávido, que acorreu em grande número à mostra. Esta exposição daria origem à atribuição das primeiras bolsas de estudo, bem como às primeiras aquisições para a Coleção de Arte Moderna e Contemporânea da Fundação, premiando igualmente um grande número de artistas que se tornaram, depois, referências incontornáveis da criação artística nacional: Eduardo Viana, Barata Feyo, Dordio Gomes, Abel Manta, Bernardo Marques, Júlio Resende, Jorge Vieira e Júlio Pomar, entre outros, tendo um, já consagrado (Almada Negreiros), sido apresentado fora de concurso.

Em 1960, dar-se-ia a cisão entre o Serviço de Museu (com o encargo de conservar, estudar e apresentar a vasta Coleção do Fundador, Calouste Sarkis Gulbenkian) e o de Belas-Artes (com uma função distributiva, complementada, no entanto, pela realização de iniciativas consideradas emblemáticas nas suas áreas de intervenção, em consonância com a sua missão e objetivos estratégicos). Artur Nobre de Gusmão assume a direção do SBA neste ano.

 

Aspeto da sala de receção das obras de arte para a «I Exposição de Artes Plásticas». Pavilhão provisório FCG, Lisboa, 1957. Biblioteca de Arte | CFT032.1/274 © Mário de Oliveira
Aspeto da sala de receção das obras de arte para a «I Exposição de Artes Plásticas». Pavilhão provisório FCG, Lisboa, 1957. Biblioteca de Arte / CFT032.1/274 © Mário de Oliveira
Aspeto da exposição «Os Anos 40 na Arte Portuguesa». Galeria de Exposições Temporárias do Edifício Sede (piso 0), 1982 Arquivos Gulbenkian, F02 00961 © Júlio Almeida

 

 

Exposições

De entre as mais importantes iniciativas do serviço, destacam-se os diversos ciclos de exposições, continuando a prática inaugurada em 1957, com uma «II Exposição de Artes Plásticas», que decorreu na Feira Internacional de Lisboa (FIL), de dezembro de 1961 a janeiro de 1962, reunindo um vasto número de artistas e incluindo, pela primeira vez, também a arquitetura. Nesse mesmo ano de 1961, o serviço levou a Lisboa, Porto e Coimbra uma exposição sobre a arte britânica do século XX, numa organização do British Council para a Fundação. Em 1964, foi apresentada na Tate Gallery, em Londres, uma importante exposição internacional, subsidiada por este serviço, que reuniu grande parte dos maiores artistas desta geração, sob o título «54/64: Painting & Sculpture of a Decade». Em 1965, foi apresentada, na FIL, a exposição «Um Século de Pintura Francesa, 1850-1950», acompanhada por oito conferências de especialistas franceses e portugueses e vista por cerca de 100 mil visitantes. 1965 seria também o ano da apresentação de duas exposições de cariz arqueológico, ambas apoiadas pelo SBA, que procuravam dar a conhecer os aspetos artísticos de duas culturas pouco divulgadas na Europa e, em particular, em Portugal: os «Ouros do Peru» e os «Tesouros do Museu de Bagdade». Em 1966, foi apresentada em Lisboa, Braga e Rio de Janeiro, a exposição «Bernardo Marques: Obras de 1950 a 1960», enquanto em 1967 se apresentava a primeira grande exposição de arte contemporânea portuguesa no estrangeiro, a «Exposição de Arte Portuguesa: Pintura e Escultura do Naturalismo aos Nossos Dias», inicialmente apresentada em Bruxelas, seguindo em 1968 para Paris e Madrid. Em 1969 e 1970, eram apresentadas em Lisboa, pela primeira vez, obras de Amadeo de Souza-Cardoso, Columbano e Vieira da Silva, recentemente adquiridas, e que passariam a integrar a coleção do futuro Centro de Arte Moderna (CAM). Raul Lino foi objeto de uma exposição retrospetiva em 1970, ano em que foi igualmente apresentada, em Abrantes e no edifício da Sede da Fundação, a exposição «Pintura dos Mestres de Sardoal e de Abrantes». 1971 foi o ano de apresentação das exposições «100 Obras de Arte Britânica Contemporânea da Fundação Calouste Gulbenkian» e «Arte Francesa depois de 1950».

Em 1982, iniciar-se-ia um novo ciclo de exposições, virado para a investigação e reflexão sobre a arte portuguesa contemporânea sob o Estado Novo, com «Os Anos 40 na Arte Portuguesa». Esta iniciativa seria sucedida, em 1992, por uma exposição dedicada à «Arte Portuguesa dos Anos 50».

Com a abertura do CAM, em 1983, o campo de ação do SBA centrou-se mais na sua missão distributiva, ainda que com significativas colaborações na produção de exposições com serviços entretanto criados, como o CAM e o ACARTE, e com os já existentes, como o Serviço de Música ou o Serviço de Exposições e Museografia (SEM). Exemplos disso serão a colaboração, em 1985, com o SEM e o CAM, na exposição «A Imagem Holográfica: Oito Artistas na Era do Laser», iniciativa que marca a atenção da Fundação à utilização artística das novas tecnologias, e a colaboração nos «Encontros Luso-Americanos de Arte Contemporânea», realizados em 1989, que contaram com organização do CAM, do ACARTE e do Serviço de Música, bem como com a participação da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).

A produção de exposições em que a novidade dos temas e a componente de investigação estiveram presentes continuou a nortear as iniciativas do serviço: veja-se os casos das exposições dedicadas ao design português contemporâneo[1], à arquitetura[2], ao azulejo[3] ou à fotografia[4].

Dentro deste espírito, o serviço levou igualmente a cabo outras importantes exposições mais vocacionadas para a reflexão no campo da história da arte, designadamente a exposição «Robert C. Smith, 1912-1975. A Investigação na História de Arte», apresentada em 1999, no Brasil, e em 2000, na Fundação, ou a exposição «50 Anos de Arte Portuguesa», apresentada em 2007, na Fundação. Ainda na área da história da arte, este serviço realizou, no âmbito de um protocolo com a Fundación Pedro Barrié de la Maza, da Corunha, um conjunto de três exposições, acompanhadas por espetáculos e colóquios, nas quais se analisaram, através de um profundo trabalho de investigação levado a cabo por alguns dos mais eminentes historiadores da arte portugueses e espanhóis, as profícuas relações artísticas entre Portugal e a Galiza durante os períodos Românico, Gótico tardio, Renascimento e Maneirismo, bem como na época da implantação da Ordem de Cister em ambos os territórios, acompanhada de uma intensa produção artística, que se estendeu do século XII ao XVIII (foi realizada uma exposição integrada nas comemorações do nono centenário da fundação do Mosteiro de Cister e nos roteiros internacionais Cîteaux 98). Apresentadas em Lisboa, Porto/Matosinhos, Pontevedra e Corunha, essas exposições intitularam-se «Do Tardo-Gótico ao Maneirismo», em 1995-1996, «Arte de Cister em Portugal e Galiza», em 1998-1999, e «Românico em Portugal e Galiza», em 2001.

A título pontual, o serviço continuou a responder a solicitações e propostas de outras entidades, sempre que ficou estabelecido o real interesse artístico dessas mesmas propostas[5].

À direção de Artur Nobre de Gusmão, sucede-se a de Fernando de Azevedo (1992-1994), e a esta suceder-se-á a de Manuel Costa Cabral (1994-2010), que será o diretor do serviço até à sua extinção, em dezembro de 2010.

 

Aspeto da exposição «António Carneiro 1872-1930. Exposição Retrospectiva do I Centenário». Galeria de Exposições Temporárias do Edifício Sede (piso 0), 1973. Arquivos Gulbenkian | F04-12890 © Mário de Oliveira
Aspeto da exposição «António Carneiro 1872-1930. Exposição Retrospectiva do I Centenário». Galeria de Exposições Temporárias do Edifício Sede (piso 0), 1973 Arquivos Gulbenkian, F04-12890 © Mário de Oliveira
Aspeto da exposição «50 Anos de Arte Portuguesa». Galeria de Exposições Temporárias do Edifício Sede (piso 0), 2007 Arquivos Gulbenkian, ID: 110845
Aspeto da exposição «Sebastião Rodrigues. Designer». Galeria de Exposições Temporárias do Edifício Sede (piso 01), 1995. Arquivos Gulbenkian | ID: 168798
Aspeto da exposição «Sebastião Rodrigues. Designer». Galeria de Exposições Temporárias do Edifício Sede (piso 01), 1995 Arquivos Gulbenkian, ID: 168798

 

 

CAMPO DISTRIBUTIVO

Bolsas de Estudo

No campo distributivo, uma das áreas de maior relevância no serviço, e transversal a todos os setores, foi a de Bolsas de Estudo, abrangendo as artes plásticas, as artes aplicadas, história e crítica da arte, estética, património, arqueologia, design, fotografia, arquitetura e urbanismo, cinema, teatro, gestão das artes, museologia e conservação. Nesta área, foram atribuídas bolsas, em Portugal e no estrangeiro, a mais de dois mil bolseiros ao longo dos anos, muitos dos quais se revelariam figuras de primeiro plano nas suas respetivas áreas de especialidade.

A seleção das Bolsas de Estudo de Especialização e Valorização Profissional em Artes, cujos concursos se realizavam anualmente, é levada a cabo por comissões de especialistas, convidados por este serviço de entre reputados especialistas nacionais em cada área a concurso, coadjuvados pelos próprios especialistas do serviço nessas mesmas áreas. O SBA atribuiu também Bolsas Exemplares, orientadas para projetos específicos de criação artística, com programas e concursos próprios, bolsas essas com resultados muito acima das expectativas iniciais, que contribuíram decisivamente para a internacionalização de artistas portugueses.

A Bolsa Ernesto de Sousa, atribuída entre 1993 e 2012[6], destinou-se a premiar um projeto inédito no âmbito da arte experimental multimédia, proporcionando um estágio de um mês a um único bolseiro, na Experimental Intermedia Foundation, em Nova Iorque, complementado por um período de investigação e pela apresentação pública de uma obra realizada durante esse período. Criada em memória de Ernesto de Sousa, foi uma iniciativa conjunta das Fundações Luso-Americana para o Desenvolvimento e Calouste Gulbenkian.

A Bolsa João Hogan, criada em 1999 a partir do legado do artista e em sua memória, teve como objetivo permitir a participação de um artista português, ou de um estrangeiro radicado em Portugal, num projeto de residência e workshop de doze meses na Künstlerhaus Bethanien de Berlim, nas áreas da comunicação multimédia, do vídeo, da fotografia, da gravura e da escultura. A bolsa manteve-se, mesmo depois da extinção do serviço, até 2013. O projeto de residência continuou em vigor, ainda que sem a designação sob a qual foi criado.

Ao longo dos anos, este serviço também estabeleceu, no campo das bolsas de estudo, colaborações pontuais com a Fundação Oriente, o centro de arte contemporânea De Appel (em Amesterdão), o Centro Português de Fotografia, o Royal College of Art, em Londres, o Whitney Museum of American Art, o International Studio & Curatorial Program e o Location One, em Nova Iorque, ou com a Casa de Velázquez, em Madrid, entre outros[7].

 

Estudos de Arte

Uma das primeiras áreas a destacar-se no SBA foi a dos Estudos de Arte, englobando inicialmente os estudos de arqueologia, história da arte, património, museologia e conservação. Na sua génese, estava o conceito do Arquivo de Arte, criado em 1977, o qual, após um longo período de enriquecimento e organização, acabaria por abrir ao público em outubro de 1994, com um espólio de mais de 150 coleções e de cerca de 280 mil imagens, sobretudo fotográficas. Muitas destas coleções resultaram de trabalhos de investigação realizados por mestrandos ou doutorandos em arqueologia e história da arte, patrocinados por este serviço no decurso dos anos 80. Este Arquivo de Arte seria depois integrado, no final de 2001, na Biblioteca de Arte da Fundação.

No campo da museologia e conservação, a intervenção da Fundação passaria a ser apenas pontual a partir dos finais dos anos 80 do século XX, coincidindo com o aparecimento dos grandes institutos públicos com a tutela desta área[8]. Apesar disso, várias foram as ações e os museus que contaram com importantes apoios deste serviço ao longo do tempo.

No que às áreas da arqueologia e história da arte diz respeito, o apoio do SBA revelou-se fundamental para a realização de centenas de trabalhos de campo e de investigação, para o apoio à realização de muitos congressos internacionais no nosso país, para a deslocação de várias centenas de especialistas a reuniões científicas no estrangeiro (onde apresentaram importantes conferências e comunicações), tendo ainda contribuído para a edição de inúmeros estudos e revistas especializadas.

Na área do património, foram atribuídos importantes subsídios a diversas entidades externas[9]. Concederam-se ainda outros subsídios, com caráter excecional, a instituições como a Fundação da Casa de Mateus.

Finalmente, foram reinstituídos os Prémios Gulbenkian, após duas décadas de interrupção, abrindo-se em 1991 concursos anuais nas áreas da arqueologia, história da arte, crítica da arte e estética. Em 1993, foram atribuídos apenas nas áreas de arqueologia e história da arte, passando depois a restringir-se o concurso a essas mesmas áreas. Os prémios passaram, então, a ser atribuídos bienalmente, de forma alternada, até ao ano de 2004.

Nos últimos anos da sua existência, o SBA procurou concentrar a sua intervenção distributiva num conjunto mais limitado, mas mais significativo, de projetos que se haviam destacado pelo caráter inovador e/ou exemplar, reduzindo as suas linhas programáticas, mas aumentando os montantes atribuídos a cada uma e, consequentemente, a cada um dos projetos apoiados.

 

Artes Visuais

No campo das artes plásticas e exposições, a ação do SBA visou sobretudo o desenvolvimento da criação artística nacional, a sua divulgação junto do público (incluindo uma importante componente de promoção da arte contemporânea portuguesa no estrangeiro), procurando ainda incentivar o seu estudo e a produção de documentação sobre a realidade artística contemporânea nacional.

Exemplo desta linha de intervenção foi o programa de apoio aos projetos de criação artística, que visava promover projetos individuais que se caracterizassem pela inovação e solidez, sublinhando uma aposta no caráter vincadamente experimental de muitos deles, e procurando contribuir, por um lado, para o desenvolvimento da obra dos autores, numa perspetiva de pesquisa e exploração de novas fronteiras da criação artística, e, por outro lado, para o incremento da articulação entre artistas e teóricos ou curadores, fator determinante para a afirmação conceptual da arte contemporânea portuguesa.

Outro importante programa centrou-se no apoio à produção de exposições de arte contemporânea, tanto individuais como coletivas, contribuindo para a sua qualificação através da produção de textos críticos ou da sua apresentação a públicos cada vez mais vastos e exigentes. Destinado aos próprios artistas, mas também aos curadores, enquanto elemento crítico indispensável, ou aos promotores, na sua qualidade de agentes de difusão da criação artística contemporânea nacional, este programa recusou, no entanto, o apoio à regular programação das instituições artísticas, assumindo o seu papel inovador e complementar em relação às estruturas de difusão artística, públicas ou privadas, já existentes e em regular funcionamento no nosso país.

Tal facto não impediu o serviço de apoiar algumas das mais importantes mostras regulares apresentadas em Portugal desde finais dos anos 80 do século [10]. Em 1989, foi também apoiada a realização da I Trienal de Arquitetura em Portugal.

Numa perspetiva de aprofundamento da reflexão e da produção de documentação sobre a arte contemporânea, este serviço promoveu, ainda, projetos de desenvolvimento e divulgação artística, privilegiando, em termos individuais, os projetos de produção de documentação e classificação de obras e contextos expositivos e, em termos institucionais, o desenvolvimento de ações e projetos específicos de divulgação e formação artísticas. São disso exemplo os apoios à edição de catálogos de exposições, livros de artista e livros de arte contemporânea, que tiveram lugar até 1999.

Foram igualmente concedidos, até 1996, apoios individuais para a participação de artistas em manifestações de caráter artístico, como simpósios, congressos e afins, bem como em intercâmbios, nos casos julgados de manifesto interesse para os mesmos e, consequentemente, para a arte contemporânea em Portugal.

O apoio às instituições artísticas concretizou-se, até 2001, com a concessão de subsídios para a organização de seminários, workshops, colóquios ou conferências, e também para a aquisição de equipamento e melhoria das condições técnicas das entidades a operar no campo da investigação, formação e difusão das artes visuais[11].

Finalmente, entre 1987 e 2010[12], o serviço manteve um acordo de colaboração com o Ministério da Cultura e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o Acordo Tripartido, visando o apoio a projetos de promoção e divulgação internacional da arte portuguesa e à participação de galerias nacionais em feiras de arte internacionais, bem como apoios aos artistas portugueses para a participação em iniciativas internacionais de renome.

 

Teatro

A criação do Setor de Teatro, no início da década de 60, coincide com um período particularmente ativo na história do teatro português, pelo que a sua ação se encontra profundamente ligada à renovação da atividade teatral no país. Ao longo dos anos, apoiou-se a aquisição de equipamentos cénicos e a edificação e recuperação de salas de espetáculos. Promoveu-se o teatro com a apresentação de criadores nacionais e estrangeiros em todo o país, bem como a criação e a fixação das companhias de teatro independente.

Os subsídios de montagem e o apoio à aquisição de equipamento cénico foram, nesta altura, absolutamente cruciais para o desenvolvimento de uma produção teatral nacional descentralizada, sempre complementada com a apresentação em Portugal de alguns dos melhores grupos estrangeiros. Esta preocupação com a vanguarda teatral levou o serviço a apoiar pesquisas essenciais sobre teatro contemporâneo. Notório foi também o apoio concedido, nesta fase de finais dos anos 70 e início dos anos 80, a muitos grupos independentes que, na sua maior parte, são hoje referências incontornáveis do panorama teatral nacional. As transformações ocorridas entre os finais dos anos 80 e a primeira metade dos anos 90 do século XX, com a alteração no padrão de distribuição dos apoios estatais e a emergência de um número importante de jovens criadores em início de carreira, levaram à alteração da estratégia de intervenção do serviço nesta área, que passou a estar mais centrada no apoio à criação e produção, e menos virada para apoios estruturais, indispensáveis nos primeiros anos da ação do serviço, em que praticamente tudo estava por fazer.

Assim, lançaram-se programas de apoio aos espetáculos de acordo com os novos valores do teatro português, no âmbito dos quais foram apoiadas várias dezenas de espetáculos. Foram, igualmente, criados programas complementares à estrita atividade criativa, com o intuito de propiciar a necessária formação e documentação dos agentes teatrais.

Até ao ano 2000, a ação do Setor de Teatro dividia-se por cerca de uma dezena de programas específicos, alguns destinados apenas a companhias teatrais, outros visando companhias e também projetos individuais, e outros ainda destinados ao apoio a projetos complementares.

A partir de 2004, e face à consolidação da cena teatral em Portugal, o SBA passou a orientar a sua ação, também nesta área, no sentido de complementar os apoios institucionais, entretanto também consolidados, por parte do Ministério da Cultura. Assim, os programas foram reduzidos a apenas três: apoio a novos encenadores, apoio à investigação teatral, nas suas diversas formas, e apoio à consolidação de estruturas já existentes. Com a extinção do SBA, criou-se, em 2011, o Programa Gulbenkian para as Artes Performativas[13], que apoiou teatro, dança e cinema, promovendo projetos que visassem também a internacionalização. Em 2012, alguns destes apoios passaram a estar sob a responsabilidade do Programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas e do Serviço de Bolsas.

 

Cinema

A própria criação de um setor dedicado à sétima arte dentro do SBA está indissoluvelmente ligada ao papel decisivo que a Fundação Gulbenkian desempenhou no Cinema Novo português dos anos 70 do século XX, os chamados «Anos Gulbenkian». A sua ação teve início em 1971, ano em que a Fundação estabeleceu um acordo com a recém-criada cooperativa Centro Português de Cinema, que então agrupava a quase totalidade dos cineastas portugueses. Este acordo vigorou por três anos, durante os quais a Fundação subsidiou, total ou parcialmente, um total de 16 filmes produzidos pelo Centro. A partir de 1975, a Fundação estabeleceu um plano de apoio à atividade da Associação de Cooperativas e Organismos de Base da Atividade Cinematográfica (ACOBAC), apoiando diversas cooperativas. Desde 1990, os apoios do SBA nesta área passaram a centrar-se essencialmente no patrocínio à elaboração de guiões e diálogos.

Paralelamente ao apoio à produção de filmes, que se prolongou para lá desta década, o Setor de Cinema organizou ciclos cinematográficos dedicados a grandes autores. A consolidação do papel da Cinemateca tornou ultrapassada a necessidade de a Fundação continuar a desempenhar este papel. Por outro lado, o exponencial aumento dos custos de produção dos filmes portugueses, com a sua progressiva entrada regular nos circuitos comerciais de exibição e competição, tornou impossível qualquer apoio significativo por parte da Fundação, levando também ao abandono desta linha programática.

Nesse contexto, o serviço concentrou-se, a partir de finais dos anos 80 e, sobretudo, a partir de meados dos anos 90 do século XX, no apoio a projetos experimentais e de formação de novos valores. Antes disso, o serviço vinha patrocinando, já desde 1982, algumas das mais importantes iniciativas de divulgação de filmes e filmografias inéditas em Portugal, destacando-se pelo papel de vanguarda que desempenhou na divulgação do filme fantástico, de terror e ficção científica. A partir de 1998, desenvolveu-se um projeto de realização de filmes experimentais em colaboração com o Departamento de Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Pontualmente, o Serviço de Belas-Artes apoiou também instituições para aquisição e atualização de equipamentos. Destacam-se, na área do cinema experimental, o Projecto Paulo Rocha: Um Laboratório de Cinema (1998), projeto coordenado por Cláudia Tomaz, com continuidade em 2000 e 2001; ou o apoio concedido a Raquel Freire, para a produção do documentário Esta é a Minha Cara, entre muitos outros.

O apoio continuado ao cinema não termina com a extinção do SBA: primeiro, através do Programa Gulbenkian para as Artes Performativas e, mais tarde, através do Programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas e do Programa de Bolsas da Fundação, assegura-se um plano de ação particular, que integra ainda a organização regular de ciclos de cinema, designadamente o ciclo «Como o Cinema era Belo: 50 filmes inesquecíveis», em 2006 e 2007, o ciclo «Anos Gulbenkian», em 2007, ou, mais recentemente, em 2015, o ciclo «Harvard na Gulbenkian, Diálogos entre o Cinema Português e o Cinema do Mundo».

 

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[1] «Sebastião Rodrigues e o Design Gráfico», em 1995 (vencedora do Prémio APOM para Melhor Exposição do Ano), «Eduardo Nery e a Arte Pública/Mobiliário Urbano», em 1997 (complementada com outra exposição sobre os aspetos da arte de atelier do pintor, organizada pela Culturgest), ou «Daciano da Costa e a Arquitetura e Design de Interiores», apresentada em 2001.

[2] Como a exposição «Sede e Museu Gulbenkian. A Arquitectura dos Anos 60», apresentada em 2006.

[3] Santos Simões e o importante trabalho da Brigada de Azulejaria, em 1997.

[4] Mário Novais e o brilhante trabalho fotográfico realizado na cobertura da «Exposição do Mundo Português», de 1940.

[5] Caso exemplarmente ilustrado pelas exposições «50 Anos de Tapeçaria em Portugal: Manufactura de Portalegre», em 1996, ou «Betty Woodman: Vasos e Desenhos», exposição oriunda do Stedelijk Museum de Amesterdão, apresentada em 1997.

[6] Nesse ano (2011), já atribuída pelo CAM.

[7] Após a extinção do serviço, as bolsas de estudo ficaram sob o cuidado de outros serviços da Fundação, que procuraram manter as parcerias estabelecidas e criar novos protocolos: um exemplo será o apoio que se concretiza através da residência artística na Residency Unlimited, em Nova Iorque (bolsa atribuída em parceria com a FLAD, desde 2013).

[8] Competências inicialmente concentradas no Instituto Português do Património Cultural, que se dividiria depois em Instituto Português do Património Arquitetónico e em Instituto Português de Museus, mais tarde Instituto dos Museus e Conservação e hoje Direção-Geral do Património Cultural.

[9] Um exemplo será o apoio à Fundação Ricardo Espírito Santo Silva para a criação, em Lisboa, do Instituto de Artes e Ofícios, que mantém a sua atividade nas artes dos metais, pintura ornamental e mobiliário, entre outras.

[10] Como as Bienais de Arte de Vila Nova de Cerveira, a de Escultura e Desenho das Caldas da Rainha ou, ainda, os seminais Encontros de Fotografia de Coimbra.

[11] Cf. «Serviço de Belas-Artes», in Fundação Calouste Gulbenkian, 1956-2006: Factos e Números. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, pp. 293-323.

[12] Este acordo manteve-se, após a extinção do SBA, através do Serviço de Bolsas Gulbenkian, criado em 2012.

[13] Programa que, à data da sua criação, tinha como duração prevista um período de três anos.

 

 

 

Atualização em 09 maio 2021

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