Jazz em Agosto

37.ª edição 

 

John Coltrane tinha desaparecido havia pouco tempo, enquanto Cecil Taylor e Ornette Coleman estavam a dar forma ao jazz vindouro quando, em 1968, Peter Brötzmann comandou uma trupe de improvisadores nas sessões que originaram o icónico álbum Machine Gun. A música explosiva gerada em torno do saxofonista alemão abriria um novo e fundamental capítulo na genealogia do jazz, em particular naquele que se desenvolvia no continente europeu e que era alimentado por fortes referências à música erudita contemporânea.

É a essa energia vital que Brötzmann se propõe regressar, ao lado de Han Bennink (também presente em Machine Gun) e de Alexander von Schlippenbach, no concerto de abertura da 37.ª edição do Jazz em Agosto. Mas aquilo que escutaremos estará longe de representar qualquer gesto de nostalgia, uma vez que, passadas cinco décadas, a música criada por estes incansáveis músicos continua a vibrar a corda da vertigem e da sofreguidão que só o presente pode conter.

É essa contínua invenção do presente que devemos a Brötzmann, Bennink e Schlippenbach, e que contamina todo este Jazz em Agosto (cujo design gráfico é igualmente assinado por Peter Brötzmann). Através dos projetos de Mats Gustafsson (Fire! e The End), dos solos de bateria porosos à eletrónica e assegurados por Gabriel Ferrandini e Katharina Ernst ou de trompete por Luís Vicente, mas também dos frequentes concertos que navegarão por águas comuns ao jazz de vistas largas e às mais variadas declinações do imaginário rock, não rareiam exemplos de como a liberdade inaugurada por Machine Gun foi assumida como um valor primordial para toda a música que se seguiu no espaço do continente europeu.

Num ano em que procuramos ainda uma forma de recuperar a normalidade nas nossas vidas, o Jazz em Agosto assume um compromisso de reforço da presença de projetos portugueses, com a satisfação de os ver ombrear com os mais inventivos grupos a operar no Velho Continente. E retoma a sua vocação natural de tomar o pulso ao jazz que hoje se faz e que não se conforma em repetir o passado. Aqui, queremos continuar a ver a História a acontecer.


Rui Neves
Diretor Artístico

José Pinto
Diretor Adjunto – Gulbenkian Música