Jazz em Agosto
42.ª edição
A 42.ª edição do Jazz em Agosto reafirma a sua identidade: apresentar a atualidade criativa e original do jazz, música que não cessa de se metamorfosear sem perder raízes. O programa exprime a diversidade estética do jazz de hoje, consequência natural de transformações sociais e tecnológicas, conquistando novos ouvintes e praticantes.
A sequência de catorze concertos é iniciada por uma figura histórica da inovação do jazz desde os anos 1970, o pianista Joachim Kühn, num raro solo de piano em plenitude artística, sempre lúcido, enérgico e surpreendente no estilo abrangedor que o identifica.
A experiência do solo de piano continuará com Pat Thomas, cujo primado orgânico e inventivo tem vindo a ser glorificado. Dois duetos revelam o poder da voz que lê em simbiose com contrabaixo – Fred Moten e Brandon Lopez –, enquanto David Maranha e Rodrigo Amado exploram uma dimensão de continuidade enleante, porventura cósmica.
Dois quartetos assimétricos de Nova Iorque urgem: Canyon, onde a improvisação é uma laboriosa construção, criativa e original, baseada em total empatia, e Shardik, da família musical de John Zorn, aplicando espetaculares efeitos no seu fragmentado, virtuosístico e insolente discurso musical.
O pianista e compositor Marco Barroso, dirigindo a orquestra LUME, um valor do jazz português que já se tornou internacional, apresenta um novo repertório que se antevê jubilatório, enquanto o guitarrista Luís Lopes integra o quarteto francês Bonbon Flamme, que semeia um jogo caótico na aparência, contudo organizado.
O grupo pan-europeu The Sleep Of Reason Produces Monsters dá livre curso à improvisação empática onde a manipulação eletrónica e o turntablism adquirem preponderância, antecipando uma das mais reconhecidas saxofonistas e compositoras da atualidade, a canadiana Anna Webber, baseada em Nova Iorque, no seu original projeto em quinteto estelar, Shimmer Wince.
Outros dois quartetos assimétricos se sucedem: o novo projeto do baterista Ches Smith, Clone Row, com dois guitarristas superlativos revelando uma linha estética musculada, alimentada por composições sedutoras; outro baterista não menos ilustre, Tomas Fujiwara, estreia um novo projeto, Dream Up, em ensemble de percussionistas, oferecendo uma panorâmica vibrante e global.
Os dois concertos finais do Jazz em Agosto 2026 são oriundos de dois epicentros mundiais do jazz: Chicago e Los Angeles: o Chicago Underground Duo de Rob Mazurek e Chad Taylor desdobra-se com eletrónica e multimédia em discurso contagiante, pleno de originalidade, enquanto o quinteto colaborativo SML, de Los Angeles, é uma revelação do electrojazz e um novo passo numa das direções estéticas do jazz inventadas/iniciadas, há mais de meio século, por Miles Davis.
Rui Neves
Direção Artística