Jazz em Agosto – 38.ª edição

Chicago – New York – Lisboa

 

A associação de cenas musicais e sonoridades a determinadas cidades e regiões não acontece por acaso. A música não nasce isolada do ambiente social, político, económico e cultural do meio em que se desenvolve, e torna-se, em muitas ocasiões, um lugar de expressão em que todas estas dimensões se materializam. Quando falamos de Londres no final dos anos 1970, ativamos de imediato uma banda sonora punk, ligada à máxima niilista do “no future”; quando falamos da soul clássica da década anterior, pensamos em Detroit e em Memphis, e na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. E, num mesmo fôlego, tango confunde-se com Buenos Aires, fado com Lisboa, hip-hop com Nova Iorque, reggae com Kingston. A música está sempre povoada pelos contextos que a rodeiam.

Da mesma forma que as cidades são organismos vivos e se transformam, também a música acompanha esses movimentos – desenhados pela gentrificação, pela assimilação de diferentes culturas, pela transformação demográfica ou pela própria história dos lugares. Disso nos dá conta também esta 38.ª edição do Jazz em Agosto, num retrato alargado daquilo a que hoje soam Chicago, Lisboa e Nova Iorque – fazendo ainda uma curta escala em Londres, neste trânsito entre alguns dos lugares onde o jazz vive com uma pulsação mais intensa e criativa.

A Chicago chegaremos pela mão da editora International Anthem, autêntico bastião da música mais desafiadora a palpitar numa cidade que, em tempos, se organizou também em torno do Art Ensemble of Chicago e da AACM. Fundada por Scottie McNiece e David Allen, foi montada para gravar o resultado da residência artística que Rob Mazurek desenvolveu no Gilt Bar no final de 2012, rapidamente atraindo o talento de músicos como Damon Locks, Irreversible Entanglements, Nicole Mitchell, Jaimie Branch ou Angel Bat Dawid, todos eles com passagem pela Fundação Gulbenkian, reunidos em redor não apenas da celebração de um viveiro de vanguardismo, mas também de uma dimensão de criação de comunidade, e de luta social e política, através da música.

Se Londres estará representada pelo coletivo أحمد[ahmed], a viagem com partida em Chicago diverge depois para Lisboa e Nova Iorque. Pela mão de Carlos “Zíngaro”, João Lencastre, Pedro Carneiro e Rodrigo Pinheiro encostaremos o ouvido ao som da Lisboa de hoje, enquanto Ava Mendoza, Kris Davis, Nate Wooley ou Chris Corsano nos levarão até outro nome que é praticamente sinónimo da cidade que habita. Dizer John Zorn é escutar Nova Iorque. Mesmo que, cada vez mais, o seu nome nos lembre Lisboa e o Jazz em Agosto. As cidades, não o esqueçamos, comunicam entre si e sabem como encurtar distâncias.


José Pinto
Diretor Adjunto – Gulbenkian Música

Rui Neves
Diretor Artístico

Atualização em 12 maio 2022

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