Lídia Jorge

A História de Vida da premiada escritora portuguesa, também bolseira Gulbenkian, que ainda apresenta, em exclusivo, a história de vida de uma das suas personagens de ficção.

Lídia Jorge dispensa apresentações e, por isso, não é de mais apresentá-la sempre que possível, para que a memória não se torne esquecimento. Nasceu em 1946, em Loulé. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Como professora do ensino secundário, pisou o solo africano, nomeadamente angolano e moçambicano, passagens que determinaram profundamente a sua escrita. O seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios, foi editado em 1980. Desde então, seguiram-se novos romances, peças de teatro, contos, ensaios, um livro de poesia e um livro de crónicas. É uma escritora reconhecida nacional e internacionalmente, com muitos galardões arrecadados, um dos mais recentes o prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas de Guadalajara, em 2020.

Quem melhor do que as palavras e do que uma das suas personagens de referência para apresentar a escritora? Por sua sugestão, apresenta-se Milene Leandro, a figura central – da primeira à última página – da obra O Vento Assobiando nas Gruas. É o fiel convite para entrar no universo literário de Lídia Jorge, uma das maiores escritoras portuguesas da atualidade.

 

Transcrição
O Vento Assobiando nas Gruas, Dom Quixote, 2002, págs 306-308.

Milene assoou-se demoradamente, a tomar consciência de que existia e era alguém no mundo, entre os grãos de areia. Os grãos de areia colocados, durante um instante, no seu sítio exato. Se falasse na dor, alguma coisa em volta, indispensável, poderia morrer. Não fales na dor. «Oh, pá, não fales na dor…» – pediu ela.

Antonino bebia cerveja pela garrafa. A luz entrando pela garrafa partia na direção da areia e barrava o avanço da treva. Ele limpou a boca com o punho da camisa. Aves caíam do céu sobre a água. A dona do bar veio dizer – «Estive quase a morrer antes de aqui vir ter. Parece mentira mas este local salvou-me...» Antonino, a rir, mostrava as três partes separadas na fileira dos dentes. Se Milene pudesse, não pediria nada a ninguém, não diria nada a ninguém, ela só faria aquilo que na natureza e na vida estava por fazer. O mundo por completar, a vida por construir, por limpar, arrumar, conservar e servir. Se ela pudesse. Não podia, achava-se uma pessoa bera. Podia, no entanto, não acrescentar nem mal nem treva onde sabia que já a havia. Podia não colaborar com o que criava a dor. Não sabia o que era o mal, sabia o que fazia mal. Do mal conhecia os seus efeitos, não as suas raízes. Ainda que não o pudesse dizer. Pois, se sentia isso, não tinha palavras. Se tinha palavras, pensava numa outra coisa, não sentia isso. O que ela quereria era ser lúcida, que a sua cabeça estivesse iluminada de ponta a ponta, ligada à claridade e à inteligência, mas sabia que não era assim. Dentro da sua cabeça, como numa pista de carros de feira, os néons apagavam-se e acendiam-se, fazendo intervalos, encobrindo zonas à vez, criando crateras de insignificância viradas contra a luz. Quando essas se iluminavam, logo outras mergulhavam na escuridão. O cérebro feito para nunca abarcar a totalidade. Que palavras para dizer isso?

Antonino a rir por causa do dourado do sol – «Oh, pá! Correcto, não vamos falar da dor...»

Ela a rir – «Não, não, nunca vamos falar da dor. Pois para quê falar nisso? É assim, o Antonino não fala da dor, eu não falo da dor, então é como se essa coisa fedorenta não existisse...» – disse ela, assoando-se outra vez, ruidosamente, sentindo-se alguém no meio de um mundo terrestre onde não se via dor. A dor deveria existir, em algum esconderijo húmido ou atrás duma ruga de areia, mas não se via. E se não se via nem se apalpava, não existia. Correcto? Ele tinha terminado a cerveja. A cerveja dentro dele transformava-se em movimentos soltos, em mais brilho na pele. Ele a rir mais, para o lado, a esconder os dentes, o riso dele agudo e grave ao mesmo tempo – «Oh! Que loucura. Assim, vai haver dias em que vamos ficar mudos...» Limpava o gargalo amarelo da garrafa para entreter as mãos. «Está combinado, não se fala da dor.» Ele acendeu um cigarro. Deitou-o fora.

Naquele momento, o bar podia levantar-se sobre as próprias canas, deslocar-se durante um quarto de hora e voltar ao mesmo lugar com eles lá dentro. Pousar devagar. As aves podiam partir levando no bico a ponta das ondas. O mar poderia ser erguido no ar pelo impulso das aves. Com o fundo do Oceano aberto, gente que estivesse exilada num outro mundo, à espera, poderia vir acolher-se ali, para fundar uma colónia nova. Gente que se recusasse a falar da dor, isto é, do mal. Isto é, que fosse inocente não por inocência, mas por discernimento. Isso seria possível? «Vamos ver. Nunca falar na dor. Ah! Ah! Como irá ser isso, vamos ver...» – disse ele, divertido, baixando-se para sair pela porta do bar. Fazendo-se leve para não quebrar aquele desenho de tábua erguido na areia da Ria. Levando-a depois, pelo braço, ao longo da ponte de madeira, a longuíssima ponte de madeira, durante a qual ele teria tido mil oportunidades de a beijar. Mas não, ela pensava que ele guardava os beijos para Divina. Ele só a puxava, trazia-a contra ele, afastava-a, fazia-a dançar na saia curta, sobre o tapete de tábuas. Ele próprio, desengonçado, bom dançarino. Usava sapatos de ténis brancos, de sola alta, como patins, e dançava em cima das tábuas. Só dançava.

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