As muitas vidas de Calouste

 

As 496 páginas da biografia O homem mais rico do mundo. As muitas vidas de Calouste Gulbenkian, de Jonathan Conlin, encaminham o leitor por uma das histórias de vida mais surpreendentes de cruzamento de culturas e de geografias: a vida de Calouste Sarkis Gulbenkian. Com livre acesso aos arquivos da Fundação e total controlo editorial sobre a obra, Conlin construiu a biografia numa perspetiva inovadora, fundamentada em muitos documentos históricos.

Nesta seleção de excertos, damos-lhe a conhecer algumas curiosidades sobre a vida de Calouste Gulbenkian, que percorreu mundo, atravessou duas guerras mundiais e se destacou como homem de negócios, colecionador de arte e filantropo.


Como se apaixonou Calouste Gulbenkian por Nevarte Essayan?

Fotografia Nevarte Gulbenkian, s.d.

No verão de 1889, em Bursa, Gulbenkian apaixonou-se enquanto jogava dominó com Nevarte, a filha de Ohannes e Virginie Essayan. Calouste tinha 20 anos, Nevarte 14. Claro que encontros como esses eram intensamente vigiados por governantas e precetores como Devgantz. Pais, tias e tios raramente estavam a distância que não lhes permitisse escutar as conversas, e não se podia confiar nos irmãos mais novos para guardarem segredos. Embora rapazes como Calouste pudessem escapar-se com alguns momentos de liberdade, as filhas raramente dispunham de qualquer tempo a sós até casarem. Dormia uma criada no quarto de Nevarte e, para poder escrever cartas sem ser observada, ela tinha de arranjar maneira de acordar a meio da noite sem acordar também a criada. Escrever cartas era fácil comparado com fazê-las chegar a pessoa certa. Tal era o medo de que caíssem nas mãos dos pais, de criados ou de outros que os bilhetinhos eram enviados sem saudação ou assinatura, em francês, vouvoyant (usando o vous formal em lugar do tu), dando datas falsas, evitando expressões imoderadas (”ma chère”) e recorrendo por vezes a caligrafia disfarçada. A carta de amor mais antiga que nos chegou de Gulbenkian obedece a estas regras, ainda que de forma algo desastrada: está redigida em francês, numa folha de papel com o timbre “Sarkis and Serovpe Gulbenkian”:

Perdoe-me, minha amiga, por eu não ter ido hoje ao jardim. Ontem à tarde, o papá olhava-me de maneira tão estranha que receei que ele suspeitasse de alguma coisa. Ele proibiu-me de sair com aquela jovem, dizendo que ela é demasiado nova para me acompanhar. Portanto, não espere voltar a ver-me no jardim. Ver-nos-emos em B[uyuk] D[ere] — se a minha amiga lá for. Penso que nos veremos, o mais tardar, daqui a um mês. Oh, minha amiga, sei que é inútil recordar-lhe a sua promessa, mas, por amor de Deus, não esqueça o seu voto de não revelar a ninguém nada do que se passou entre nós […] Au revoir, o seu fiel amigo. Se eu parecer frio para consigo, se e quando for a B[uyuk] D[ere], por favor não faça caso, será para mitigar quaisquer suspeitas. Perdoe-me este sarrabisco e ame-me. Se tiver alguma coisa a dizer-me, pode escrevê-lo num pedaço de papel e entregá-lo a esta rapariga, ela não sabe francês. Destrua este papel. Felicidades.

Capítulo três, Um jovem apressado, 1889-1896, pp.58-59

Que bandeira era içada no palacete em Paris de Calouste Gulbenkian no início da primeira Guerra Mundial?

Fotografia de Calouste Gulbenkian, em pé, sem chapéu, num jardim. Sem data

Havia sem dúvida algo de errado com os canários. Em outubro de 1914, começaram a adoecer. Calouste tinha várias gaiolas com eles no seu apartamento em Paris, no 4.º andar do número 27 de Quai d’Orsay. A governanta da casa parisiense dos Gulbenkian, Madame Soulas, tivera o cuidado de isolar o primeiro canário que adoecera. Estava a tornar-se difícil encontrar alpista. Em agosto, a Alemanha declarara guerra a França e a Grã-Bretanha declarara guerra à Alemanha. A Rússia, a Sérvia, o Montenegro e o Japão também estavam em guerra. Paris esvaziava-se, segundo a informação que Madame Soulas fez chegar a Calouste, em Londres. A criada encarregada de vigiar os canários, Francine, ficou perturbada. Rareando os veterinários tanto como a alpista, foi chamado um médico, mas nada pode fazer para ajudar. Apesar de Calouste se ter demitido do cargo de conseiller financier no começo de 1913, Cavid renomeou-o em julho de 1914, precisando da assistência dele para mais um empréstimo. Madame Soulas foi a embaixada otomana e obteve uma declaração escrita a atestar que o apartamento de Gulbenkian pertencia a um membro da delegação imperial. Trouxe também uma bandeira otomana. “É esplêndida”, escreveu ela a Gulbenkian, “e custou uma quantia quase imperial.” Na altura, colocou-a no átrio da entrada com as outras bandeiras, pronta a ser usada quando fosse necessário. Estavam então três disponíveis: a otomana, a britânica e a francesa. A 5 de novembro, desafortunadamente, as duas últimas nações declararam guerra à primeira. O estatuto de Calouste como inglês naturalizado, diplomata otomano e residente francês teria intrigado um funcionário menos expedito. Madame Soulas não se deixou perturbar. Ela cuidaria de desfraldar a bandeira certa no momento certo. Embora normalmente içasse a bandeira otomana, para declarar o estatuto diplomático, substitui-la-ia pelas bandeiras britânica e francesa, fosse “quando houvesse más noticias” ou “se houver agitação em Paris”. Entretanto, em Londres, Calouste concordou que deviam ser feitas poupanças na sua casa de Paris. A água Evian dos canários seria substituída por água da torneira. Concordou que o antigo hábito fora “um luxo disparatado”. Três dias depois, o canário doente morreu e a Rússia declarou guerra ao Imperio Otomano.

Capítulo sete, Desfraldar mais bandeiras, 1914-1918, pp. 131-132

Com que idade adquiriu Calouste Gulbenkian a sua primeira moeda?

Moeda grega (Rodes, c. 250-190 a.C.) adquirida por Calouste Gulbenkian na Sotheby’s, Londres, em 1896

Gulbenkian também expandiu a sua coleção de moedas gregas, um campo em que dizia ser perito. Gostava de contar uma história de como o seu pai, Sarkis, o pusera uma vez à prova, aos 14 anos, dando-lhe 50 piastras como recompensa por ter bom aproveitamento na escola e enviando-o depois a um bazar de Istambul para ver o que poderia obter em troca. O jovem Calouste regressou com dois estateres em ouro argêntico de Kyzikos. Sarkis repreendeu-o, rezava a história, não sabendo apreciar o verdadeiro valor das moedas. Como colecionador de moedas, Gulbenkian tinha preferência pelo estilo “austero” das emissões sicilianas do século V a. C., procurava regularmente os conselhos de curadores do British Museum; em troca, eles procuravam regularmente (e recebiam) donativos para a aquisição de fundos. O “Sr. G.” era um visitante habitual das tardes de sábado a Sala das Medalhas, “com o seu passinho ligeiro, sempre apressado, mas ele próprio sem pressa […] com meia dúzia de moedas cuidadosamente embaladas no bolso”.

Capítulo dez, O fim da contenda, 1924-1926, pp.194

Que artistas contribuíram para o palacete de Calouste Gulbenkian em Paris?

Fotografia do hall e escada. AVENUE D’IÉNA N.º 51 (França, Paris).

Apesar de ter sido retratado como um “oriental” possessivo que guardava por perto o seu “harém” de objetos, na verdade Gulbenkian gostava de deixar artigos adquiridos recentemente com os negociantes, emprestados a museus ou até armazenados, por vezes durante anos a fio, sem sentir necessidade de ele próprio os inspecionar. Em 1922, deu finalmente o passo de construir um cenário adequado para as suas coleções, tendo comprado o hotel (palácio) em Paris de Rodolphe Kann, que ocupava uma esquina a meio percurso da Avenue d’Iena, que se estende do sul do Arco do Triunfo até ao rio. Um Gulbenkian sentir-se-ia indiscutivelmente mais em casa num dos hotels junto ao parque Monceau, onde banqueiros e comerciantes se instalaram por volta de 1900, entre eles a família judaica otomana Camondo. Os dispendiosos edifícios do seculo XVIII adjacentes ao parque eram o invólucro ideal para homens abastados que partilhavam o amor de Gulbenkian por bibelôs franceses do século XVIII, e que criaram “museus caseiros” que constituiriam reminiscências perpétuas do gosto deles, nomeadamente o Musee Nissim de Camondo e o Musee Jacquemart-Andre. Construído em 1897, o hotel de Kann, no número 51 da Avenue d’Iena, era um exercício de neoclassicismo francês. Embora fosse admirador do estilo dele, Gulbenkian optou por esventrar o edifício e reconstrui-lo quase integralmente em torno de uma estrutura de vigas de aço, um processo que demorou quatro anos, de 1923 a 1927. Escolheu para arquiteto Paul-Ernest Sanson. Cliente de extrema exigência, Gulbenkian analisou com minúcia o projeto e recrutou os serviços de outros artistas e designers, como Edgar Brandt e o seu amigo Lalique, que desenhou a notável casa de banho principal no andar superior. Como recordou mais tarde Kenneth Clark, Gulbenkian “conhecia cada grande escadaria de Paris” e teve especial cuidado com esse elemento na Avenue d’Iena.

Capítulo dez, O fim da contenda, 1924-1926, pp. 195-196

O que levava Calouste Gulbenkian consigo quando viajava?

Fotografia tirada durante a visita que CSG fez ao Egipto (14 de janeiro a 8 de fevereiro de 1934) – depois de uma viagem de burro pelas aldeias na zona do Assuão.

Gulbenkian passou a maior parte da década de 1920 a deslocar-se continuamente pelo mesmo circuito de hotéis, sobretudo em França. Embora os nomes dos lugares sejam sinónimo de lazer voluptuoso, não se tratava de uma vida de descontração. Gulbenkian redigiu no seu bloco de notas uma lista de todas as coisas que precisava de ter consigo quando viajava: passaportes, papel de carta e sobrescritos, livro de código de telegrafia, vinhos e champanhes, medicamentos, café, mel (de uma variedade especial), óculos de sol, binóculos (para observação de aves). Sempre acompanhado pelo seu criado e pelo secretário, Gulbenkian nunca se livrava da montanha de telegramas, cartas e relatórios gerada pelos seus escritórios em Londres e Paris. Era regularmente acossado por caçadores de concessões e brasseurs d’affaires de todas as nações. Não lhe era fácil arranjar tempo para ler catálogos e atualizar-se através da Burlington Magazine e de outras revistas de arte, e muito menos para ter contacto direto com os objetos em exposição nos museus ou casas leiloeiras.

Capítulo treze, Senhor Presidente, 1930-1934, pp.253

O que enviava aos amigos Calouste Gulbenkian quando esteve em Lisboa?

Calouste Gulbenkian

Calouste Gulbenkian

Uma vez instalado no Hotel Aviz de Lisboa, Calouste depressa começou a enviar encomendas com provisões para a Grã-Bretanha. Amigos que tinham agradecido educadamente ofertas de caviar cinco anos antes, escreviam agora cartas exuberantes de agradecimento por uma caixa de ameixas de Elvas.

Capítulo dezasseis, País de abundância, 1942-1944, pp.295

Durante a sua estada em Lisboa, onde ficou hospedada Nevarte?

Hotel Palácio no Estoril

Fachada do Hotel Palácio no Estoril. Projeto do arquitecto Henry Martinet (1930). Fotógrafo: Mário Novais (1899-1967). Fotografia sem data

Entretanto, Lisboa e a estância de veraneio atlântica próxima, o Estoril, tornaram-se poiso habitual de espiões e aventureiros, bem como de exilados ricos que se entretinham com apostas. Todos os quartos de hotel disponíveis estavam ocupados e os hotéis dividiam-se vagamente entre estabelecimentos “aliados” e do “eixo”. Nevarte instalou-se no Palácio, no Estoril, que, como o Aviz, era tido como hotel “aliado”. Aí teria cruzado caminhos com um antigo empregado da corretora de Gulbenkian em Londres, a Cull & Co., que agora trabalhava para os serviços secretos de Sua Majestade. Ian Fleming hospedara-se ali, em maio de 1941, e estava envolvido na Operação “Golden Eye”: uma rede de agentes de retaguarda contra a esperada invasão espanhola. Fleming considerara monótono o trabalho de tratar das transações de títulos de Gulbenkian. A história não regista se ele se apercebeu da presença do seu antigo cliente no Aviz — era agora um homem calvo, tímido em público, de riqueza misteriosa e fabulosa, com uma predileção por gatos angora brancos.

Capítulo dezasseis, País de abundância, 1942-1944, pp.297