A vida em Londres

O empreendedorismo 

O pai considerou oportuno que Calouste viajasse até à região petrolífera de Baku (parte do império russo à época), de onde importava o querosene para vender na Turquia. Queria que o filho começasse a envolver-se nos negócios da família.

O sempre interessado e visionário Calouste fez muito mais do que isso, como podemos testemunhar através dos seus diários de viagem, pouco depois reunidos numa obra a que deu o título ‘La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron, souvenirs de voyage’ (A Transcaucásia e Península de Apchéron, recordações de viagem).

Chegado ao destino, ficou deslumbrado com o produto que a Natureza ali conservara durante milénios à espera que os homens se apercebessem das suas extraordinárias potencialidades e o reconhecessem como incomparável fonte de riqueza. Calouste Gulbenkian foi, sem dúvida, um desses homens, pois regressaria a Londres cheio de ideias e pronto para as pôr em prática.

Londres é também o sítio onde vivia a mulher que amava. Tal como ele, Nevarte Essayan pertencia a uma família arménia instalada em Istambul, mas de um grupo social mais abastado.

Os pais de Nevarte tinham inscrito os dois filhos rapazes em colégios ingleses e a família mudar-se-ia para Hyde Park. Por essa altura, Calouste estava a montar em Londres uma representação da empresa familiar e arrendou um apartamento perto dos Essayan, de quem se tornou visita assídua com o intuito de cativar o pai de Nevarte.

Impressionado com a sua função de dirigir a delegação da empresa familiar e com a publicação do livro de memórias da Transcaucásia, o pai de Nevarte deu-lhe a sua bênção e a mão da filha.

Calouste e Nevarte casaram-se em Londres em 1892 e fixaram residência em Istambul onde, quatro anos depois, nasceria o primeiro filho, Nubar Sarkis. Durante esse tempo mantiveram um estilo de vida festivo, entre banquetes e celebrações , até que as comunidades arménias começaram a ser vítimas de perseguição. Esse período viria a culminar num autêntico massacre, em 1896, e no genocídio de 1915. A família viu-se obrigada a fugir para Londres.

Mal chegou à capital inglesa procurou as pessoas para quem levava cartas de recomendação, estabeleceu contactos e depressa se impôs como homem inteligente e conhecedor de tudo o que se relacionasse com o petróleo.

O casal ainda viveu dois anos no Hotel Savoy, em Park Lane, até se mudar, em 1899, para a casa com que sempre sonhara ainda em solteiro: o nº 38 de Hyde Park Gardens, onde viria a nascer, um ano depois, a filha Rita Sirvarte.

Não foi preciso muito tempo para começar a dar provas no mundo dos negócios do petróleo e ser nomeado conselheiro financeiro das embaixadas do Império Otomano, em Londres e em Paris. Em 1902 é-lhe concedida a nacionalidade britânica.

No início do séc. XX, o petróleo passa a substituir o carvão como fonte de energia para os motores das fábricas, dos navios e de um meio de transporte emergente: o automóvel. Torna-se, por isso, infinitamente mais valioso.

Mas o petróleo implicava muito investimento e só as grandes empresas podiam entrar na corrida. Além disso, eram os governos dos países produtores de petróleo que atribuíam as concessões de exploração, definiam prazos, condições e pagamentos.

Os governos do Reino Unido e da Alemanha foram os primeiros a desenvolver uma intensa ação política e diplomática junto do Império Otomano e da Pérsia, a fim de implementar empresas nacionais no terreno e aceder ao tão desejado ouro negro.

Calouste destacar-se-ia ao ser um dos pioneiros no estudo do petróleo, apreciado pelos governantes otomanos, com uma teia de relações entre a classe financeira, política e diplomática que circulava nas capitais europeias. Além disso, era inteligente, perspicaz, empreendedor e dominava várias línguas, acabando por obter autorização para fazer prospeção de petróleo numa importante zona petrolífera da Mesopotâmia, extremamente cobiçada.

Na sequência disto, criou empresas e ligou-se a outras que já existiam, procurando sempre evitar conflitos e gerar consensos que a todos beneficiasse, ao ponto de reduzir a sua quota para poder integrar mais parceiros no negócio. Ficaria conhecido como “o senhor 5%” por grande parte da sua fortuna provir dos 5% que conseguiu manter na Turkish Petroleum Company (mais tarde Iraq Petroleum Company).

A prosperidade do negócio permitiu-lhe alimentar o seu lado de filantropo e a veia de colecionador. Realizou várias viagens com a intenção de visitar lugares históricos e admirar monumentos e obras de grandes artistas. É possível acompanhá-lo nestas aventuras graças aos seus diários de viagem, testemunhos valiosos da sua cultura artística, apurado espírito crítico e surpreendente sensibilidade.

A sua coleção de arte começa a ganhar expressão e Calouste chega mesmo a encetar conversações com Kenneth Clark, diretor da National Gallery, em Londres, para que esta fique num “Instituto Gulbenkian” a construir junto ao museu, num terreno que adquiriu. Porém, durante a 2ª Guerra Mundial é declarado “technical enemy” do governo britânico, por ter acompanhado o governo francês até Vichy, como membro da delegação diplomática persa, e a sua participação na Iraq Petroleum Company é temporariamente apreendida pelos britânicos.

Embora estes atos tenham sido imposições processuais de países em guerra, Calouste considera-os ataques pessoais e começa a pensar em outro lugar para acolhimento da sua coleção.