Poética

Aristóteles

Poucas obras terão tido uma transmissão tão acidentada como a Poética. Certamente conhecida e preservada em Bizâncio, o primeiro texto de que há notícia é, contudo, uma versão siríaca, feita talvez no final do século IX, da qual, aliás, se conhece apenas parte. Na primeira metade do século X, terá sido traduzida para árabe por Abu Bishr, juntando-se assim ao chamado «Aristotelianismo islâmico», que, paradoxalmente, viria a ser uma via fundamental de difusão do saber grego no Ocidente europeu.

O comentário que lhe fez Averróis, no século XII, viria a ser traduzido para latim por Hermannus Alemannus, em 1256. Por outro lado, em 1278, surge uma nova versão latina, desta vez feita a partir do grego, por Guilherme de Moerbecke, que só em 1930 veio a ser redescoberta.

Porém, entre os séculos X e XI, fora copiado um manuscrito grego, vindo de Bizâncio, que acabaria por ser reconhecido como o de maior valor para a reconstituição do texto. É dele que dependem os numerosos códices dos séculos XV e XVI, e nele que se baseia a melhor edição crítica moderna.

Perguntar-se-á sem dúvida como é que, no meio de traduções directas ou indirectas, pôde esta obra exercer tal influência no mundo ocidental, ao extremo de se dizer que é ela que constitui a base dos estudos de teoria literária. Tudo recomeçou a partir das versões latinas feitas em Itália, nos séculos XV e XVI, e a tradução italiana de Castelvetro (1570), que se tornou responsável pela chamada «Lei das três unidades» (de acção, de tempo e de lugar), ao proclamá-las – erradamente – preceito fundamental a observar na composição de uma tragédia. Volvida em lei inviolável durante o Renascimento e o Neoclassicismo, seria Lessing um dos primeiros a considerar que só o texto relativo à unidade de acção era determinante.

É possível distinguir na obra um plano, cujo desenvolvimento se ordena em volta de três partes principais: uma de introdução, em que a mimesis surge logo como o conceito fundamental em que assenta a actividade poética (capítulos 1 a 5); outra sobre a tragédia (capítulos 6 a 22); e outra ainda sobre a epopeia (capítulos 23 a 26).

(Do prefácio de Maria Helena Rocha Pereira)

Ficha técnica

Outras Responsabilidades:

Pref. de Maria Helena da Rocha Pereira; trad. e notas de Ana Maria Valente

Edição:
6ª ed.
Coordenação editorial:
Fundação Calouste Gulbenkian
Editado:
Lisboa, 2018
Páginas:
125 p.
ISBN:
978-972-31-1077-7