Medeia

Eurípides

A Medeia, apresentada nas Grandes Dionísias de 431 a. C., não era a primeira peça de Eurípides (480-406 a. C.). Pelo contrário, a estreia do mais jovem dos três grandes trágicos data-se habitualmente de 455 a. C., por sinal com uma peça ligada também a este tema, As Pelíades. Mas é talvez Medeia a mais antiga das tragédias conservadas. Temos, portanto, um autor em plena maturidade, e uma representação que data de um ano que ficaria tristemente memorável: o do ínicio da Guerra do Peloponeso.

Ligada, desde tempos imemoriais, à expedição dos Argonautas, que, sob o comando de Jasão, foram à Cólquida reconquistar o velo de ouro e o trono de seu pai Éson, Medeia era a princesa que ajudara o herói no difícil empreendimento. Mais tarde os habitantes da cidade fizeram-na vir de Iolcos e proclamaram-na rainha, de onde resultou que Jasão se tomou rei de Corinto.

Aristófanes de Bizâncio condensou o assunto da tragédia: «Medeia, devido ao seu ódio por Jasão, pelo facto de aquele ter desposado a filha de Creonte, matou Glauce e Creonte e os próprios filhos, e separou-se de Jasão para ir viver com Egeu». […] Com efeito, Jasão desposou a filha do rei de Corinto, e Medeia, desesperada, clama pelos juramentos traídos, «abomina os filhos e nem se alegra em vê-los». Estão esboçados alguns dos motivos e perigos fundamentais: a discórdia conjugal, a perversão do sentimento materno, a quebra dos juramentos, a vingança.

A personalidade de Medeia domina, indiscutivelmente, toda a peça. Traçado o seu impetuoso temperamento, ela surge-nos como um ser de razão e observação, de frieza calculista, mas o sentimento maternal trai-a por duas vezes.

Um dos grandes feitos de Eurípides foi precisamente o modo como combinou, nesta tragédia, três ingredientes dificilmente solúveis: a magia pertencente à lenda, a violência da paixão de uma mulher ofendida, a monstruosidade do crime praticado. […] A consciência do horror do acto planeado é também a da própria Medeia. Ela debate-se, a partir do terceiro episódio, entre a atracção da vingança sobre o esposo infiel, e a autoflagelação que resultará do sacrifício dos filhos. Precisamente, nas hesitações dilacerantes do seu espírito, reside, a nosso ver, a essência do drama.

(Da introdução de Maria Helena Rocha Pereira)

Ficha técnica

Outras Responsabilidades:

Introd., versão do grego e notas de Maria Helena da Rocha Pereira

Edição:
6ª ed.
Coordenação editorial:
Fundação Calouste Gulbenkian
Editado:
Lisboa, 2016
Páginas:
129 p.
ISBN:
978-972-31-1121-7