La voix humaine

Orquestra Gulbenkian / Lorenzo Viotti / Marina Viotti

Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Marina Viotti Meio-Soprano
Vincent Huguet Encenação e espaço cénico
Clémence Pernoud Figurinos
Pedro Santos Desenho de luz
Joana Cornelsen Maquilhagem e Cabelos
Bárbara Magalhães Assistente de Guarda-Roupa
Ricardo Junceiro Aderecista
Inês Mesquita Pianista correpetidora

Frederick Loewe (1901 – 1988)
Abertura de My Fair Lady 

Edith Piaf (1915 – 1963)
Mon Dieu 

Erik Satie (1866 – 1925)
Je te veux 

Norbert Glanzberg (1910 – 2001)
Padam Padam 

Francis Poulenc (1899 – 1963)
La voix humaine

Texto: Jean Cocteau
Composição: 1958

“Um quarto, uma personagem, o amor, e o acessório banal das peças modernas, o telefone”. É assim que Jean Cocteau descreve o ponto de partida da sua peça em um ato, escrita em 1927, La voix humaine. A voz humana é de uma mulher sem nome, Elle (ela), que expõe a intimidade e o drama do último contacto telefónico com o seu amante que terminou a relação. A personagem é, nas palavras do autor, uma anónima “vítima medíocre, completamente apaixonada, que tenta uma única astúcia: estender a mão ao homem para que ele confesse a sua mentira, para que não lhe deixe uma recordação mesquinha”.

Jean Cocteau, cineasta, autor dramático, poeta, coreógrafo, pintor, assinou esta forma teatral singular à qual chamou de mono-diálogo, porque aquilo a que o espectador assiste não é um monólogo, embora esteja uma única personagem em palco. Existe um diálogo em que a outra personagem principal está do outro lado da linha. Não se ouve a sua voz, mas podemos adivinhar o sentido das suas palavras. Criticado por alguns amigos na estreia, por considerarem a obra demasiado autobiográfica, Cocteau revela aqui um lado mais dramático, distante das comédias mordazes que o consagraram nos anos 20, assombrado possivelmente pelas histórias de amor que viveu, primeiro com o jovem escritor Raymond Rodriguet, que morreu em 1923 com febre tifoide, e depois com Jean Desbordes, que o deixou para casar com uma mulher.

La voix humaine levou, ao longo do século XX, a várias encenações, servindo de inspiração inclusive a obras cinematográficas. A adaptação mais fiel ao original é a ópera homónima de Francis Poulenc. O compositor entrou na vida de Jean Cocteau em 1917 enquanto membro do Grupo dos Seis, com outros jovens compositores que procuravam uma renovação musical, inspirados em Erik Satie, contra os excessos pós-românticos e impressionistas. Cocteau, já uma figura de relevo no meio artístico parisiense, acolheu-os e impulsionou o movimento. Durante esse período, Poulenc pôs em música vários textos do escritor, mas após a dissolução do Grupo (que na verdade não tinha uma estética unificada) seguiram caminhos artísticos diferentes. Regressou à obra de Cocteau em 1958 com uma partitura para La voix humaine, criada para a voz de Denise Duval, soprano com quem mantinha uma colaboração rica e intensa, após vários anos a escrever para a voz do barítono Pierre Bernac. Poulenc escrevia, Denise experimentava, partilhavam ideias, sentimentos, ruturas amorosas, choravam juntos. A história da vida de Poulenc foi marcada por fases depressivas e atormentada pela perda de muitos entes queridos. Para o compositor foi como uma catarse, uma “confissão musical”. Cocteau escreveu-lhe: “meu querido Francis, fixaste, de uma vez por todas, a maneira de dizer o meu texto”.

Poulenc classificou a obra como tragédie lyrique e estreou-a na sala Favart em Paris, em fevereiro de 1959 e logo de seguida em Milão, no Piccola Scala. Durante dois anos, Denise Duval teve a exclusividade do papel, representando a obra tanto na versão orquestral como na versão para piano, primeiro nas salas de espetáculo europeias (incluindo Lisboa, em 1960) e mais tarde nas americanas. Cocteau acompanhou de perto a montagem da obra, encenando e contribuindo com muitos detalhes para os cenários e figurinos. Trabalhou exaustivamente com Duval para garantir que o seu texto era bem compreendido. Na encenação foi sensível às exigências do canto e da música. O libreto foi adaptado pelo próprio Poulenc, sobre o texto de Cocteau, respeitando a sequência de quadros ou fases, com alguns cortes por questões estruturais, afetivas ou consideradas pouco relevantes na definição do ritmo da obra.

Na partitura, Poulenc estabelece a grande maioria das intenções do texto. A sua música, sobre a prosa de Cocteau, cria uma alternância entre o coloquial e o poético. As mudanças de andamento e de textura acompanham as alterações de humor e as reações da protagonista. As harmonias quentes e a orquestração sensual de Poulenc estão guardadas para os momentos mais líricos, de desabafos ou de recordação de tempos felizes. A linha vocal segue as palavras do texto, mais métrica e silábica nas passagens mais prosaicas, mais melódica nas mais intensas.

A sonoridade do telefone, elemento essencial, “por vezes mais perigoso do que o revólver” (J. Cocteau), é dada pelo xilofone. Os cortes na linha que ocorrem frequentemente (o sistema telefónico francês dos anos vinte tinha ainda muitas falhas) e que perturbam um já por si difícil e doloroso diálogo, e deixam a personagem cada vez mais tensa e ansiosa, são dados por pancadas de arco (col legno) nas cordas dos violinos. O discurso é desconcertante, com longas passagens a cappella. A música correspondente à obsessão da personagem e é construída com a repetição de sequências melódicas. Os fragmentos não se encaminham para lado nenhum e aliados às alterações de tonalidade colocam a personagem num beco sem saída. À medida que a separação se vai tornando mais concreta, a fragmentação diminui e a linha melódica vai ficando mais consoladora. O momento da rutura é uma verdadeira expressão operática.

Susana Duarte

Francis Poulenc (1899 – 1963)
Salve Regina 

Charlie Chaplin (1889 – 1977)
Smile (arr. Klaas-Jan de Groot)

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