Música no Tempo: De Bach a Boulez

Numa entrevista histórica de Pierre Boulez à revista Gramophone, realizada em 1967, o músico e maestro francês recusou qualquer ideia de abordagem objetiva às obras que dirigia. Acrescentaria depois que “as partituras não existem como objetos passivos”, devendo ser interpretadas de acordo com o espírito da época.

Deu então dois exemplos práticos: “a forma como Bach era tocado em 1920 não é igual à forma como gostamos de o ouvir agora” e “a elegância superficial que as pessoas apreciavam em Mozart não é aquilo que admiramos nele em 1967”.

A ideia era evidente: em cada visita ao passado, por mais informada que seja cada interpretação, músicos e maestros relacionam-se com cada peça a partir do presente, um presente com contextos sociais e históricos específicos. E até mesmo o conhecimento acumulado que juntamos sobre os períodos das criações originais depende dos factos e dos olhares que foram coligidos até hoje.

No período temático “Música no Tempo – de Bach a Boulez” é também a partir do agora que nos relacionamos com um enorme arco temporal, desde o Renascimento e do período Barroco até às linguagens artísticas contemporâneas, através das interpretações de um agrupamento especializado em música antiga, como o Hespèrion XXI, de Jordi Savall, e de um especialistas na obra de autores como Boulez, como é o caso do violinista Michael Barenboim, o qual integra também o Jerusalem Chamber Music Festival Ensemble. Testemunhar este intervalo temporal é também perceber como os diferentes períodos comunicam entre si e como o presente é tão mais rico quanto saibamos relacionar e integrar o passado nos nossos dias.