Música no Feminino

Quando visita a terra dos pais, a maliana Rokia Traoré vê-se rodeada de manifestações de admiração, certamente não inferior ao espanto repetido da cantora com a força que encontra nas mulheres da terra, que trabalham de sorriso rasgado no rosto e que não deixam de prestar apoio à família e à comunidade.

O discurso virado para as mulheres do seu país tem sido uma constante no seu percurso, escrevendo acerca da rejeição do papel tradicional da mulher na sociedade maliana e usando as canções para apelar a uma participação cada vez mais plena na vida do Mali.

Esta mesma ideia perpassa também o reportório das irmãs iranianas Mahsa e Marjan Vahdat, as segundas artistas a entrarem em cena na temática “Música no Feminino”. Impedidas de cantar a solo no Irão, Mahsa e Marjan direcionam a sua atividade artística para o estrangeiro. Insistem também em dedicar-se ao ensino do belíssimo canto tradicional persa feminino, que querem salvaguardar de todas as determinações políticas ou religiosas que o possam colocar em perigo.

Também o fado de Aldina Duarte é, amiúde, atravessado por reflexões em torno do lugar da mulher, das expectativas em relação ao seu papel social, à sua beleza, à sua juventude e à sua dependência. Tudo isto ganha expressão num fado que é, acima de tudo, um fado de libertação. A completar este ciclo temático, destaque ainda para a colaboração entre a violinista Carolin Widmann e maestrina Tianyi Lu, e para uma jornada dupla da pianista Joana Gama que regressa à Gulbenkian Música com um recital dedicado a Federico Mompou e um concerto em que a sua linguagem se cruza com a eletrónica minuciosa de Luís Fernandes.