30 Setembro 2019

Entrevista a Leonardo García Alarcón

Mattutino de' Morti

© D.R.
© D.R.

O público da Gulbenkian Música terá oportunidade de ouvir, nos dias 31 de outubro e 1 de novembro, uma das mais belas partituras do século XVIII: o Mattutino de’Morti, composta por David Perez.

A obra foi tocada pela primeira vez em 1770, no Santuário de Nossa Senhora do Cabo (Espichel), na presença da família real. Entre a assistência encontrava-se o escritor britânico William Beckford, que escreveu jamais ter ouvido música tão comovente. O maestro argentino Leonardo García Alarcón, que dirige o Coro e Orquestra Gulbenkian nestes dois concertos, fala do contexto da criação desta obra e da fama de David Perez, compositor que trabalhou ao serviço da corte de D. José I, mas foi sendo esquecido ao longo dos séculos. Alarcón espera que a divulgação da sua música lhe devolva o reconhecimento que, indiscutivelmente, merece.

Porque escolheu dirigir o Mattutino de’Morti neste concerto?

Escolhi esta peça porque ela marcou a minha chegada à Europa, para onde vim estudar, vindo da Argentina. Em 1999, desloquei-me a Lisboa para estudar manuscritos musicais na Biblioteca Nacional. Foi aí que descobri várias peças de David Perez. Pedi uma cópia do Mattutino de’Morti e aconselhei Gabriel Garrido [maestro argentino responsável pela recuperação da herança musical barroca da América Latina, de quem García Alarcón foi assistente] a dirigir a obra, o que acabou por acontecer em Palermo, na Sicília. Nesta partitura aprecio particularmente aquela mistura da música sacra napolitana da época, com forte influência operática, com o contraponto ibérico.

 

Como é que a obra foi recebida na época?

Nesse tempo, o Teatro de São Carlos de Nápoles era imensamente popular em Portugal e os compositores que trabalhavam para aquele teatro eram frequentemente convidados para trabalhar em Lisboa. David Perez era, entre eles, o mais conhecido (e o mais bem pago) e tornou-se mestre de música dos príncipes, em Lisboa, no ano de 1752. Compôs o Mattutino de’Morti em 1770, por ocasião de uma cerimónia religiosa com a presença da família real. Crónicas da época falam da “mais bela música alguma vez ouvida”. Há que dizer que o “estilo napolitano”, de que o Stabat Mater de Pergolesi é um exemplo, era muito apreciado em Lisboa, tornando-se o estilo nacional.

 

Porque é que a obra caiu no esquecimento?

Muitas peças de compositores ibéricos não foram objeto de reedição e por isso foram esquecidas pouco tempo depois de terem sido criadas. Seria maravilhoso que as obras completas de David Perez fossem reeditadas, para que ele voltasse a ser reconhecido como um grande compositor de música sacra e, mais ainda, como um grande compositor de ópera.

 

Que emoções sente quando dá vida a uma partitura adormecida?

É sempre um grande prazer, para mim, dar vida a uma peça esquecida há tanto tempo. É como acordar um espírito que nos deixou há muito, mas ainda tem algo para nos dizer. É um milagre trazer de volta à vida o espírito, as ideias e as emoções de uma outra era, de um outro ser humano.

 

Que dificuldades tem encontrado quando empreende a recuperação de uma partitura?

Normalmente é difícil reconstituir uma partitura musical do passado porque às vezes faltam partes ou tornaram-se ilegíveis, sendo que algumas delas eram também deixadas pelo compositor para improvisação dos músicos. Não é, no entanto, o caso do Mattutino. É uma das mais luxuosas edições musicais desse tempo. Diz-se que Joseph Haydn mostrou um exemplar da partitura a Mozart, considerando-a uma das mais belas edições da época.

 

A sua relação com a Gulbenkian tem quase duas décadas…

Sim, quando estive em Lisboa a estudar os manuscritos musicais na Biblioteca Nacional, em Lisboa, conheci o Rui Vieira Nery, que integrava a direção do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian e que me convidou, mais tarde, para apresentar um concerto de música barroca latino-americana no Mosteiro dos Jerónimos. Estávamos em 2000 e foi o primeiro concerto que dei com a minha recém-formada Orquestra Cappella Mediterranea, e também o primeiro
projeto de programa que criei. Isto explica o meu amor por Lisboa e a minha gratidão para com a Gulbenkian, porque representou o princípio de uma aventura maravilhosa para mim e também para a Cappella Mediterranea.