Metamorfoses

Orquestra Gulbenkian / Lorenzo Viotti / Lisa Batiashvili

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Após três anos como Maestro Titular, da Orquestra Gulbenkian esta é a primeira apresentação de Lorenzo Viotti como Maestro Convidado Principal. O programa inicia-se com Metamorfoses, de Richard Strauss, uma composição intensa e historicamente coincidente com o ocaso da Segunda Guerra Mundial. Em seguida, Viotti regressa à música de Chostakovitch para dirigir o Concerto para Violino e Orquestra n.º 1, op. 77. Como solista, a virtuosa e sensível violinista georgiana Lisa Batiashvili tocará a obra com a qual se estreou nos concertos da Fundação Gulbenkian, em junho de 2002, nessa altura com a Filarmónica de São Petersburgo.


Programa

Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Lisa Batiashvili Violino

Richard Strauss (1864 1949)
Metamorfoses
para 23 instrumentos de cordas

Composição: 1944/1945
Estreia: Zurique, 25 de janeiro de 1946
Duração: c. 28 min.

Nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, Richard Strauss isolava-se cada vez mais na sua vila nos Alpes, afastando-se da fase mais negra do conflito. Lia Goethe e o poema Niemand wird sich selber kennen (“Ninguém pode conhecer-se a si mesmo”) inspirava-o a escrever um esboço de uma obra coral para quatro vozes masculinas e a refletir sobre o autoconhecimento. Regressou a esse esboço após uma encomenda de Paul Sacher, maestro, patrono e empresário suíço, de uma obra para orquestra de cordas. Deu-lhe o título de Metamorphosen, provavelmente inspirado numa outra obra poética de Goethe, As metamorfoses das plantas e As metamorfoses dos animais. Numa reflexão sobre a natureza humana e o perigoso potencial da humanidade em ceder aos mais básicos instintos animalescos, reverte o significado clássico da palavra metamorfose, onde através do autoconhecimento o humano se torna divino.

A obra foi concluída em abril de 1945, pouco antes do suicídio de Hitler e da conclusão da Guerra, e após os bombardeamentos dos Aliados que destruíram a ópera de Viena e outros monumentos de referência da cultura germânica. Antes de Viena, Strauss tinha já assistido à destruição de Munique, onde o seu pai tinha sido primeira trompa na orquestra real e onde ouviu algumas das obras mais emblemáticas de Weber e de Wagner. Sobre esses tempos perturbadores afirmou: “o mais terrível período da história humana está a chegar ao fim, o reinado de doze anos de bestialidade, ignorância e anti cultura, sob o poder dos maiores criminosos, durante o qual os dois mil anos de evolução cultural germânica foram condenados à morte ”.

Metamorphosen, para 23 instrumentos de cordas solistas, contém referências aos grandes nomes da música germânica: Mozart, Beethoven, com uma citação da marcha fúnebre da sinfonia Heroica, e Wagner. Sombria e resignada, “possivelmente a mais triste obra musical alguma vez escrita” (Alan Jefferson), reflete um final de vida amargurado do compositor.

Susana Duarte

 

Dmitri Chostakovitch (1906 1975)
Concerto para Violino e Orquestra n.º 1, em Lá menor, op. 77
1. Nocturne: Moderato
2. Scherzo: Allegro
3. Passacaglia: Andante – Cadenza –
4. Burlesque: Allegro con brio – Presto

Composição: 1947-1948
Estreia: Leninegrado, 29 de outubro de 1955
Duração: c. 39 min.

O Concerto para Violino e Orquestra n.º 1, de Chostakovitch, foi composto entre os anos de 1948 e 1949, num período que ficaria conhecido na história como Realismo Socialista, resultado de uma política decretada por Estaline, na década de 30, que visava a reestruturação da cultura artística, tentando estabelecer as bases para uma nova estética oficial da União Soviética. Esta política terá condicionado bastante o trabalho de Chostakovitch, uma vez que o compositor fora várias vezes visado pela linguagem vanguardista de algumas das suas obras. Em 1948, uma ação de censura por parte das autoridades levou o compositor a defender publicamente a política cultural do Estado. Terá sido esse contexto de repressão a justificação para que a estreia desta obra acontecesse apenas uns anos mais tarde, a 29 de outubro de 1955, já após a morte de Estaline, na então cidade de Leninegrado.

A obra comporta quatro andamentos, aproximando-se assim da ideia de uma suite. O primeiro andamento, Nocturno, está longe do tradicional primeiro andamento dos concertos para violino que estamos habituados a ouvir, essencialmente pelo seu tempo moderadamente lento e caráter contemplativo. A textura é escura, e embora a orquestra e o solista se afastem gradualmente do registo grave que domina desde o início do andamento, até ao fim irá manter-se uma atmosfera melancólica, tensa e até angustiante, não havendo lugar a um momento em que sintamos um libertar de tensão. O final é sombrio, com harpa e celesta a acompanhar o solista que flutua num registo agudo e de sonoridade frágil.

Segue-se o segundo andamento, Scherzo, cujo contraste com o andamento anterior não podia ser maior, ou não fosse este o termo italiano para piada ou brincadeira. Como acontece em outras obras do compositor, Chostakovitch deixa a sua assinatura pessoal com a utilização do famoso motivo DSCH, um criptograma musical que consiste na conjugação das notas Ré, Mi bemol, Dó e Si, que na notação musical alemã corresponde às letras do seu nome.

O terceiro andamento chega-nos de forma imponente e com uma sonoridade fúnebre, dando de seguida lugar ao solista que enuncia o tema principal. O andamento está escrito na forma barroca de Passacaglia, em que uma série de variações, que nos transportam por ambientes distintos, se constroem sobre um padrão melódico-harmónico que se repete nos baixos da orquestra. Uma cadência extraordinária, das mais longas e cansativas já escritas para um violinista, acelera gradualmente até se encadear no quarto e último andamento, Burlesque, que irrompe com uma imensa energia rítmica. Pelo meio há tempo ainda para uma reminiscência do tema da Passacaglia, que surge por intermédio do clarinete, da trompa e do xilofone, antes de um domínio final dos sopros, à medida que o solista avança numa performance ininterrupta de virtuosismo, culminando num acelerando para um Presto final que faz verdadeira justiça a uma obra arrebatadora.

Élio Anes Leal

 


GUIA DE AUDIÇÃO

Por Sérgio Azevedo

No Guia de Audição desta semana, Sérgio Azevedo fala-nos da peça Metamorfoses, de Richard Strauss, e do Concerto para Violino n.º 1 de Dmitri Chostakovitch.


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