Katharina Ernst

Extrametric

Slider de Eventos

Música profundamente enigmática e desconcertante, o solo da percussionista austríaca Katharina Ernst é um constante assalto aos sentidos. Com recurso a uma enorme panóplia de sons, autênticos ou transformados pelo uso de distorção e outros efeitos, Ernst desenvolveu para o seu álbum de estreia, Extrametric, um acervo de camadas rítmicas que desenvolve através de uma série de estudos. E isso tanto significa a investida em composições abstratas e liquefeitas, quanto a abordagem de padrões e estruturas reconhecíveis, numa exibição tão extraordinária de possibilidades criativas do que pode ser um solo de bateria e percussão que custa a crer que, em palco ou em disco, Katharina Ernst esteja, de facto, sozinha.


Programa

Katharina Ernst Percussão

Sem uma clara filiação idiomática, mas aproveitando certos factores das práticas tradicionais de transe (gamelão, África profunda, gnawa de Marrocos), do minimalismo, da música contemporânea para percussão desde Xenakis, do jazz, do krautrock de uns Can, do funk de James Brown, Parliament e Funkadelic, do metal dos Meshuggah e da electrónica de dança para os converter aos seus propósitos, Katharina Ernst forjou uma música polirrítmica feita de sobreposições e cruzamentos de métricas, bem como da sua subversão, que é tão cerebral na sua extrema complexidade como profundamente física na execução performativa. Os seus “estudos” (assim chama às peças que juntou no álbum “Extrametric”, de 2018) têm estruturas invulgares e recorrem à electrónica, incorporando em si uma dimensão melódica que surge habitualmente distorcida e longínqua, como se fosse apenas uma memória.

Para Ernst, este tratado da polirritmia tem mesmo um significado político: «Diferentes actividades acontecem em simultâneo, interferindo-se ou não, mas sem que alguma se superiorize em relação às outras.» Numa determinada peça há ritmos que se mantêm obsessivamente e outros que estão em constante mudança, mas mais do que isso está a sua habilidade em trazer o fundo para a boca-de-cena e o que está em primeiro plano para o cenário, convidando-nos sub-repticiamente a escolhermos que fios de som queremos acompanhar, largando os restantes, de tal modo que cada ouvinte tem a sua própria percepção do todo, distinta das dos demais. A artista designa este processo (e o fenómeno em questão) como “colliding time”, nele coexistindo «governadores do tempo», os que mantêm a ordem dos eventos, e «vampiros da síncope», estes responsáveis por proporcionar a desobediência aos esqueletos definidos e abrir o campo de possibilidades existente por via da improvisação.

Rui Eduardo Paes

 


Parceiros

Rádio Oficial