• 1953
  • Tecelagem manual
  • Inv. TP11
  • Tapeçaria
  • Arte Portuguesa

Júlio Pomar

Praia

A preocupação do movimento neo-realista com o acesso do povo à arte levou a que certos meios artísticos, como a gravura e o mural, fossem alvo de especial atenção, já que a primeira permitia uma maior difusão devido à sua reprodução técnica e o segundo permitia uma contemplação de massas e a saída da arte dos seus circuitos tradicionais. Contudo, devido ao contexto ditatorial português, o neo-realismo teve poucas possibilidades de expressão através da pintura mural, já que esta dependia de encomendas e ficava posteriormente sujeita à censura. A tapeçaria apresentava-se, assim, como uma alternativa possível.

 

Nesta tapeçaria realizada em 1953 Júlio Pomar regressa ao tema do mar, presente em várias das suas pinturas e gravuras. Numa linguagem pós-cubista com afinidades com Almada Negreiros, as formas resolvem-se em volumes geométricos, de contornos nítidos e onde a cor é parte crucial na definição dos volumes e na animação geral da composição. Em primeiro plano observamos duas personagens sobre o areal, em segundo plano um barco e formas piramidais e em terceiro plano as ondas do mar. As ligar e fundir os diversos planos, encontramos elementos decorativos e rimas entre os diversos tons empregues: uma meia lua cuja cor se sintoniza com o amarelo da areia, flores ou estrelas do mar sobre a mancha de azul que desce em diagonal sobre a personagem da esquerda, o ritmo das manchas de azul a dinamizar a horizontalidade de composição.

 

Porém, se compararmos esta tapeçaria, por exemplo, com o óleo de 1950 Mulheres na Praia (também pertencente à colecção do CAM), apercebemo-nos que a carga dramática que permeava as suas obras anteriores é aqui substituída por um decorativismo mais ameno. Nas palavras do próprio autor, esta fase da sua produção neo-realista caíra num “lirismo complacente”, onde a “procura das soluções formais começa a sobrepor-se ao vigor do conteúdo”.* Rostos e paisagens não contêm já a mesma urgência de denúncia social e política, não obstante o alheamento da expressão facial. Todavia, entre a forma semicircular colocada sobre a personagem da esquerda e a estrela recuada no canto superior direito podemos sempre ler um símbolo político camuflado. Para quem assim o queira interpretar.

 


* Júlio Pomar, “A tendência para um novo realismo entre os novos pintores” in O Comércio do Porto, 22.12.1953. Texto consultado em A Arte Portuguesa nos Anos 50, Beja, Câmara Municipal, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1992, p. 49 

 

 

 

Luísa Cardoso

Fevereiro 2015

TipoValorUnidadesParte
Altura117cm
Largura204cm
Tipo assinatura
TextoPomar 5?
Posiçãofrente, cie
TipoAquisição
DataFevereiro de 1977