O Círculo Delaunay

2016

Curadoria: Ana Vasconcelos
CAM – Hall, Salas A e B e Galeria do piso 1
20 de novembro de 2015 a 22 de fevereiro de 2016

“As Férias Grandes”, como chamou Sonia Delaunay ao período passado em Portugal – Junho de 1915 a Janeiro de 1917 -, constituíram para Robert e Sonia Delaunay um período de intenso trabalho, com a paz e tranquilidade possíveis num ambiente generalizado de conflito que acabou por chegar de uma maneira mais directa a Portugal, com a declaração de guerra da Alemanha em 9 de Março de 1916.

 

O círculo dos seus contactos e amizades do qual Amadeo de Souza-Cardoso fazia parte – por intermédio de Robert Delaunay participa na Primeiro Salão Alemão de Outono na galeria Der Sturm, em Barlim, 1913 –, alarga-se então a Eduardo Viana, José Pacheco e ao jovem Almada Negreiros, com 22 anos. Por proposta de Eduardo Viana, viajam até Vila do Conde, onde se instalam no início de Junho de 1915 no nº 7, da Rua Bento de Freitas. Acompanha-os Viana e, em finais de Agosto de 1915, visita-os o pintor americano (de origem ucraniana) Samuel Halpert que Robert Delaunay  conhecera na Bretanha.

 

Em Portugal, o casal Delaunay vai experimentar a pintura a encáustica (cera misturada a quente com pigmento). Halpert, Viana e, em Manhufe, Amadeo, experimentam esta técnia, obtendo camadas de cores mais saturadas, aveludadas, que no caso da pintura dos Delaunay contribuem para uma maior vibração dos contrastes simultâneos (simultaneismo, pintura pura ou órfica, como ficou conhecida). Viana desloca-se frequentemente a Manhufe, em visita a Souza-Cardoso, e também a Lisboa, de onde era natural. Amadeo de Souza-Cardoso visita pelo menos duas vezes os Delaunay em Vila do Conde sem que estes se desloquem a Amarante.

 

A exposição incide sobre o contexto criativo gerado pela presença destes artistas que a guerra traz de volta ao seu país de origem ou que empurra para o exílio. Apresenta muitos dos trabalhos realizados nesses anos, destacando igualmente o projeto coletivo organizado em Portugal pelos Delaunays a que chamaram «La Corporation Nouvelle». Nesta «Nova Corporação» colaboram Amadeo, Viana, Almada Negreiros, nela se inscrevendo igualmente (talvez mesmo sem o conhecimento dos próprios), Blaise Cendrars, Guillaume Apollinaire e o pintor russo Daniel Rossiné (ou Vladimir Baranov-Rossiné). São projectadas “Expositions Mouvantes” (exposições itinerantes) «Nord-Sud-Est-Ouest», de Norte a Sul, de Este a Oeste, e a produção de álbuns, vendidos por subscrição e que acomapanhariam as exposições, numa ação organizada de união entre artistas. Como refere Robert Delaunay no anúncio/programa do Álbum nº 1, ponto 3: «Esta ideia artística e prática nasceu da necessidade de entreajuda das artes mais do que nunca em perigo mais do que nunca uma realidade Universal». (sublinhado do próprio)

 

A exposição será acompanhada pela publicação de um catálogo com textos de investigação que aprofundam o conhecimento existente sobre o tema, focando, nomeadamente, a relação de trabalho de Sonia e Robert Delaunay com Amadeo de Souza-Cardoso e com o galerista futurista italiano radicado em Estocolmo, Arturo Ciacelli, responsável pela apresentação em 1916 da única exposição que se pode inscrever no quadro da «Corporation Nouvelle», ainda que apenas expondo obras de Sonia Delaunay e quatro pinturas datadas de1909 a 1914 de Robert Delaunay ; a encomenda a Sonia Delaunay de uma pintura mural para ser realizada em azulejo na fachada do Asilo Fonseca em Valença do Minho; a influência da pintura simultânea na poética literária e visual de Almada Negreiros; e ainda a relação próxima dos Delaunay com Eduardo Viana. 

 

 

Ana Vasconcelos