Labirintos — Obras da Colecção do CAM

2011

De 30 de Setembro a 17 de Novembro 2011
Piso -1 do Edifício Central da Sede
Curadoria: Leonor Nazaré

Visita realizada no dia 4 de Novembro com a presença dos artistas Cristina Mateus e João Onofre.

Visita realizada no dia 14 de Outubro com a presença da curadora Leonor Nazaré e dos artistas João Paulo Feliciano, Susana Anágua e Rui Valério.

 

O título desta exposição é também o nome do colóquio sobre saúde, desenvolvimento e bem-estar na adolescência, organizado pela Gulbenkian e a realizar nos dias 25 e 26 de Outubro de 2011.

Associada ao Fórum Saúde, esta exposição propõe um espaço alternativo de reflexão: aquele que as obras de arte induzem e dinamizam, de um modo diferente do de qualquer outra actividade humana, acrescentando-lhe preciosas mais-valias.

O enigma do sentido a atribuir à existência e a forma como é perseguido ou abandonado na adolescência, os caminhos e o desnorte, a perturbação, a fantasia e o excesso ou os sinais de ancoragem pontuam tematicamente o percurso pelas obras aqui proposto.

Questões como a da identidade, e a da sua determinação neurobiológica, cultural e psíquica, entendidas num âmbito alargado, definem também os quadros de referência da sua leitura.

 

“Are you safe when you are dreaming?” (Estás a salvo quando sonhas?)

Não sabemos se a inquietação da pergunta esculpida na bóia de sabão de João Pedro Vale visa o sono e a inconsciência do que nele se passa, ou o sonho acordado e a fragilidade das suas fronteiras abertas.

Também a metáfora do labirinto, dos caminhos, do desnorte e da retoma de direcções num percurso se torna inevitável numa constelação semântica como aquela que a obra convoca.

 

Vários trabalhos reforçam, na exposição, a ideia da procura e dos meandros indecisos ou momentaneamente angustiantes a que conduz. É o caso de imagens como a do corredor sem fim alcançável ou só vislumbrável como ponto de fuga e passagem solitária em Smog #15 de Nuno Cera; ou da sequência de portas que se fecham continuamente no vídeo de Cristina Mateus, recusando a presença de um ateliê cujo estirador vazio insiste em assinalar a pausa ou a impossibilidade criativas.

 

O registo em vídeo de um grupo de “sem-abrigo”, feito em 1997-99, esteve na origem de um conjunto de esculturas em que The Rest is Silence II de Noé Sendas se inclui. Os manequins, talhados à escala do próprio artista, vestidos e calçados como pessoas reais, não mostram as mãos, escondidas nos bolsos, nem os rostos, tapados com o cabelo ou com um pano.

O mistério destas personagens só se esclarece parcialmente: conhecemos a sua condição gémea, as costas voltadas, a incomunicabilidade, o silêncio e a solidão de dois seres muito próximos. A cisão e a dualidade irresoluta são imagens poderosas daquilo que a adolescência pode representar. Angustiante, esta obra não é, no entanto, apenas hipótese de fechamento – ela pode ser também a consciência libertadora das opções em presença. Da sua difícil coexistência nasce por vezes a força de uma escolha.

 

A pintura de Paula Rego representa uma forma de “ruído” e estridência visual, desordem em movimento na qual o grito e o susto, a gargalhada e a acrobacia, o destemor e a inconsciência, a dança, o vento e algumas figuras elásticas (fantasmas e palhaços, raparigas e seres andróginos e animalescos) se contagiam reciprocamente. The Vivian Girls as Windmills faz parte da série de pinturas de Paula Rego intitulada Vivian Girls, datada de 1984, e inspirada em The Realms of the Unreal, de Henry Darger, uma narrativa de fantasia e medo, como aquelas que habitam muitas das personagens de Paula Rego.

 

É dentro da herança pop que devem ser lidos os dois trabalho de Teresa Magalhães: o casal que avança confiante e a mãe que empurra o carrinho do seu bebé e que vemos à nossa frente como demiurgos que observam uma parcela de anonimato na multidão. A matriz familiar e amorosa subjacente é veiculada através de uma imagem de modernidade e de leveza que a forma de vestir e a agilidade dos corpos sinalizam.

 

Essa é também a tonalidade conferida por Bruno Pacheco ao conjunto dos seus desenhos, intitulados Whatever (2003-2004), em coincidência feliz com o nome desta exposição, numa diversidade de captações instantâneas muito eclética, luminosa e dinâmica: jovens, roupas, fetiches corporais, desportos, festas, animais, anjos, raparigas… Mas só ilusoriamente podem parecer transportar a frescura de um olhar cativado pelo real. Na verdade, sendo realizados a partir de imagens recolhidas nos media, os desenhos dependem em grande parte duma intermediação reprodutiva que torna quase desapaixonada a sua compilação cumulativa, apesar das circunscrições temáticas detectáveis.

 

Na época em que Teresa Magalhães faz as figuras recortadas, e em que muitos artistas portugueses exprimem uma espécie de neo-figuração de inspiração pop, Sérgio Pombo realiza as suas figuras femininas (na água e na praia) e a figura esculpida que apresenta fragmentada em quatro pedaços (rosto, ventre, joelhos e pés), objectos parciais facilmente associáveis às narrativas de fetiche e sedução.

 

O toalheiro de Ana Jotta (e estamos agora nos anos 90) continua a manter-nos nessa área em que as trivialidades do vocabulário gestual quotidiano são transformadas em apelos à nossa desatenção. Neste caso, a descoberta infantil da diferença sexual, protagonizada por dois ratinhos, como se de um filme de animação se tratasse, é bordada na toalha de pano azul em séries que se sucedem ao ritmo imaginário de cada puxada do rolo. Irrisão na malícia e opção lúdica na marcação de eventos, seja qual for a sua importância relativa, são processos que lhe são habituais na construção de um trabalho que se surpreende a si mesmo em constantes desvios e assumidos caprichos.

 

Artistas representados:

ANA JOTTA . BRUNO PACHECO . CRISTINA MATEUS . JOÃO ONOFRE . JOÃO PAULO FELICIANO . JOÃO PAULO SERAFIM . JOÃO PEDRO VALE . JULIÃO SARMENTO . NOÉ SENDAS . NUNO CERA . PAULA REGO . PETER BLAKE . RUI SANCHES . RUI VALÉRIO . SÉRGIO POMBO . SUSANA ANÁGUA SUSANNE THEMLITZ . TERESA MAGALHÃES

 

VISITAS

Encontros a Fim da Tarde

14 de Outubro (sexta-feira) às 17h00

por Leonor Nazaré, João Paulo Feliciano, Noé Sendas, Rui Sanches e Rui Valério

4 de Novembro (sexta-feira) às 17h00

por Leonor Nazaré, Cristina Mateus, João Onofre e Susana Anágua

 

Domingos com Arte

16 e 23 de Outubro e 6 de Novembro (domingo) às 12h00

“Um ensaio sobre a inquietude!”

por Rita Corte Ferreira

 

Uma obra de arte à hora de almoço

21 de Outubro (sexta-feira) às 13h15

The rest is silence II

por Noé Sendas