Animalia e Natureza na Coleção do CAM

Animalia e Natureza na Coleção do CAM

2015

Curadoria: Isabel Carlos e Patrícia Rosas

CAM – Hall e Nave

17 de outubro 2014 a 31 de maio de 2015

Contemplar a natureza, envolver-se no seu mistério, entre bichos, caminhos e elementos naturais é o que o CAM propõe nesta mostra que tem um enfoque temporal a partir da década de 60 do século passado até à atualidade.

 

A exposição foi concebida a partir do universo iconográfico dos animais e dos quatro elementos naturais, terra, água, fogo e ar presentes na obra de António Dacosta (Angra do Heroísmo, 1914 – Paris, 1990); e que encontra também na natureza uma forte ligação à memória e aos monstros que a ocupam, tal como se poderá ver simultaneamente na retrospetiva do pintor.

 

A exposição inicia-se no hall, com a obra Amazônia (1992), de Julião Sarmento (Lisboa, 1948), uma escultura em madeira com a forma de uma casa rudimentar, sem janelas nem teto, e com uma porta fechada que induz a que se espreite por entre as ranhuras das tábuas toscas. O verde designado de verde-amazónia, pigmento que o artista adquiriu nessa região do Brasil, é de onde também veio a terra que cobre o chão do interior da «casa».

 

A sexualidade e o corpo feminino são centrais na obra de Sarmento, como aliás se pode ver noutra obra sua presente na exposição – O Paradigma de Basedow aplicado à Pintura Decorativa (1995), composta por 11 painéis de diferentes dimensões, que nunca mais foram apresentados, desde a exposição para que foram concebidos no Palácio Nacional de Sintra, mais precisamente para a Sala dos Cisnes, que o artista amavelmente doou ao CAM em 1996; expostos frente a frente, num dos lados representam-se cisnes e no outro um rosto de mulher, cuja expressão – a boca aberta e os olhos semicerrados – remetem para o prazer sexual.

 

A questão do exótico, e claramente ligado à animalidade, encontra-se na obra de 1982, África – I – II – Saca Rabos (Bicho Empalhado), de Leonel Moura (Lisboa, 1948), em que um “sacarrabos” empalhado é colocado sobre o canto inferior direito de uma tela, como se a fosse percorrer, e uma outra tela, mais pequena, junto a esta, representa uma máscara africana com evocações picassianas.

 

Podemos ainda recuar mais na história da arte e no tempo e encontrar o romantismo nas florestas densas e misteriosas de Rui Vasconcelos (Lisboa, 1967), por exemplo, nos cavalos oitocentistas de George Stubbs, referência maior da história da arte internacional nas fotografias de Miguel Branco (Castelo Branco, 1963), que faz um trabalho de desconstrução sucessiva no próprio modus faciendi; estes cavalos de Branco resultam de várias formas.

 

A partir não da história da arte mas da história de um mito, o do monstro do Lago de Loch Ness, as fotografias e o filme de Gerard Byrne (Dublin, 1969) instalam uma estranheza e um mistério a partir não do que se vê mas do que é sugerido. Também monstros ou metamorfoses do corpo humano estão presentes no universo de Paula Rego (Lisboa, 1935) em The Vivian Girls as Windmills e nos dez painéis que compõem Proles Wall (ambas as obras de 1984). A distribuição anárquica das figuras de cores vivas atemorizadas e envolvidas entre um mundo de bichos e figuras que rodopiam, sobrepõem-se e envolvem-se, abraçam e perdem-se, em choques e prazeres, entre os quais o sexo.

 

Os quatro elementos naturais, nesta relação com António Dacosta, surgem como uma evidência: veja-se em torno do fogo as fotografias de Gabriela Albergaria (Vale de Cambra, 1965), imagens da série To Turn Around inspiradas no vaguear da artista pelas florestas nos arredores da cidade de Berlim, ou a escultura de Carlos Nogueira (Moçambique, 1947), Entre duas águas (1992), e o curto filme de dois minutos de António Palolo (1946-2000) datado de 1976, que faz parte de um conjunto significativo de trabalhos fílmicos em 8 mm (transferidos para DVD), que o CAM tem vindo a mostrar.

 

O fascínio dos homens e, consequentemente, da arte pela natureza acontece desde sempre, desde os animais gravados nas grutas de Lascaux, passando pelo bestiário medieval – que os desenhos de Jorge Castanho são herdeiros e as únicas obras expostas que não pertencem ao acervo do CAM –, até ao coelho de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol que Dacosta fez seu, mas também Graça Morais (Vieiro, Trás-os-Montes, 1948) em A Magia na Caça (1978). Júlio Pomar (Lisboa, 1926) relaciona a representação animal comum com um retrato de Dacosta em Briança – Festa do Espírito Santo (com retrato de Dacosta), 1991-1992, de quem foi amigo e instigador do regresso à pintura após um interregno de cerca de 30 anos do pintor açoriano, que cresceu rodeado de mar. Veja-se a representação do mar, tão distinta, em Fernando Calhau (Lisboa, 1948 – 2002), Thomas Joshua Cooper (San Francisco, Califórnia, 1946) e John Beard (País de Gales, 1943), apesar dos três usarem suportes que é suposto reproduzirem a realidade: a serigrafia, o filme e a fotografia. Ou a representação da própria natureza na obra de Hamish Fulton (Londres, 1946), Eyes Flames herbs Chang heart hands feet (1985), odisseia de um nómada como refere Michael Auping , com um espírito de sentido de lugar.

 

A caminhada na natureza – registada numa única fotografia – é o meio e o fim do seu trabalho, a natureza surge como experiência física, em que o artista se incorpora e percorre-a. As obras aqui apresentadas, tal como afirmou Duchamp, são feitas pelos espectadores e, neste caso, os artistas nestas obras foram espectadores da natureza, cada um observando-a com olhos diferentes, o que resulta nesta cosmogonia de visões.