O que contam as paredes: Almada Negreiros e a pintura mural

A Feira do Livro de Guadalajara tem este ano como país convidado Portugal. Neste âmbito, uma verdadeira embaixada da cultura portuguesa, da literatura à pintura, passando pela música, cinema e artes performativas, vai estar presente nos próximos dias no México. A exposição O que contam as paredes: Almada Negreiros e a pintura mural (de 23 de novembro de 2018 a 3 de fevereiro de 2019), com curadoria de Mariana Pinto dos Santos, é uma das três mostras portuguesas que vai estar patente ao público durante este acontecimento, um dos maiores eventos culturais da América Latina.

O Instituto Cultural Cabañas, onde se encontra a exposição, é um imponente edifício do final do século XVIII, hospício criado para dar guarida aos mais desfavorecidos. É aqui que se encontram as impressionantes pinturas murais de José Clemente Orozco (1883-1949), artista cuja obra tem uma forte carga política e social, centrada muitas vezes no sofrimento humano. Juntamente com Diego Rivera foi um dos protagonistas do chamado Muralismo Mexicano.

Esta exposição surge, assim, como um possível diálogo entre a pintura mural mexicana e a pintura mural de Almada Negreiros, representada na exposição através das magníficas tapeçarias (Manufatura de Tapeçarias de Portalegre) feitas a partir dos frescos das Gares Marítimas de Alcântara (1941-1945) e da Rocha do Conde de Óbidos (1946-1949).

As tapeçarias pertencentes à Coleção Moderna do Museu Calouste Gulbenkian (Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, segunda estação a ser construída) foram executadas entre 1978 e 1980 – Partida de Emigrantes Domingo Lisboeta. Nestas obras, Almada utiliza um tipo de representação muito diferente da que está patente na Gare Marítima de Alcântara, as figuras são quase geométricas, as cores são aplicadas em bloco e há uma influência claramente cubista que não se faz sentir nas primeiras.