29 Maio 2020

Tempos de Estranheza

António Júlio Duarte. «White Noise #25» (pormenor), 2011-2017. Impressão a jato de tinta. Coleção Moderna

No quadro da pandemia causada pelo coronavírus SARS-CoV-2 e consequentes restrições à circulação e interação social, vale a pena retomar o trabalho de artistas que evocam cenários que hoje em dia testemunhamos e sentimentos que experienciamos nesta situação atípica. Algumas das obras de António Júlio Duarte (1965) e Nuno Cera (1972), dois dos mais notáveis fotógrafos portugueses da atualidade, vão exatamente ao encontro deste tempo e espaço de estranheza.

A série Smog, de Nuno Cera, é composta por 22 fotografias e foi apresentada numa exposição em parceria com Noé Sendas, em 2000, no Museu de História Natural, em Lisboa. Smog é um termo inglês, resultante da aglutinação das palavras «fumo» (smoke) e «nevoeiro» (fog), que define um problema de poluição atmosférica, o qual se materializa num fumo esbranquiçado, e que, infelizmente, se verifica nas grandes cidades.

As duas imagens de Nuno Cera que aqui apresentamos são representativas do seu trabalho, no sentido em que nos mostram espaços que se dirigem para um ponto de fuga, ou nele culminam. O artista fotografa frequentemente locais de passagem, de cruzamento, criando territórios de transição entre momentos, entre condições– são lugares que remetem para a temporalidade. Ao não apresentar referências concretas às cidades em que fotografou, Nuno Cera reflete ainda acerca das cidades em geral, onde habitam «a globalização, a angústia, a desilusão, o isolamento»2

António Júlio Duarte, por sua vez, criou a série White Noise, composta por 32 fotografias, que compilou num livro homónimo, editado em 2011. O título refere-se ao «ruído branco», uma mistura de sons indistinguíveis, como o ruído estático de um rádio ou a passagem do trânsito, os quais, conforme o volume, podem provocar sensações opostas, oscilando entre o reconfortante ou apaziguador e o insuportável, ou mesmo torturante. À semelhança do smog, o ruído branco tende também a ser um traço definidor das grandes cidades – as que não dormem, com uma apelativa vida noturna, onde se incluem os casinos. As imagens revelam-nos pormenores curiosos das entradas de vários casinos em Macau, exibindo o luxo característico desse tipo de lugares, mas com um tom onírico, em muito devido ao flash que o artista aplicou, mas também devido à ausência de pessoas nas fotografias.

Os dois artistas evocam ambientes específicos das grandes superfícies urbanas – smog e white noise –, pesadamente povoadas, poluídas e ruidosas. Paradoxalmente, as fotografias de ambas as séries não espelham essa realidade. Tomando o exemplo das imagens que ilustram este artigo, somos confrontados com cidades desertas e casinos vazios, num desconcertante paralelismo com a situação atual. Se antes estas fotografias pareciam saídas de um sonho ou de um cenário pós-apocalíptico, tornam-se agora realidade diante de nós. Hoje em dia, devido à política de isolamento social adotada um pouco por todo o mundo, poderíamos até tomá-las como um registo documental.

Nuno Cera e António Júlio Duarte parecem ainda trabalhar no sentido da deturpação das referências temporais, numa escuridão perpétua, iluminada apenas por luzes artificiais. Ficamos a pairar, num impasse, numa suspensão do tempo. Esta desorientação pode ser entendida como transversal aos cidadãos que atualmente se encontram em confinamento – os dias da semana, fins-de-semana e feriados são praticamente indistinguíveis no decorrer da nova rotina diária. À semelhança dos espaços de transição de Nuno Cera, também esta será uma situação de passagem entre condições, entre o normal e o «novo normal».

Texto de Laura Almeida


1 Delfim Sardo, «Crossings» (consultado a 20 de abril de 2020).
2 José Oliveira, «Smog #15» (consultado a 18 de abril de 2020).